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Estado de Minas DIA DO IDOSO

Em turma do EJA, idosos espantam o isolamento e mostram que sempre é tempo de aprender

Em curso do programa de Educação de Jovens e Adultos, alunos como Orlando Melo, de 82 anos, realizam o sonho de ampliar os conhecimentos


postado em 01/10/2019 06:00 / atualizado em 01/10/2019 07:45

Lourdes do Nascimento, de 71 anos, e Orlando de Melo, de 82, firmes no aprendizado em turma do EJA(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Lourdes do Nascimento, de 71 anos, e Orlando de Melo, de 82, firmes no aprendizado em turma do EJA (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


O sinal de “pare” nunca funcionou na vida do motorista aposentado Orlando Alves de Melo, de 82 anos, a não ser quando o vermelho do semáforo se acende no trânsito. No mais, ele segue tranquilo sua viagem pela vida, cuidando da saúde, da família e, principalmente, da educação. Quando não está correndo na orla da Lagoa da Pampulha ou curtindo a casa no Bairro Céu Azul, na região, Orlando prega os olhos nos livros, sem perder as aulas do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), pois se prepara, confiante, para a realização de um sonho: falar inglês e espanhol. No Dia Mundial do Idoso, comemorado hoje, Orlando celebra seu tempo, certo de que, com o estudo, portas se abrem para a luz do conhecimento entrar e espantar o isolamento.

Na tarde de ontem, Orlando mostrava o que já aprendeu nas aulas ministradas no espaço da Igreja Adventista do Bairro Céu Azul, fruto de uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação para oferecer o curso à tarde, das 13h30 às 16h30, de segunda a quinta-feira. “Sei falar I love you (Eu te amo), Let's go! (Vamos) e Come here! (Vem cá), conta o motorista ao lado da professora da rede pública municipal, Gilvania de Castro Oliveira. Firme no seu propósito, ele almeja outra conquista. “Quero conhecer os Estados Unidos, tenho três primos no estado da Pensilvânia. Vou a Nova York, Califórnia e outros lugares.”

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 33,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, sendo 3,5 milhões (perto de 10%) em Minas Gerais. Aluna do EJA, Lavínia Machado de Souza acaba de completar seis décadas e se mostra feliz. “Tem uma série de benefícios”, conta bem-humorada, ao lado das colegas Poncila Nascimento Soares, de 67, e Maria de Lourdes do Nascimento Folgado, de 71 – o trio, por sinal, acaba de chegar de uma viagem a Foz do Iguarçu (PR), na companhia de quatro amigos.

Despertar


Maria de Lourdes está certa de que o estudo representa um despertar na vida, mesmo passados muitos anos longe dos bancos escolares. Viúva, sem filhos, ela preferiu os cadernos à poltrona, tevê e solidão. “Fiz até a quarta série e saí para trabalhar, pois as condições financeiras eram muito “precárias” naqueles tempos. Assim trabalhou em casa de família, em fábrica e com as costuras, para as quais volta nos momentos domésticos. Destacando que a escola proporciona diversão e convivência, Maria de Lourdes gosta de matemática, mas não pensa em fazer uma faculdade.

Ao lado, o colega Orlando avisa que o curso superior está entre suas metas: “Quero ser professor de inglês”. E revela, todo orgulhoso, que tem duas filhas, uma deles formada em engenharia química. Na aula de ontem, não pôde estar presentar um aluno mais velho da classe, Juvenil Ferreira da Silva, de 91. Acometido por uma gripe muito forte, preferiu permanecer em casa até ficar bom, embora seguindo determinado a aprender a ler e a escrever. A professora Gilvania elogia o empenho da turma do programa EJA externa, com alunos acima dos 50 anos, com níveis diferentes, alguns deles para alfabetização.

Segundo Eduardo Nicodemos da Silva, da Igreja Adventista e um dos líderes do trabalho com os idosos, o local se tornou um anexo da Escola Municipal Joaquim dos Santos, do Céu Azul, ao ofertar turmas do EJA no turno da tarde. “Geralmente, o curso é ministrado à noite, então, para facilitar a vida dos alunos em segurança e mobilidade, resolvemos abrir este horário”, disse Eduardo. Assim, na sala de aulas, “grande parte dos idosos pode fugir do isolamento, da depressão e do abandono, reencontrando novo sentido para a vida”. Dados citados pela igreja mostram que, conforme o IBGE, a maior parcela de analfabetismo ocorre entre idosos: pessoas com mais de 60 anos representam 19,3% dos analfabetos do país.


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