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Estado de Minas Crise na sala de aula

Ex-alunos do colégio Izabela Hendrix guardam lições de educação e de vida

De portas fechadas, centenário colégio do Instituto Izabela Hendrix deixou marcas entre estudantes e professores, que veem surgir uma lacuna nos ensinos infantil e médio em BH


30/09/2020 06:00 - atualizado 30/09/2020 07:12

Após 116 anos de atuação, Instituto Metodista fecha colégio na Rua da Bahia devido à turbulência financeira dos últimos anos, mas universidade continua(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Após 116 anos de atuação, Instituto Metodista fecha colégio na Rua da Bahia devido à turbulência financeira dos últimos anos, mas universidade continua (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

“Este sentimento que nos maltrata é forte como o amor.” O primeiro verso da poesia Saudade, escrita em 1984 pela então adolescente Giovana Paolucci, traduz perfeitamente, agora, o que vai no coração dela. Diante do fechamento do colégio do Instituto Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, onde ela cursou o ensino médio na década de 1980, as lembranças afloram e emocionam. “A gente fica triste demais... fiz muitos amigos lá, era um ensino de qualidade, uma escola onde a religião nunca foi imposta ou interferiu na relação entre alunos e direção”, conta Giovana, casada, mãe de um menino e formada em administração e direito.

Na sala de casa, ela mostra com carinho o Varal de poesia, livro comemorativo dos 80 anos da escola, fundada em 1904, reunindo os poemas da turma que estudou no prédio da Rua da Bahia, perto da Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da capital. “A saudade nos consome aos poucos. E chega um dia que nos deixa loucos. Saudade! Que sentimento.”



Depois de ler essa estrofe, Giovana, de família católica, revela que, ao se mudar de Brasília (DF) para BH, os pais dela optaram por uma escola com ensino diferenciado independentemente da religião. “Posso dizer que amei estudar no Izabela. Foi um período muito bom, tive ótimos professores: a Lucília, de inglês, o Evaldo, de matemática, o Edson, de biologia. Lembro-me também do diretor, Ulisses Panisset. Muitos colegas estão aí pelo mundo, seguiram seus caminhos, mas o que nos une é essa história”, afirma.

Para a designer gráfica Rhyana Patrícia Neves, de 35 anos, casada, uma filha, a união no Izabela permanece com a força de uma família, tanto que ela integra grupos de ex-colegas no WhatsApp em contato direto. Natural de Montes Claros, no Norte de Minas, veio para BH com a família e estudou no colégio do infantil ao ensino médio, num total de 12 anos, de 1991 a 2003. As boas lembranças estão na mente e em vários cantos da casa, a exemplo de fotos, escritos e um colar de ouro, com o símbolo da escola, que recebeu ao concluir o ensino médio, um presente para os alunos que estivessem na instituição uma década ou mais. “Os meninos ganharam uma caneta linda, e as meninas o colar”.

''Era um ensino de qualidade, uma escola onde a religião nunca foi imposta ou interferiu nas relações'' - Giovana Paolucci, administradora e ex-aluna(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
''Era um ensino de qualidade, uma escola onde a religião nunca foi imposta ou interferiu nas relações'' - Giovana Paolucci, administradora e ex-aluna (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


A qualidade do ensino sempre satisfez as exigências de Rhyana: “Era uma escola tradicional, preparando os alunos não apenas para o vestibular, mas para a vida. Havia um laboratório ótimo, e aula de anatomia no ensino médio, algo que não se via por aqui. Tenho saudade das aulas. E a gente falar que sente falta das aulas é meio difícil, né?”, brinca. Ressaltando que o colégio fez parte do seu amadurecimento como ser humano, das mudanças em várias fases e também do conhecimento para vida profissional, a designer conta que na época de eleições faz questão de acompanhar o marido ao local de votação, que é realizada no prédio do Izabela Hendrix. “Gosto muito de voltar ao colégio, de estar naquele ambiente.”

''Era uma escola tradicional, preparando os alunos não apenas para o vestibular, mas para a vida'' - Rhyana Patrícia Neves, designer gráfica e ex-aluna(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
''Era uma escola tradicional, preparando os alunos não apenas para o vestibular, mas para a vida'' - Rhyana Patrícia Neves, designer gráfica e ex-aluna (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)


Considerado um dos professores mais queridos pelos alunos, Evaldo de Castro, de 73, de matemática, lamenta o encerramento das atividades do colégio do Izabela e vê como grande perda para a capital. “Acho que o carinho dos alunos é porque comecei muito cedo a trabalhar no Izabela, aos 21, quase um menino. Ocupei vários cargos em mais de 30 anos, sendo, inclusive, responsável pela prova do vestibular.”

Mas nem tudo são flores: “Tínhamos nossas discussões, divergências salariais, porém tudo sempre correu com muito respeito. Pelo tanto tempo que passei no colégio, posso dizer que o Izabela era minha casa, formávamos uma família”,  conta o professor.

Novos rumos

Em comunicado divulgado na segunda-feira, o Instituto Metodista Izabela Hendrix, entidade mantenedora do colégio e do centro universitário, informou que manterá o centro universitário com seus 24 cursos presenciais e 10 a distância. Haverá ampliação de oferta de cursos. Em 2021, estarão disponíveis mais duas graduações – farmácia e engenharia biomédica.

No comunicado, a instituição esclareceu que “nos últimos anos houve desafios financeiros intensos, comprometendo a sustentabilidade do colégio. Mudança em gestão, enxugamento de quadro administrativo, medidas não operacionais, aperfeiçoamento de uma proposta pedagógica cada vez mais enriquecedora e atrativa, bem como redução nas mensalidades não foram suficientes para solução da crise financeira engendrada há quase duas décadas, passando a comprometer processos e outras unidades”, diz o texto. (Com Elian Guimarães e Junia Oliveira/Especial para o EM)


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