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Estado de Minas COVID-19

Notícias do front: relatos de enfermeiros, imprescindíveis no combate ao coronavírus

Da linha de frente da saúde, enfermeiros contam sobre o desafio diário de lutar pela vida, na data em que é comemorado o dia desse profissional


postado em 12/05/2020 04:00 / atualizado em 12/05/2020 19:50

Enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem são peças-chave no enfrentamento de grandes desafios na área de saúde – e permanecem imprescindíveis no combate à pandemia do novo coronavírus. Mais do que o acolhimento dos pacientes, esses profissionais os acompanham por todo o tratamento, auxiliando no conforto, bem-estar e segurança, até o momento da alta. É emblemático, então, que seja comemorado nesta terça-feira o Dia Mundial dos Enfermeiros. O Estado de Minas conversou com alguns deles sobre como é estar na linha de frente em um momento tão delicado.

Patrícia Aguiar, de 43 anos, trabalha como enfermeira há 21. Ela conta que escolheu a profissão depois de ouvir repetidamente da mãe um relato do tempo em que era criança. “Eu nasci com meningite, uma doença bem séria, e tive de ficar internada por 30 dias. Quase morri. Durante toda a minha vida, escutei minha mãe contando essa história. E o que mais me chamava a atenção era a parte em que ela dizia que, quando chegou ao hospital, preocupada e sem saber a razão da minha febre, uma enfermeira logo me pegou nos braços e foi me dar banho. Já melhorando todo meu estado naquele momento”, conta. “Quando chegou o momento de me decidir, foi fácil. Sempre gostei de cuidar das pessoas.”
 
Natália Guedes - especializada em atuação em CTIs, enfermeira responsável pela instituição Novo Céu, para pacientes com paralisia cerebral(foto: arquivo pessoal)
Natália Guedes - especializada em atuação em CTIs, enfermeira responsável pela instituição Novo Céu, para pacientes com paralisia cerebral (foto: arquivo pessoal)
 
Ela trabalha na linha de frente do Samu há sete anos, encarando jornadas de 12 horas duas vezes por semana. Patrícia compõe a equipe da Unidade de Suporte Avançado (USA) 04, baseada no 1º Batalhão de Bombeiros Militar, na Região Centro-Sul de BH. Seu serviço se baseia em atender pacientes que necessitam de cuidados emergenciais, como os que sofrem acidentes de trânsito. Agora, em meio à pandemia, ela diz que jamais imaginou viver situação similar.

“Está sendo uma época de diferentes desafios para a ciência, para tudo. Um vírus novo mudou nossa vida desta forma. Quando a gente tem a notícia de que um colega faleceu, é um sentimento enorme de apreensão. Ficamos extremamente tristes, mas lembramos que os enfermeiros e técnicos de enfermagem são imprescindíveis no cuidado aos pacientes”, afirma.
 

"Somos instrumentos de Deus. O que eu faço é seguir todas as orientações. Vou de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Não sou apenas um código de barras. Eu faço a diferença e é maravilhoso"

Natália Guedes

 
De acordo com o Conselho Federal de Enfermagem, 98 profissionais do setor haviam morrido até quarta-feira de COVID-19 no Brasil. “Agora, mais que tudo, a enfermagem precisa estar unida. Finalmente, temos o espaço para mostrar nossa importância e falar para a população que estamos aqui para ajudar e contribuir”, reforça Patrícia.
 
GRUPOS DE RISCO Se idosos e portadores de doenças crônicas compõem os chamados grupos de risco da COVID-19, deficientes físicos também se enquadram nessa faixa. Com 12,7 milhões deles no Brasil, há exigência redobrada de cuidados nesses tempos de pandemia. Natália Guedes, de 35, conhece muito bem esses desafios. Ela é enfermeira da instituição Novo Céu, que há cerca de 28 anos desenvolve trabalho reconhecido de acolhimento, em regime de abrigo, de crianças, adolescentes e adultos com paralisia cerebral em situação de vulnerabilidade social. Para ela, o maior temor é que o vírus chegue até seus assistidos.
 
Jaime de Oliveira - especialista em urgência e emergência no Hospital das Clínicas e também professor da PUC(foto: arquivo pessoal)
Jaime de Oliveira - especialista em urgência e emergência no Hospital das Clínicas e também professor da PUC (foto: arquivo pessoal)
 
 
“Tenho muito medo. Medo porque esses meninos não têm chance contra o vírus. E medo de que eles sejam contaminados. Mas, ao mesmo tempo, sempre digo: é meu trabalho e não tem muito para onde correr. Somos instrumentos de Deus. O que eu faço é seguir todas as orientações. Vou de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem colocar em risco ninguém”, descreve.

Especializada em atuação em CTIs, ela viu sua história se confundir com a do Novo Céu em várias etapas. Chegou a trabalhar na instituição três vezes e, entre idas e vindas, diz que se apaixonou pelos pacientes. “Lá, eu não sou apenas um código de barras. Eu faço a diferença e é maravilhoso.”
 

"A minha paixão começou quando eu percebi que poderia contribuir e cuidar do outro em um momento de vulnerabilidade. Hoje, eu me autorreconheço, sei que estou fazendo a diferença na vida dos outros"

Jaime de Oliveira

 
Em abril, foi uma das 5 milhões cadastradas no programa Brasil conta comigo, do Ministério da Saúde, para ajudar no enfrentamento do Sistema Único de Saúde (SUS) à COVID-19, recebendo capacitação nos protocolos oficiais por meio de curso a distância.
 
Enfermeiro no Hospital das Clínicas, Jaime de Oliveira, de 31, também trabalha na linha de frente de combate ao coronavírus. Ele faz questão de observar que, durante o ensino médio, sempre gostou da ideia de ser professor. Diz que escolheu a enfermagem exatamente por isso, ao enxergar na profissão a oportunidade de lecionar. Hoje, Jaime é também professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
 
Patrícia Aguiar - há sete anos encara jornadas de 12 horas duas vezes por semana em equipe do Samu baseada em Batalhão de Bombeiros de BH(foto: arquivo pessoal)
Patrícia Aguiar - há sete anos encara jornadas de 12 horas duas vezes por semana em equipe do Samu baseada em Batalhão de Bombeiros de BH (foto: arquivo pessoal)
 
“A minha paixão começou quando percebi que poderia contribuir e cuidar do outro em um momento de vulnerabilidade. O enfermeiro está com o paciente do nascimento até a morte, em todos os momentos. Hoje, eu me autorreconheço, sei que estou fazendo a diferença na vida dos outros”, pontua.

O enfermeiro, especialista em urgência e emergência, afirma sentir que está fazendo a diferença em um contexto mundial com a pandemia. Em uma analogia com a Segunda Guerra, Jaime diz que “defender o bem comum” é o que faz profissionais da saúde irem para os livros de história. “O nosso dever é cuidar, independentemente da pandemia ou não”.
 

"Está sendo uma época de diferentes desafios para a ciência, para tudo. Um vírus mudou nossa vida desta forma. Quando a gente tem a notícia de que um colega faleceu, é um sentimento enorme de apreensão"

Patrícia Aguiar

 
Para Jaime, falta ao poder público um olhar especial para esses profissionais. Em sua visão, é preciso colocar em vigor políticas que priorizem e cuidem dessa profissão que está na linha de frente dos desafios na saúde.

*Estagiária sob supervisão do subeditor Eduardo Murta
 
 
 

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