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Estado de Minas CLIMA DE FESTA

Remodelada, Igrejinha da Pampulha é escolhida para virar templo da 'ecologia integral'

Na reinauguração da Igreja São Francisco de Assis, dom Walmor diz que templo será referência na valorização do meio ambiente em harmonia com o ser humano, como preconiza o papa Francisco


postado em 05/10/2019 04:00 / atualizado em 05/10/2019 07:54

Arcebispo da capital comandou a celebração de reabertura da igreja, completamente revigorada após 15 meses de obras(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Arcebispo da capital comandou a celebração de reabertura da igreja, completamente revigorada após 15 meses de obras (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)


Muito mais do que um cartão-postal de Minas e ícone do patrimônio da humanidade, um centro de referência em “ecologia integral”, conforme preconiza o papa Francisco. Esse é o objetivo do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo, que segue neste sábado para Roma, na Itália, onde participará da abertura, neste domingo, do Sínodo da Amazônia, no Vaticano. Ao presidir, na manhã de sexta, a cerimônia de reinauguração da Igreja São Francisco de Assis, mais conhecida como Igrejinha da Pampulha, na capital, o arcebispo explicou que a ecologia integral se refere à valorização do meio ambiente em harmonia com o ser humano. “Pensamos numa escola, um lugar de aprendizagem, de respeito e preservação do meio ambiente, nossa Casa Comum”, afirmou o arcebispo.

Antes do “momento da Palavra”, quando rezou com autoridades e demais convidados para a reabertura do templo vinculado à Arquidiocese de BH, dom Walmor explicou que se trata de uma filosofia de vida baseada na carta encíclica do papa Francisco sobre o Cuidado com a casa comum – em resumo, trata da destruição ambiental pelo ser humano, “o que é muito grave, pois Deus confiou o mundo à humanidade”. Dessa forma, a Ecologia Integral se refere à convivência entre seres vivos e a natureza. Antes das orações, dom Walmor plantou uma muda de ipês roxo-bola, na Praça Padre Dino Barbieri, do outro lado do templo, e explicou que, às 12h30 (horário da Itália) o papa Francisco faria o mesmo, mas com uma muda de azinheira de Assis, homenagem ao padroeiro da igreja e da natureza e santo do dia. À noite, diante da Igrejinha, houve a tradicional bênção dos animais. A primeira missa será celebrada amanhã, às 10h30. A igreja ficará a cargo do assistente pastoral padre Welinton Lopes, titular da Paróquia de Santo Antônio, no Bairro Jaraguá, na mesma região,

A festa de reabertura da Igreja São Francisco de Assis se transformou, também, em grande celebração do patrimônio de Minas e dos que lutam pela conservação de igrejas, capelas, museus, arquivos e demais monumentos que atraem visitantes do mundo inteiro. “Quem atua na área do patrimônio não trabalha com o passado, mas com o futuro, pois deixa para as gerações que vêm, com toda generosidade, um legado importante, a preservação da arte”, destacou a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, que arrancou palmas dos presentes ao citar a ex-superintedente do Iphan em Minas, a museóloga Célia Corsino, exonerada na semana passada por portaria do ministro da Cidadania, Osmar Terra.

Kátia explicou que a nomeação do novo superintendente em Minas do Iphan – conforme foi divulgado pelo Estado de Minas, o ex-assessor parlamentar Jeyson Dias Cabral Silva, sem a qualificação técnica para o cargo, na avaliação de especialistas – não deverá causar prejuízos ao andamento das ações da autarquia federal. “As trocas de chefia são comuns e o Iphan, com seus 82 anos, tem um corpo técnico de grande gabarito e capacitação técnica”, explicou Kátia, ao lado do secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania, José Paulo Martins, e do diretor Departamento de Projetos Especiais do Iphan, Robson Almeida.

INTERVENÇÕES Primeira igreja em estilo modernista do país, a São Francisco de Assis se encontrava fechada desde novembro de 2017, com um ano e três meses de obras. Os recursos federais, no valor de R$1,07 milhão, são do PAC das Cidades Históricas e foram repassados à Prefeitura de BH, que fez a licitação para escolha da empresa encarregada do restauro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O acompanhamento técnico da obra ficou a cargo da autarquia federal, responsável pelo tombamento de todo o conjunto moderno da Pampulha, também protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) e Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural de BH.

Um dos maiores desafios durante a obra, conforme os engenheiros, foi conter as infiltrações que acometiam o interior da igreja. O problema já se manifestava há muitos anos e foram feitas intervenções anteriores, na busca de soluções para o sério problema. A identificação exata dos pontos de infiltração só pôde ser feita após a remoção do forro – após o início da obra, e apresentou pontos não previstos, que levaram à alteração da proposta inicial de intervenções.

Como parte das ações firmadas para a reabertura da Igreja da Pampulha, ficou a cargo da Arquidiocese de BH a recuperação do mobiliário original e da via-sacra Sacra de autoria de Cândido Portinari (1903-1962). A restauração dos 14 quadros foi feita pelo Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais da Universidade Federal de Minas Gerais (Cecor/UFMG). Presente à cerimônia junto com os diretores da empresa Tecnibras, o engenheiro responsável pela obra, Cláudio Pereira, contou detalhes da intervenção no templo, que tinha fissuras e problemas na estrutura. Até mesmo uma tecnologia desenvolvida pela Agência Espacial dos Estados Unidos (Nasa) foi usada, que é um revestimento térmico entre o forro e a casca de concreto, com camadas de lâminas metálicas para evitar a propagação do calor.

Algumas pessoas, no entanto, reclamaram do calor no interior da chamada Capela Curial São Francisco de Assis, que tem apenas 12 bancos, com cinco lugares cada. Como não é possível colocar aparelhos de ar-condicionado, alguns presentes sugeriram ventiladores, que, certamente, serão usados em casamentos no alto verão.

ALEGRIA Moradora de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Sônia Ribeiro Sales parecia voltar no tempo. “Casei aqui em 17 de janeiro de 1973, uma quarta-feira, à tarde. A gente era muito humilde, então não houve festa, só mesmo bombom na porta. Só estou achando os bancos diferentes, mas acho que porque não tinham estofamento”, conta Sônia, que está divorciada de Ari Bernardes de Sales, mas, mesmo separados, “continuamos amigos”. Será que casar aqui dá sorte?, perguntou o repórter, para ouvir de imediato: “Dá sorte, sim! O casamento me deu três filhos maravilhosos, o Alexandre, a Adriana e a Amanda Luíza”, respondeu Sônia, que gostaria de ter levado o álbum do casamento, mas o esqueceu em casa.

Diante do painel do batistério, obra do mineiro Alfredo Ceschiatti (1918-1989) e composto de chapas de bronze fundido, a pedagoga Maria Helena Corrêa, moradora do Bairro Colégio Batista, na Região Leste de BH, posava para fotos. “Está muito bonito. O importante é preservar, pois é um patrimônio da humanidade”, disse Maria Helena. Ao lado, a dona de casa Maria Aparecida Casagrande, capixaba há três anos residente na capital, fez coro às palavras de Maria Helena e afirmou ter gostado muito da restauração. Ao lado, duas paulistas queriam saber do horário das missas, e ficaram sabendo que será todo domingo, às 10h30. “Que ótimo! Então, neste domingo já tem”, se alegrou a dupla. Os visitantes puderam admirar ainda os jardins projetados pelo paisagem Burle Marx (1909-1994), totalmente revitalizados, os painéis externos e internos de Cândido Portinari (1903-1962), além dos quadros e os painéis de pastilhas do artista plástico Paulo Cabral da Rocha Werneck (1903-1962).


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