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Estado de Minas Entrevista/Antônio Jorge

'Melhor errar por excesso do que por omissão', diz mineiro que trabalhou com Mandetta

Médico Antônio Jorge fala sobre a experiência no embate político/sanitário e diz que só sobreviveu à COVID-19 porque teve pronta assistência


23/08/2020 04:00 - atualizado 22/08/2020 22:23

(foto: Guilherme Bergamini/Divulgação - 15/11/16)
(foto: Guilherme Bergamini/Divulgação - 15/11/16)

"Há muitas críticas sobre o hospital de campanha desativado. Claro que é preciso zelo com o dinheiro público, mas é muito difícil tomar decisão com tantas incertezas"

“Tive COVID-19 na forma grave, fiquei oito dias internado, levei oxigênio para casa, tive pneumonia extensa nos dois pulmões e temi pela minha vida. O sofrimento é muito grande. A saturação baixa faz parecer que um trator passou por cima de você.” A declaração é do médico, ex-deputado estadual e ex-secretário de Saúde de Minas Antônio Jorge, de 59 anos, relatando os efeitos do contágio pelo novo coronavírus logo nos primeiros meses da pandemia. Formado como médico psiquiatra pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em 1985, se especializou em gestão de sistemas de saúde pela Fiocruz. No começo da atual crise, integrou a equipe do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Da experiência, e do que testemunhou depois, tirou a conclusão de que o principal ingrediente para combater a doença é a humildade. Ao Estado de Minas, Antônio Jorge fala da passagem pelo ministério, dos principais desafios do enfrentamento ao vírus e da desigualdade exposta por ele. E conclui: não pode haver mais de uma orientação à população, como estava acontecendo no embate entre Mandetta e Planalto. Confira os principais trechos da entrevista.

Como foi a experiência do senhor ao contrair a COVID-19?
Quando voltei de Brasília, acho que me contaminei no aeroporto. Embarquei em Brasília, desci em Viracopos e depois fui para Confins. Após três dias, surgiram os sintomas. Com muita humildade, reverencio a Deus pela oportunidade que tive de continuar aqui com minha família, com os meus netos. Mas uma coisa que me faz refletir muito como cidadão e sobre como nosso país é desigual. Tenho um bom emprego, plano de saúde e assistência. Dado ao risco, eu tive acesso ao teste rápido e estou vivo porque tive uma boa assistência, acima de tudo. A crise está demonstrando que a desigualdade também se reproduz no sistema de saúde. Na hora de salvar uma vida, é muito indigno pensar que sobrevivemos em função da cor e da classe social. A pandemia escancarou uma fratura exposta. Mesmo com todos os avanços do SUS, que é um sistema maravilhoso, estão morrendo mais negros, mais pessoas pobres, a mortalidade nos hospitais públicos é maior do que nos hospitais privados. Acho que todos nós temos que dar nossa contribuição. É muito feio para o país ver que a desigualdade também se reproduz numa pandemia. 

Como avalia a situação de Minas no combate à pandemia?
Acho que desde aquela decisão do Supremo Tribunal Federal que autorizou prefeitos e governadores a tomarem medidas independentes da política nacional sobre regras de isolamento, temos visto muita diligência. É um ano eleitoral, acho que houve preocupação de alguns prefeitos com a sua imagem em relação ao risco de negligência, acho que de modo geral houve mobilização das autoridades locais, principalmente. Mas vejo fragilidades. Esses dias, vi um dado de que Minas foi o estado que menos captou recursos da União. Não é que estejam sobrando recursos, mas é um dado que precisava ser visto. Minas tem tantos municípios... Por que ficou para trás na captação de recursos? É um dado a ser pesquisado.

E quanto ao programa de controle e flexibilização das atividades?
 Acho que o Minas Consciente tem o grande mérito de propor metodologias, foi muito importante ao reconhecer realidades distintas e que precisa aplicar lógicas de etiqueta social e de isolamento distintas. Mas, na minha visão, tem um defeito. Pelo nosso grande território, acho que devia ser mais regional. Temos macrorregiões muito grandes, como a Macrorregião Sul, que tem 6 milhões de habitantes. O que acontece em Poços de Caldas às vezes não é parecido com Alfenas, por exemplo. Acho que o recorte deveria ser menor.

Quais os maiores erros na gestão da crise?
Os erros que a maioria das autoridades cometeram – e é muito fácil fazer julgamento hoje – foram por excesso. Outro dia, estava vendo uma crítica sobre o hospital de campanha do Expominas. Ficou subutilizado, sem o que fazer, mas acho difícil julgar. Como havia muita incerteza sobre os prognósticos, se for errar é melhor errar por excesso do que por omissão. Hoje, estamos vendo um rescaldo de muitas críticas sobre hospital desativado – claro que é preciso zelo com o dinheiro público –, mas é muito difícil tomar decisão com tantas incertezas. Prefiro dizer que quem errou por excesso errou bem menos do que quem errou por omissão. Teve prefeito comprando máscaras a preços altos, teve de tudo no começo da pandemia. A China estava exigindo do poder público pagamento antecipado antes de vir a carga. Isso feria toda a legislação.

E como fazer em casos como esse?
O poder público só poderia pagar mediante recebimento da carga, com nota fiscal. Então, imagine um prefeito ou governador que vai comprar respiradores. O fornecedor chega e fala: “Tenho, mas você tem que pagar antecipado”. Ele cria uma excepcionalidade na lei e paga antecipado ou corre o risco de errar por omissão e gente morrer por falta de assistência? São decisões muito difíceis durante a crise. Essas análises de performance agora devem ser feitas com muita serenidade.

Que prognóstico o senhor faz da pandemia para os próximos meses, no Brasil e em Minas?
Diria que qualquer prognóstico, mesmo que com cinco meses de aprendizado, ainda tem um componente de achismo muito grande. Mas dado o comportamento de outros estados e países, a gente está vendo que vivemos um platô. O Brasil está num platô de mil mortes diárias já tem algum tempo. Como o país é muito grande, os territórios vão mudando. Cai em um lugar e sobe no outro, diferentemente do que aconteceu em alguns países importantes, porém, com um território menor. Acho que estamos num platô sustentável no país, com queda da média.  Semana passada foi de 4% a 5%, então, o que vejo é que vamos entrar numa descendência e devemos ter uma redução a partir da última semana deste mês na transmissão. Já foi medido que o número de pessoas contaminadas está diminuindo. Imagino um arrefecimento da crise até o fim de setembro. Mas vamos conviver com casos de COVID-19 inclusive no verão.

E a rotina pós-flexibilização?
Mesmo com as políticas estaduais de flexibilização, é muito importante que a população tenha em mente que não vamos retomar no fim do ano o mesmo padrão social que vivíamos antes da pandemia. Isso só será possível depois de um aumento da população imunizada. Futebol acho que vai continuar sem torcida. Sou da opinião de que grandes eventos, como réveillon, devem ser cancelados, pois não teremos ainda a blindagem da vacina. É importante que as autoridades e sociedade tenham isto em mente: teremos um fim de ano diferente.

Como surgiu o convite para o senhor integrar o Ministério da Saúde?
Eu não conhecia o Mandetta. Quando ele foi convidado, resolveu montar um ministério de pessoas com muita visão de gestão. Os secretários nacionais que estavam no ministério eram pessoas muito envolvidas com a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) no passado. Antes de ele assumir, já havia feito um convite para eu assumir uma das secretarias nacionais, mas eu não quis. Umas duas ou três vezes me convidou para ingressar no ministério, mas eu nunca aceitei. Quando chegou a COVID-19, nós todos em trabalho remoto, ele me fez um pedido para ingressar numa força-tarefa que estava montando com outros ex-gestores, deputados. O Agostinho (Patrus, presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais) autorizou e fui para lá.

E quais eram as suas funções?
Fiquei 30 dias, muito envolvido com a questão do mapeamento de leitos, planejamento de recursos, fazendo uma garimpagem de equipamentos ociosos. Naquele momento inicial, estava naquela loucura para conseguir respiradores. Fizemos um belo trabalho de levantar as possibilidades de empréstimo de equipamentos, um conjunto de tarefas. Estava lá como militante do SUS. O Mandetta, por ter reconhecido o meu trabalho, me convidou para integrar aquele esforço. Quando ele falou que ia sair, eu também vim embora e me reapresentei na Assembleia.

O período final de Mandetta no Ministério da Saúde foi marcado por muitos embates com o Planalto. Como isso influiu no combate à pandemia de COVID-19?
Isso é um outro aprendizado. Em gestão de crise, é muito importante estabelecer uma linha de comando, hierarquia, comando único. Não se deve esperar consensos para tomar decisões. E, quando você tem duplo comando, você está minando isso. Esse foi o grande problema para o país, pois havia, realmente, duas visões para o mesmo problema. Não é uma crítica a A ou B, mas é notório que havia duas visões. Não estou fazendo juízo de valor, mas o fato é que a dupla mensagem foi ruim, e até por isso acho que o Mandetta se precipitou na sua saída, porque ele também sabia que era ruim para o combate da crise essa dupla mensagem.

Qual era o cenário do começo do combate à pandemia?
A pandemia mostrou muitas coisas para nós. Uma crise epidemiológica dessa natureza só havíamos passado pela gripe espanhola. Por mais que a ciência tenha avançado, a epidemiologia, a estruturação do SUS e tudo o que temos de saúde, a verdade é que quando a crise apareceu, vimos o quanto éramos despreparados para enfrentar esses picos de atenção. Em questão de estruturação de saúde, é um aprendizado – tenho falado muito disso nas palestras que faço sobre a COVID-19 – e uma das questões é que o SUS não pode ser como é organizado e financiado hoje.

O que está errado, na avaliação do senhor?
Hoje, organizamos um sistema – principalmente em termos de financiamento – pagando por procedimento. Imagina: o pronto-socorro está lá, tem que ter uma estrutura, mas ele recebe financiamento pelos atendimentos que faz. Mas urgência, e, principalmente, uma contingência em crise, é preciso ter, antes da crise, uma capacidade ociosa, precisa haver um planejamento estratégico com possibilidades de reagir rapidamente a um evento agudo. O que estou dizendo é mais ou menos o seguinte: a gente não imagina pagar bombeiro por incêndio que apaga. A gente financia com os nossos impostos os quartéis e torce para não pegar fogo em nada, mas está lá o ano inteiro, sendo remunerado. A gente não paga polícia por bandido que prende. A gente paga uma força para ter na reserva no momento em que precisamos. O que a gente viu nesta crise é que precisamos nos preparar tendo na saúde uma reserva estratégica financiada para quando o país, cidade ou território passar por uma crise com múltiplas vítimas, para que o sistema possa responder. E isso inclui os insumos, que são equipamentos de proteção individual, por exemplo.

E como avalia a situação do enfrentamento à COVID-19 hoje?
Ainda existe muita incerteza e estamos descobrindo muitas coisas sobre a patologia da doença e também sobre a própria virologia. Uma coisa que falta, que acho fundamental na gestão da crise, é a humildade de não ser absolutista nas posições. Relativizar as nossas decisões com o princípio da precaução. Gestão de crise tem que ser hierarquizada, uníssona, mas, ao mesmo tempo, a pessoa que faz essa gestão tem que ter por trás uma visão humilde de que pode ter de rever posições. O próprio desconhecimento com a pandemia tem mostrado isso. Muitas variáveis. Ninguém acertou tudo. Ninguém acertou o prognóstico de mortes. Teve gente que falou, batendo no peito, que era médico, cientista, que não ia haver mais que 700 mortes – estamos com mais de 110 mil. Teve gente que falou que ia haver 1 milhão de mortes em dois meses. Isso mostra o quanto o nosso conhecimento ainda é diminuto.

Qual a chave para uma gestão eficiente?
A humildade é um insumo muito importante para enfrentar esta crise. Certeza absoluta faz a gente errar em demasia. O país custou a entender que a gente estava em uma epidemia. Tínhamos 27 epidemias diferentes. Cada território tinha um comportamento. Enquanto um estava pegando fogo, Minas estava bacana. Depois, enquanto outros estados dimi- nuíam, Minas estava aumentando. Os comportamentos epidemiológicos são distintos. Então, ninguém tem que ficar politizando essa agenda, porque pode ser traído pela própria realidade. Os prognósticos viram fumaça rapidamente. Vamos conviver, mesmo que haja uma vacina, até meados do ano que vem com o fantasma da COVID-19. Vai demorar para imunizar todo mundo, para produzir vacina para todo mundo. Então, até lá, veja quantas visões foram superadas pela realidade. Quero insistir muito nisso. É um aprendizado constante. 


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