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Estado de Minas entrevista/marcelo klein

Diretor da Vale: 'Garantia da não repetição é princípio que nos inspira''

Uma empresa "mais segura, confiável e humana" e reparação dos danos são metas da empresa desde o desastre de Brumadinho, há dois anos e meio, diz executivo


25/07/2021 04:00 - atualizado 24/07/2021 23:42

(foto: Jair Amaral/EM/D.A -14/6/19)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A -14/6/19)

 

Os brasileiros lembram hoje os dois anos e meio da tragédia de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte: em 25 de janeiro de 2019, a barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale, se rompeu deixando 270 mortos e 10 desaparecidos. Impossível esquecer o drama das famílias, fechar os olhos para o sofrimento das vítimas, virar as costas para a destruição ambiental na Bacia do Rio Paraopeba e não lamentar o caos gerado no município pela catástrofe. Nada ficou no lugar – muito menos no coração dos moradores e dos milhões de solidários, mundo afora, a tanta dor.

 

No olho desse furacão está o diretor especial de Reparação e Desenvolvimento da Vale, Marcelo Klein, para quem existe o propósito e o compromisso moral, ético e legal de reparar integralmente as pessoas atingidas, o meio ambiente e a sociedade como um todo. Ele diz reconhecer, com humildade, que não tem todas as respostas e que as soluções precisam ser construídas de forma coletiva, com a participação de todos os interessados. Nesta entrevista ao Estado de Minas, Klein fala sobre o recente acordo firmado com o estado, as ações para atender as comunidades atingidas, os programas dirigidos ao meio ambiente, as indenizações, a segurança de barragens em vários municípios, entre outros temas que causam grande expectativa nas comunidades.

 

Na avaliação do diretor, o rompimento da barragem foi um divisor de águas para a mineração e representa a reconstrução da gestão e dos processos do setor. “Isso não é algo que se compra pronto ou é obtido queimando-se etapas. Há muito a ser feito para colocar as operações de toda a indústria mineral em um patamar elevado de segurança”, destaca.

 

 

O senhor já disse, em entrevista ao EM, que "nosso compromisso é jamais esquecer Brumadinho". Passados dois anos e meio do rompimento da barragem B1, qual a maior lição aprendida pela empresa?

O rompimento da barragem em Brumadinho provocou uma profunda reflexão em todos os funcionários e ensejou um movimento de transformação cultural que está inspirando a construção de uma empresa mais segura, confiável e humana. Estamos empenhados em colocar as pessoas no centro de nossas decisões, começando por uma escuta atenta de nossos empregados e das comunidades. Temos a humildade de reconhecer que não temos todas as respostas e que as soluções precisam ser construídas de forma coletiva, com a participação de todos os interessados. A “garantia da não repetição” é um princípio que nos inspira a trabalhar incansavelmente para que nada semelhante volte a acontecer.

 

O senhor, particularmente, no cargo de diretor especial de Reparação e Desenvolvimento da Vale, está no olho do furacão desde o dia da tragédia. Como se sente hoje? Afinal, nem todos os corpos foram encontrados...

O respeito à memória das vítimas e aos familiares é algo muito sério para a Vale. Nossos funcionários que atuam na remoção de rejeitos e no apoio às buscas trabalham continuamente para melhorar as condições das atividades do Corpo de Bombeiros e viabilizar a nova estratégia da corporação para encontrar as 10 vítimas ainda não identificadas. Entendo que faço parte de um projeto maior, que tem o propósito e o compromisso moral, ético e legal de reparar integralmente as pessoas atingidas, o meio ambiente e a sociedade como um todo.

 

Quais foram as ações da empresa, nesses dois anos e meio, para atender as comunidades atingidas?

Trabalhamos diariamente para assistir e cuidar das pessoas atingidas, que tiveram sua vida afetada de alguma forma. Escutamos as pessoas com engajamento e procuramos, de forma transparente, endereçar todas as demandas que recebemos. Reconheço que insatisfações persistem, e procuramos aprender com elas. Nossas ações estruturantes têm evoluído e conquistado resultados potencialmente transformadores, apesar dos desafios impostos pela pandemia da COVID-19. Evoluímos na execução de projetos e entregamos equipamentos públicos novos ou revitalizados, importantes para as comunidades. Nos territórios evacuados, seguimos avançando na construção e execução dos Planos de Compensação, também a partir do diálogo com os moradores.

 

E as famílias das vítimas, todas foram indenizadas?

Temos o compromisso de indenizar de forma justa e rápida todos aqueles que sofreram algum impacto decorrente do rompimento de Brumadinho e da situação de barragens em nível de emergência. Já são mais de 5,1 mil acordos trabalhistas e cíveis de indenização firmados, envolvendo cerca de 10,5 mil pessoas. Temos um cuidado especial no suporte aos processos de indenização, pois as famílias recebem montantes atípicos e tentamos contribuir com orientação qualificada, por meio do Programa de Assistência Integral ao Atingido (Paia), que oferece assistência em gestão financeira e retomada produtiva. Até hoje, 3,3 mil pessoas indenizadas foram atendidas pelo programa.

 

O meio ambiente, ao longo da Bacia do Rio Paraopeba, sofreu grande destruição. Qual o resultado das ações empreendidas na região?

Nosso desafio é recuperar 293 hectares de áreas diretamente impactadas. Já reflorestamos 11,5 hectares, incluindo parte da área atingida e áreas de regularização ambiental (Reserva Legal e Área de Preservação Permanente/APP). Ao final deste ano, a previsão é que 35 hectares de áreas já estejam em processo de reflorestamento, com o plantio de aproximadamente 50 mil mudas de espécies nativas da região. Para esse trabalho, firmamos uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), que viabilizou o desenvolvimento de uma tecnologia inédita para acelerar a recuperação e o reflorestamento através do resgate de DNA das plantas locais.

 

Como está o trabalho para garantir a segurança das estruturas geotécnicas remanescentes do Córrego do Feijão?

Desde o rompimento da B1, fizemos um esforço dedicado e bem-sucedido para aumentar a segurança das estruturas dentro da mina do Córrego do Feijão. Hoje, nenhuma estrutura geotécnica na mina encontra-se em nível de alerta. Recentemente, a barragem Menezes II foi retirada do nível mínimo de emergência e obteve a DCE (Declaração de Condição de Estabilidade) positiva, com estabilidade e segurança atestadas. No ano passado, a barragem B6 já havia obtido sua DCE. Esse ambiente traz mais segurança para as comunidades e todos os envolvidos em atividades na região, e seguimos vigilantes e focados em garantir a segurança das estruturas e das pessoas.

 

A preocupação ainda é grande em Nova Lima (distrito de São Sebastião das Águas Claras, conhecido como Macacos), Ouro Preto, Itabirito e Barão de Cocais quanto à segurança das barragens. De que forma o senhor pode tranquilizar os moradores?

Os moradores dessas localidades e comunidades próximas ganharam importantes reforços na sua segurança nos últimos meses. Em todos esses territórios, já concluímos as obras de construção de robustas estruturas de contenção, aprimoramos a segurança das barragens e avançamos com o processo de eliminação das estruturas em nível de emergência. Em Macacos, as obras para acabar com a barragem B3/B4 entraram na sua segunda fase. Em Antônio Pereira (Ouro Preto), a barragem Doutor teve seu nível de emergência reduzido de 2 para 1 e os preparativos para seu desmanche estão adiantados. O mesmo aconteceu em Barão de Cocais, onde a barragem Sul Inferior teve seu nível de emergência reduzido de 2 para 1 e a coleta de rejeitos na Sul Superior, etapa preliminar ao desmonte, já começou. Em Itabirito, concluímos, recentemente, as obras da estrutura de contenção das barragens Forquilhas e Grupo, permitindo que as ações preliminares ao desmanche das estruturas a montante tenham início. Com esses avanços, vamos eliminando, de forma muito bem planejada e segura, os riscos que ameaçam os moradores dessas regiões.

 

Em Córrego do Feijão, está em andamento a implantação do Território-Parque. Quando será finalizado e em que consiste?

O objetivo do Território-Parque é deixar um legado para a comunidade de Córrego do Feijão, melhorar a infraestrutura, reativar a economia, valorizar a natureza e o turismo e cuidar da memória das vítimas. Já instalamos o reservatório de água da Praça Central e um ponto de informação para os moradores. A praça está sendo reformada e iniciamos a construção do Centro de Cultura e Artesanato e do Mercado Comunitário. Esses equipamentos serão entregues no primeiro semestre de 2022 e serão geridos pela própria comunidade, que receberá oficinas de treinamento. Os negócios locais que funcionarão nesses centros serão impulsionados pelo nosso Programa Empreendedorismo Social Comunitário.

 

Foram muitas as perdas também para o comércio nas áreas atingidas. Que tipo de ajuda os comerciantes vêm recebendo?

Um dos objetivos das nossas ações em Brumadinho é ir além da reparação, estruturar a região e capacitar as pessoas para que elas possam diversificar seus modos de geração de renda e contribuir para o desenvolvimento socioeconômico local, reduzindo a dependência da atividade de mineração. Para isso, temos um pacote de programas para fortalecer as organizações sociais locais e incentivar novas frentes de negócios, além do apoio ao empreendedorismo e capacitação dos moradores.

 

E o futuro? O senhor acredita que o trágico episódio, que nunca deverá ser esquecido, indicou novos caminhos para a atividade mineradora na região do Quadrilátero Ferrífero?

Para a mineração como um todo, o rompimento de Brumadinho foi um divisor de águas e representa a reconstrução da gestão e dos processos do setor. Isso não é algo que se compra pronto ou é obtido queimando-se etapas. Há muito a ser feito para colocar as operações de toda a indústria mineral em um patamar elevado de segurança. Já eliminamos seis barragens construídas pelo método a montante e seguimos cumprindo o planejamento de eliminação das demais estruturas a montante. Nossas operações já estão mais seguras, o que é fruto de uma gestão focada integralmente na segurança das estruturas e das pessoas e na transparência das informações.

 

Qual a avaliação do senhor sobre o recente acordo no valor de R$ 37,7 bilhões fechado com o governo de Minas?

O acordo tem um valor muito grande por trazer segurança jurídica e previsibilidade para as ações de reparação, além de clareza para os papéis de cada ente envolvido. É um grande eixo que facilita a organização das ações de reparação e compensação. Mas desde janeiro de 2019, muito antes de termos em perspectiva a possibilidade de celebrar um acordo, vimos trabalhando intensamente buscando promover uma reparação justa e célere. Até o momento, destinamos cerca de R$ 12 bilhões para promover a reparação dos danos sociais, ambientais e indenizar as pessoas, sendo R$ 6,27 bilhões incluídos no acordo. 


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