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Estado de Minas O vírus por trás das grades

Conheça a ressocialização para quem ainda não ganhou a liberdade

Iniciativas que começaram durante a pandemia, como curso de crochês para pessoas da ala LGBT de penitenciária da Grande BH, apontam o caminho da recuperação


25/10/2020 04:00 - atualizado 25/10/2020 11:39

Projeto Maxi Crochê Tecendo a diversidade foi concluído neste mês em penitenciária de São Joaquim de Bicas, e proporcionou qualificação a participantes em processo de recuperação(foto: Sejusp/divulgação)
Projeto Maxi Crochê Tecendo a diversidade foi concluído neste mês em penitenciária de São Joaquim de Bicas, e proporcionou qualificação a participantes em processo de recuperação (foto: Sejusp/divulgação)

A ameaça do novo coronavírus impôs o distanciamento social e provocou mudanças que atingiram também o sistema prisional. No entanto, não impediu a continuidade de boas iniciativas voltadas para a recuperação e ressocialização dos detentos.

Um exemplo é a realização, em plena pandemia, de curso de produção e criação de peças de crochê, voltado para um grupo de nove pessoas da ala LGBT da Penitenciária Professor Jason Soares Albergaria, em São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

O Curso do projeto “Maxi Crochê – Tecendo a diversidade” foi concluído neste mês. Entre os participantes estão condenadas por crimes como homicídio, latrocínio, tráfico, roubo e furto, que hoje se encontram em processo de recuperação e de qualificação, em busca de uma nova vida  quando retornarem à liberdade.

A iniciativa mostra que, independentemente do passado, qualquer pessoa pode buscar a ressocialização, elevar a autoestima e resgatar seus direitos como cidadão, superando o preconceito e reconquistando a vida digna.

A capacitação teve como instrutora uma detenta transexual, Maria Vitória, de 27 anos, que aprendeu a arte do crochê em uma oficina promovida pelo Conselho da Comunidade da Comarca de Igarapé, também na Grande BH, no segundo semestre do ano passado.

A oficina também fez parte do projeto “Maxi crochê”, implantado pelo Conselho da Comunidade do município.

A diretora de Atendimento da Penitenciária de São Joaquim de Bicas, Cristiane Leite Rodrigues, policial penal formada em psicologia, informa que começou a trabalhar na unidade prisional no início do isolamento social da pandemia.

Ao ouvir as presas, percebeu a necessidade de usar a arte como ferramenta terapêutica. “Sempre acreditei nas possibilidades das diferentes manifestações artísticas, e tínhamos uma pessoa preparada para ensinar”, afirma Cristiane.

 “O aprendizado permitiu às participantes descobrir que têm capacidade de construir algo belo, muito diferente do crime, da prostituição e das drogas”, destaca a policial penal e psicóloga. O grupo participante do curso foi selecionado por uma comissão técnica de classificação formada por diferentes servidores da unidade prisional como assistente social, pedagogo, psicólogo, enfermeiro, analista jurídico e representante do núcleo de segurança. Uma das exigências para a seleção foi a condição de pertencer ao público LGBT, sendo avaliado também o interesse do candidato durante entrevista.

As aulas foram ministradas durante dois meses, numa espécie de “intensivão”. Nesse período, houve tempo de aprender as mais diferentes técnicas e ainda produzir peças para presentear parentes e também para vender, o que trouxe uma ajuda para renda das famílias das detentas.

As vendas são feitas por parentes. A renda é dividida, parte dela vai para a família e outra parte para as internas. Elas usam o dinheiro para compra de itens pessoais de beleza, como esmalte e maquiagem, além de materiais de higiene.

A geração de renda é necessária, mas não é o único benefício proporcionado pelo projeto. A observação é dodiretor-geral da Penitenciária de São Joaquim de Bicas, Antônio de Pádua Pataro. “O crso proporciona o resgate da autoestima, da autoconfiança, assim como fomenta o espírito de trabalho em equipe e do respeito ao outro”, enfatiza Pataro.

“Mostra também o quanto a unidade prisional se preocupa com os indivíduos privados de liberdade e busca parcerias que promovam atividades que proporcionem a reinserção social”, acrescenta o diretor-geral.

Resgate da autoestima e opção de rendimento


Instrutora do curso Maxi Crochê na unidade Penitenciária de São Joaquim de Bicas, a detenta transexual Maria Vitória se destacou em uma capacitação sobre crochê ministrada o ano passado. Ela conta que, antes de participar do projeto, nunca tinha manuseado uma agulha e jamais imaginava que um dia ensinaria o ofício.

A trans tinha crises de depressão e ansiedade e conta que a arte do crochê tem ajudado a superar esses transtornos. Ela já pensa no aproveitamento do que aprendeu para ter renda e vencer as dificuldades quando ganhar a liberdade.

“O crochê representa a possibilidade de ter uma renda, principalmente pelas dificuldades que vou ter ao sair daqui. Serei uma ex-detenta e transexual, com um corpo ainda marcado por características masculinas”, afirma Maria Vitória.

As integrantes da ala LBGT da Penitenciária destacam a importância do curso e enaltecem a elevação da autoestima e a conquista de uma profissão para a vida fora das grades.

“Para mim, em particular, o curso foi o resgate da minha autoestima. Eu me senti mais valorizada e mais útil”, afirma a detenta Júnia Venturini, lembrando que não tinha esse sentimento havia sete anos, desde que foi privada da liberdade.

Élcio Dias, que também cumpre pena na ala LGBT, declara que o curso mudou sua vida prisão. “Eu ficava na cela, mais retraído, não conversava com ninguém. Depois que vim para o curso, estou me expressando mais. Todos notaram muita diferença ao conversar comigo”, diz. “Estou me saindo muito bem e fazendo uns cachepôs bem bonitos”, completa.

Para a detenta trans Isabel Cristina, o curso de crochê foi mais do que uma ferramenta de resgate da autoestima. “A gente trata com toda essa seriedade essa oportunidade, porque é prazeroso. É uma oportunidade, uma ação reparadora para todos nós”, assegura. “Hoje, me sinto uma pessoa importante pra a unidade, para todo mundo que está aquim torcendo por nós.”

“Viver honestamente, isso não tem preço”


Um percentual de presos que recebeu a liberdade como medida de segurança sanitária durante a pandemia do novo coronavírus acabou cometendo algum delito e voltou para o cárcere.

Para evitar que isso ocorra, é preciso que o estado crie meios para ressocializar os detentos, de forma que sejam qualificados e entrem no mercado de trabalho. Mas, essas pessoas também precisam ser conscientizadas de que a vida no crime não compensa e queiram sair dela.

A opinião é de Paulo (nome fictício), de 33 anos, beneficiado com a liberdade durante a pandemia em Montes Claros, Norte de Minas. Ele estava no regime semiaberto e passou para o sistema domiciliar. Aproveitou bem a oportunidade de trabalho numa barbearia em um bairro da cidade, onde já trabalhava quando estava no semiaberto.

Ele conta que esteve ligado ao crime por cerca de uma década – dos 18 aos 28 anos, em São Paulo, foi preso várias vezes por roubos e assaltos. Esteve detido em diversas cadeias, onde conheceu de perto o poder de uma facção que atua nas penitenciárias.

Resolveu mudar de vida e retornou à terra natal, no Norte de Minas. Mas acabou sendo descoberto como foragido e foi preso novamente. Depois de um período trancafiado, quatro meses antes da pandemia, passou a cumprir pena no sistema semiaberto e a trabalhar como barbeiro.

“Viver honestamente não tem preço”, afirmou, em entrevista ao EM, na qual preferiu o anominato por causa do preconceito. Ele elogia a decisão do Poder Judiciário de mandar para casa os presos do regime semiaberto, a fim de evitar a propagação do coronavírus e a contaminação de outros detentos e dos servidores do sistema prisional.

Paulo decidiu mudar de vida depois de uma década de desafio à lei e prisões em São Paulo(foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press)
Paulo decidiu mudar de vida depois de uma década de desafio à lei e prisões em São Paulo (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.A Press)

 


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