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Estado de Minas PATRIMÔNIO

Pandemia da COVID-19 impede a restauração da estação de Chiador, na Zona da Mata

Prédio pioneiro do patrimônio ferroviário de Minas já tem verba garantida para o início dos trabalhos, que ainda não podem ser realizados por questão de segurança dos profissionais envolvidos


11/11/2020 04:00


Depois de uma espera de décadas, que quase jogou por terra o que restou do prédio pioneiro do patrimônio ferroviário de Minas, a estação de Chiador, na Zona da Mata do estado, deverá finalmente retornar por inteiro à história. Os recursos para restauração do monumento estão assegurados por Furnas Centrais Elétricas S.A., mas há um obstáculo nos trilhos: a pandemia do novo coronavírus. Segundo a assessoria da estatal, a empresa contratada se encontra impossibilitada de iniciar os serviços específicos in loco. "Essas atividades serão retomadas tão logo as autoridades competentes se manifestem favoravelmente para tal, preservando a saúde e a segurança de todos os profissionais envolvidos".
 
 
Os restos do prédio da estação de Chiador contam um pouco da história do patrimônio ferroviário de Minas (foto: Ailton Magioli/ESP.EM. Brasil. Chiador - MG)
Os restos do prédio da estação de Chiador contam um pouco da história do patrimônio ferroviário de Minas (foto: Ailton Magioli/ESP.EM. Brasil. Chiador - MG)
 
Em nota, os assessores explicam que, em janeiro, Furnas publicou o edital de licitação destinado à contratação de empresa especializada para elaboração do projeto básico para revitalização da estação ferroviária de Chiador – a vencedora do processo foi a empresa Tramela Arquitetura e Engenharia. Acrescentam que "o processo para a revitalização foi iniciado após acordo de Furnas com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Chiador (Compachi) e prefeitura local.
 
  
Inaugurado em 1869 pelo imperador dom Pedro II (1825–1891) e localizado a seis quilômetros do Centro da cidade, o imóvel histórico – antes pertencente à extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e atualmente de propriedade da União e sob guarda do município – terá usos diversos.

Conforme consta da ata da reunião do Compachi, o espaço abrigará área administrativa, área para feiras e exposições no antigo armazém, salas multiuso e técnica, depósitos, banheiros com acessibilidade, café com ambiente externo, área para reuniões e outros. O local deverá sediar a Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes e terá um museu para contar a história do município e da estação.
 
 
 
A parede com o nome da pequena cidade ainda permanece em pé, aguardando os trabalhos de restauração
A parede com o nome da pequena cidade ainda permanece em pé, aguardando os trabalhos de restauração
 
A construção em ruínas foi tombada em 2003 pela prefeitura local e fica no entorno do Aproveitamento Hidrelétrico de Simplício (AHE), de Furnas. Um charme da estação é que Chiador fica no roteiro do trem Rio-Minas, o primeiro turístico interestadual do país, que fará a ligação entre Cataguases (MG) e Três Rios (RJ), no total de 168 quilômetros de belas paisagens, riqueza cultural e muitas histórias.

JUSTIÇA 

Até chegar à decisão de restaurar a estação de Chiador, foi necessário recorrer à Justiça. Conforme o Estado de Minas publicou em 26 de outubro de 2012, o MPMG ajuizou ação em Mar de Espanha, na mesma região, contra a estatal Furnas Centrais Elétricas S.A., para que a empresa restaurasse o bem cultural e não apenas o seu entorno, como compensação por construção de hidrelétrica.
 
 
 
O mato rasteiro quase esconde os trilhos, enquanto um telhado do complexo ferroviário resiste à ação do tempo
O mato rasteiro quase esconde os trilhos, enquanto um telhado do complexo ferroviário resiste à ação do tempo
 
Na época, o então promotor de Justiça da comarca Daniel Ângelo de Oliveira Rangel explicou que a estatal fora obrigada, como condicionante do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para implantação do Aproveitamento Hidrelétrico de Simplício (AHE), a fazer o tratamento paisagístico. “Queremos que o prédio histórico também seja recuperado, pois tem grande importância para a nossa história. Além disso, o empreendimento fica a pouco mais de 300 metros da estação”, afirmou Rangel, autor da ação com o então coordenador das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC), Marcos Paulo de Souza Miranda, atualmente promotor de Justiça de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Na ação, os promotores de Justiça destacaram a importância econômica da estrutura ferroviária do município, que proporcionou considerável desenvolvimento econômico e social da região, além do transporte da rica produção cafeeira. Dizia o texto: “As características dominantes da centenária edificação são neoclássicas, cores claras, enquadramento e molduras em argamassa, elementos de ferro muito usados em estações ferroviárias e alguns elementos coloniais, com vergas retas e grande cobertura”.

E mais: a chegada da estrada de ferro a Chiador "propiciou o intercâmbio com outras localidades, inclusive o litoral, e promoveu o surgimento das indústrias de laticínio e cerâmica. O intenso comércio com o Rio de Janeiro garantiu o crescimento do povoado, que, em 1880, se tornou distrito de Mar de Espanha”.
 
 
 
 
HISTÓRIA 

A estação foi inaugurada em 1869, no antigo povoado de Santo Antônio dos Crioulos, atual município de Chiador. Segundo os especialistas, o nome é atribuído ao chiado que as corredeiras faziam no rio Paraíba e era ouvido por ali – o rio ficava a cerca de 500 metros da estação, no ramal de Porto Novo da Estrada de Ferro Dom Pedro II. A estação ferroviária de Chiador constitui um exemplar arquitetônico do século 19 e um espaço considerado “lugar de memória, de significativo valor cultural para a comunidade local e para a sociedade mineira”.

Na abertura oficial, o imperador dom Pedro II chegou em comitiva, segundo registros, para assistir ao lançamento dos primeiros trilhos no território da Província de Minas. Compareceram os ministros da Agricultura e da Marinha e outras autoridades. A estação teve seu valor histórico, artístico e cultural reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).




Depoimento

Ailton Magioli*

"Desde que me entendo por jornalista, formado na década de 1980, a restauração da Estação Ferroviária de Chiador, a primeira em atividade em Minas, transformou-se em luta da minha geração. Nascido e criado na cidade da Zona da Mata mineira, nos lugares (Três Rios, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) por onde passei para estudar e trabalhar levei a reivindicação na mala, entrevistando desde superintendentes da antiga Rede Ferroviária Federal até cidadãos do povo e autoridades.

Promessas não faltaram. ‘Vamos restaurá-la, sim’, garantiam os oportunistas de plantão. A chegada de Furnas, empresa economicamente poderosa, à região deu um novo alento à luta que, acreditem, acaba de ser adiada por causa da pandemia do novo coronavírus. Se vamos sobreviver a ela, não sabemos, mas que a luta continua, continua."

*Jornalista, natural de Chiador e residente em BH
 


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