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Estado de Minas COVID-19

Guerra na ponta da agulha

Secretário de Kalil diz que estado deixou de enviar 50 mil doses a BH e fala em ''uso político da vacina''. SES afirma que houve ''equilíbrio''


16/06/2021 04:00 - atualizado 16/06/2021 00:06

Nos cálculos da prefeitura, capital deveria ter recebido 70 mil doses de imunizantes na última remessa, mas ficou com pouco mais de 19,3 mil(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press - 26/3/21)
Nos cálculos da prefeitura, capital deveria ter recebido 70 mil doses de imunizantes na última remessa, mas ficou com pouco mais de 19,3 mil (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press - 26/3/21)

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) está descontente com o número de vacinas antiCOVID-19 repassadas pelo governo mineiro na última leva de imunizantes. A cidade esperava receber cerca de 70 mil doses, mas ficou com pouco mais de 19,3 mil. Uma diferença de 50 mil. Ontem, ao comentar o tema, o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado Pinto, atribuiu a diminuição ao que chamou de "uso político" da vacina. O Ministério Público vai ser acionado. Publicamente, como visto nas falas de Jackson, a administração municipal não atribui o imbróglio em torno das vacinas à iminente disputa eleitoral entre o governador Romeu Zema (Novo) e o prefeito Alexandre Kalil (PSD) e aos contornos da relação entre eles. O Estado de Minas apurou, porém, que nos círculos internos da prefeitura belo-horizontina, a corrida rumo ao pleito de 2022 é elencada como principal motivo para a repentina diminuição nos repasses.

O governo de Minas, por seu turno, diz não ter autonomia para mudar o quantitativo dos repasses, definido preliminarmente pelo Ministério da Saúde. Ontem, ao anunciar que todos os cidadãos do estado maiores de 18 anos serão vacinados com a primeira dose até o fim de outubro, o secretário de Saúde, Fábio Baccheretti, afirmou que os cálculos são referendados por pareceres técnicos.

Questionado sobre possível relação entre o caso dos imunizantes e a disputa entre Kalil e Zema, Jackson desconversou. Segundo ele, é possível especular motivos para a queda no número de injeções, mas não há como cravar a justificativa. Antes, quando perguntado sobre as ditas questões políticas que afetam o enfrentamento à crise sanitária, disse: "Para bom entendedor, meia palavra basta”.

Apesar das esquivas, o secretário foi taxativo ao garantir que há figuras tentando utilizar a vacina para fins políticos. "Não resta a menor dúvida de que isso foi por uso político da vacina. E me deixa indignado o fato de usarem a vacina – e a pandemia – como motivo de política. Fazer aglomeração para inaugurar hospital, tudo bem. É um critério político. Uma maneira de fazer política. Inaugurar e asfaltar estradas, tudo bem. Agora, usar a vacina para isso? Fico indignado". 

EXPECTATIVA FRUSTRADA


Com as doses projetadas, mas não entregues, a prefeitura esperava vacinar cidadãos de 53 a 55 anos. Agora, a saúde municipal não nutre expectativas de convocar novas faixas etárias nesta semana. O Poder Executivo municipal explicou que o Ministério da Saúde estabeleceu dois critérios para os estados distribuírem as vacinas entre seus municípios: a população proporcional a cada público contemplado  e a adesão à campanha de vacinação da gripe em anos anteriores.

"Por esse critério, Belo Horizonte tem direito a algo em torno de 14% dos imunizantes destinados a Minas Gerais. Na semana passada, o índice foi de 3,3% – sem que a administração municipal fosse comunicada previamente nem apresentada qualquer justificativa", informou a PBH, em nota.

A CONTA DA SES 

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), o Ministério da Saúde utiliza as bases de dados das campanhas de imunização contra a gripe de 2020, 2019 e 2018 para determinar o número de doses enviadas a cada localidade. Para equilibrar eventuais diferenças, cálculo referendado por entidades como o Conselho de Emergência em Saúde (COES) e a Comissão Intergestores Bipartite (CIB), ligada à SES, passou a considerar as pessoas com comorbidades em proporção ao total de habitantes que têm entre 18 e 59 anos.

"Foi observado que aproximadamente 14% da população de 18 a 59 anos de cada município corresponde à parcela de pessoas do grupo com comorbidade. Nas últimas remessas, porém, BH recebeu doses correspondentes a 12% da população com comorbidade, enquanto vários municípios receberam quantitativos menores, entre 7% e 8%. Portanto, para equilibrar essa distribuição, a última remessa enviada à capital foi com uma quantidade menor de vacinas, conforme decisão em CIB", diz texto enviado pelo governo mineiro. A reportagem procurou o secretário-geral do governo Zema, Mateus Simões, sobre o suposto "uso político". Simões assegurou que os critérios  para a distribuição de doses são “extremamente técnicos'.

Ao discorrer sobre o cronograma de vacinação em BH Jackson Machado afirmou que, se convidado, Kalil pode se encontrar com o governador para tratar dos repasses de doses. "Mas duvido que o governador o convide. O governador se vacinou hoje e nem sequer teve a delicadeza de comunicar à Secretaria Municipal de Saúde para ir lá recebê-lo", disse. "Converso com o secretário Baccheretti quase todos os dias, Tecnicamente, BH se afina muito com a Secretaria de Estado de Saúde. Mas, nesse caso específico das vacinas, essa conversa foi furada", assegurou.

KIT INTUBAÇÃO 

Jackson denunciou, ainda, cortes nos repasses de remédios necessários para a intubação de pacientes. A diminuição na transferência de medicamentos e o montante de vacinas encaminhadas à cidade serão alvo de ofícios remetidos, além do MPMG, ao Ministério da Saúde.

PRÉ-CANDIDATURA 

Nesta semana, Alexandre Kalil (PSD) reconheceu que é, sim, pré-candidato ao governo mineiro. O prefeito, contudo, assegurou que eventual participação na corrida eleitoral só vai se concretizar se puder entregar BH em boas condições. Zema também reconhece o desejo de buscar a reeleição. O PDT deve caminhar com Kalil, que pode contar com o apoio do presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Agostinho Patrus (PV). O Novo, que montou chapa "puro-sangue" para a eleição de 2018, deve ter coligação em torno de Zema.s

Farpas durante a pandemia

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, Alexandre Kalil (PSD) e Romeu Zema (Novo) têm se estranhado. O bate-cabeça já envolveu as restrições do comércio, a falta de leitos e o desenvolvimento de vacinas. O ápice, no entanto, ocorreu ontem, quando o secretário de Saúde de BH, Jackson Machado Pinto, denunciou o que ele chama de "politização da vacina". Relembre outras “agulhadas” trocadas pelos governos de Kalil e de Zema.

DÍVIDA

O desgaste entre governo estadual e administração municipal ocorre desde o ano passado. A primeira faísca foi vista em maio, quando o prefeito mencionou, durante coletiva de imprensa, o valor da dívida do governo de Minas com a prefeitura, que seria de R$ 500 milhões. Kalil negou briga com o estado na época. "É um valor que impacta qualquer medida. Impacta muito no município. Mas não queremos impactar o governo de Minas mais do que ele já está", afirmou. "Adianta pegar dinheiro para Belo Horizonte para prejudicar o governo de Minas? Não é intenção. Aqui não tem gabinete do ódio".


LEITOS

Na mesma ocasião, Kalil criticou a falta de ação do governo do estado para criar novos leitos no interior para diminuir a demanda de pacientes por hospitais de Belo Horizonte. Dois dias depois, o governador Romeu Zema anunciou a reativação de 368 leitos de UTI no estado.


MINAS CONSCIENTE

Outro desentendimento ocorreu três semanas depois, em 4 de maio de 2020, quando Belo Horizonte, que sempre adotou medidas mais restritivas durante a pandemia da COVID-19, não aceitou participar do plano Minas Consciente, formulado pelo governo de Minas para orientar o nível de abertura das atividades econômicas durante a pandemia. Na época, Alexandre Kalil criticou a ação do governo estadual. "O programa de Minas é um programa jogado nas costas do prefeito. Quem resolve é o prefeito. Que programa de Minas? Quem resolve é o prefeito... Nós não precisamos de conselho. Precisamos de dinheiro e liderança. Eu não preciso de conselho. Preciso de dinheiro e liderança", reclamou.

Gafe

Já em 2021, o Estado de Minas mostrou, em 29 de janeiro, a gafe diplomática cometida pelo governo de Minas Gerais, que acabou perdendo a oportunidade de compra do imunizante produzido pelo laboratório chinês Sinopharm por desconsiderar o fuso horário nas negociações. Questionado pelo EM, Kalil afirmou que a gafe aconteceu "não por maldade". "É porque eles não sabem fazer", disse.

Imunização

Em 8 de abril, o governador Romeu Zema (Novo) atribuiu às prefeituras o atraso da vacinação em Minas. Horas depois, o prefeito de BH publicou, em sua conta no Twitter, o percentual de vacinados contra a COVID-19 na capital. "Esclarecimento sobre vacinação. Chega de polêmica sem planejamento", escreveu o prefeito. Naquela data, BH havia vacinado 13,97% da população, enquanto Minas Gerais estava com 9,55%, percentual menor do que a média brasileira, que na época era de 10,13%.

Promessa

Na mesma data, o governador afirmou que as cidades mineiras com processo de vacinação contra a COVID-19 mais acelerado receberiam maiores volumes do imunizante. "A reserva técnica de 5%, que sempre foi separada à parte, vamos utilizar para que haja maior disponibilidade de vacinas para quem precisa. Nos municípios em que o processo de vacinação está mais ágil, vamos utilizar a reserva técnica. Quem está com maior velocidade vai receber um pouco mais de vacina", disse Zema.

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Em 7 de maio, Kalil ironizou o governador pela postura adotada em relação à vacina contra o coronavírus que vem sendo desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "O que a prefeitura fez foi chamar a UFMG e dizer que pode tocar o projeto. Vamos arrumar os R$ 32 milhões. Mas não fui eu que visitei lá. Foi quem não pagou. Quem não pagou visitou a UFMG hoje. Quero trocar. Ele paga e eu visito. Aí fica melhor. O que não pode é eu pagar e ele visitar", afirmou Kalil, que, mesmo sem citar o nome, fez referência à ida de Zema à universidade para cerimônia de inauguração do Anexo 3A do Departamento de Química da universidade. (Déborah Lima)

Prefeito critica Zema


O prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD) disse ontem que o governador Romeu Zema (Novo) ficou ao lado de “quem não defendeu a vida” ao se referir ao relacionamento do gestor estadual com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em entrevista ao jornal “O Globo”, o gestor municipal foi questionado sobre como avaliava a mudança de postura de Zema com o atual presidente da República. Em declarações recentes, o governador de Minas criticou a conduta de Bolsonaro na pandemia. Porém, antes já havia defendido o chefe do Executivo dizendo que ele sofre com "certa perseguição exagerada" de opositores. “O recado que eu dou é que agora é tarde, com 500 mil corpos empilhados. Não é hora de mudar de lado. Tem o lado de quem defendeu a vida e de quem não defendeu a vida”, afirmou o prefeito. Sobre as eleições eleitorais disse: “Quero me posicionar na hora certa. Eu tenho uma tendência a não ficar com o Bolsonaro? Tenho, claro, até pelo meu jeito de governar. Agora, que eu vou pular no outro colo vai uma distância colossal”, disse.




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