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Estado de Minas VIOLÊNCIA

Violência contra as mulheres: cinco são assassinadas em uma semana em Minas

Estado registra quatro feminicídios, além de estupro seguido de assassinato em sete dias. Ex-namorado de uma das vítimas é preso


postado em 08/09/2019 06:00 / atualizado em 08/09/2019 07:27

Polícia levanta dados no local onde Isabela Gentil foi morta à queima-roupa na sexta-feira: detido ontem, ex-namorado é suspeito de participar do crime(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Polícia levanta dados no local onde Isabela Gentil foi morta à queima-roupa na sexta-feira: detido ontem, ex-namorado é suspeito de participar do crime (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Em diagnóstico da violência divulgado no fim do primeiro semestre, o governo de Minas mostrou que todos os índices regrediam no estado, com exceção de um: o feminicídio, que acumulava 77 ocorrências, média de 11 por mês. E a escalada da violência contra a mulher ganha cada vez mais degraus a cada semana. Na última, encerrada ontem, quatro perderam a vida em crimes desse tipo em cidades mineiras – três delas moravam em Belo Horizonte – e uma quinta foi morta após estupro. No ataque mais recente, ocorrido ontem, Grazielle Serra Pereira Santana, de 32 anos, morreu em sua casa, no Bairro Jardim Montanhês (Região Noroeste). O principal suspeito? O marido dela, Estevão Bruno Oliveira Silva, de 29, que era procurado pela polícia até o fechamento desta edição. Ainda ontem, um suspeito de participar da execução da jovem Isabela Gentil Reis Costa da Silveira, de 20, foi preso pela corporação. Ele era ex-namorado da microempreendedora baleada na sexta-feira no Bairro Santa Amélia. Também no âmbito da violência contra o sexo feminino, uma mulher não identificada foi estrangulada até a morte após ser estuprada, na madrugada de ontem, novamente em BH.

No caso do Jardim Montanhês, a perícia da Polícia Civil informou que a mulher foi enforcada em uma cama. Ela  tinha também lesões na face. A Polícia Militar se deslocou ao local depois de receber uma denúncia via rádio. Conforme o Boletim de Ocorrência, o solicitante era o cunhado da vítima, que mora com a irmã dela no mesmo lote onde ocorreu o crime, na Rua Flor da Verdade. Ele contou aos militares que, por volta das 4h30 de ontem, ouviu o portão batendo e Estevão Bruno Oliveira Silva dando partida no carro. Contudo, pensou que o suspeito iria para o trabalho.

Por volta das 7h, o cunhado da vítima recebeu uma ligação da sua esposa, irmã de Grazielle. Ela disse ao marido que havia recebido outro chamado, esse de uma irmã de Estevão. A parente do suspeito pediu para que a irmã da vítima verificasse as condições de Grazielle na casa do casal, pois o suspeito havia largado a filha dos dois na casa de sua irmã. Segundo a PM, ao deixar a criança com a parente, Estevão Bruno disse que “desgraçaria sua vida”, pois havia descoberto uma traição.

A polícia procura por Estevão, mas ele ainda não foi encontrado. Conforme o Boletim de Ocorrência, o cunhado do suspeito, que acionou a corporação, disse que ele e Grazielle moravam lado a lado havia quatro anos, mas desde 2018 haviam rompido relações, apesar de ocuparem o mesmo imóvel. Estevão, segundo depoimento dessa testemunha à PM, se negava a sair de casa. O suspeito dizia que só sairia dali morto ou executando a esposa. Ele não aceitava o fim do relacionamento, de acordo com o parente da vítima.

PRISÃO

Mistério desvendado em menos de 24 horas. Também na madrugada de ontem, a polícia prendeu Rafael Nunes, de 26 anos. Ele é suspeito de participar da execução da jovem Isabela Gentil Reis Costa da Silveira, de 20, com quem namorou por três anos. O casal teve um filho durante a relação, hoje com 5 meses. O assassinato à queima-roupa ocorreu na sexta-feira e chocou os moradores do Bairro Santa Amélia, na Pampulha. Outros três suspeitos ainda estão foragidos.

Rafael Nunes foi preso em casa e autuado por homicídio em Ribeirão das Neves, na Grande BH. “Ele diz que dirigiu até o local, mas não conta o motivo nem exatamente qual foi a participação dele no crime”, disse o tenente Roberto Ramos Silvestre, da 228ª Companhia Tático Móvel, um dos responsáveis pela prisão. Uma arma calibre 38 foi apreendida na casa de um parente de Rafael e encaminhada para a delegacia para que a Polícia Civil examine se foi esse o revólver usado no crime.

O assassinato ocorreu na Rua Alair Marques Rodrigues. A jovem estava em escritório do ramo de seguros onde trabalhava. Dois homens a chamaram, atiraram nela em uma curta distância e fugiram. Tudo foi registrado por câmeras de segurança, a principal ferramenta das investigações para desvendar a história. No dia do crime, militares do 49º Batalhão foram até o local acompanhados de policiais do setor de inteligência à procura de mais câmeras e testemunhas.

O tenente Roberto Ramos Silvestre, da 228ª Companhia Tático Móvel, informou que numa das câmeras foi possível ver o Palio Weekend verde no qual os assassinos entraram. Três homens que estavam no carro com placa clonada abandonaram o veículo próximo do local do crime e entraram num Fiesta prata, fugindo em seguida.

“Tentamos achar outras câmeras, melhorar a imagem da placa e chegamos ao dono do Fiesta. Ele contou ter emprestado o veículo a um conhecido que lhe pediu o carro para ‘resolver problemas’ e o devolveu na parte da tarde”, relatou o policial militar. O conhecido em questão é Rafael Nunes. Na casa dele, em Ribeirão das Neves, o suspeito contou uma história que, segundo o tenente, não se encaixava com as imagens colhidas por onde o veículo passou. “Ele foi evasivo em alguns momentos e permaneceu em silêncio em outros. No desenrolar da conversa, admitiu ter dirigido o Fiesta”, afirmou Roberto Ramos.

OUTROS CASOS

Minas Gerais teve outros dois feminicídios na semana passada. Na terça, Paulo César Gomes da Silva, de 39, matou sua esposa, Maria Luzia de Souza Lima, de 31, com 10 facadas. O crime ocorreu em Durandé, na Região da Zona da Mata. Paulo foi preso na quarta, em Lagoa Santa, na Grande BH, onde já havia morado. Em Belo Horizonte, naquela mesma quarta, no fim da tarde, Josiane Pereira, de 35, aguardava o término da aula do Colégio Piaget, no Bairro Santa Branca (Pampulha) para buscar as filhas. Naquele momento, ela encontrou com João Paulo de Lima, de 33, com quem havia se relacionado nos Estados Unidos. O homem não havia aceitado o término do relacionamento e atirou diversas na vítima quando viu a polícia se aproximar da Rua do Carmelo, local do crime. Ele também deu dois tiros contra sua própria cabeça, um deles de raspão e outro em cheio. João Paulo foi levado para o Hospital Risoleta Neves e seu estado era estável ontem.

ESTUPRO

Mais uma mulher foi morta por um homem em Belo Horizonte. O corpo dela foi encontrado na madrugada de ontem na escadaria da Rua São Francisco Xavier, no Bairro Jaqueline, Região Norte da cidade. Segundo a PM, a vítima tem cerca de 30 anos e não portava documentos. Moradores da localidade disseram que não conheciam a mulher. Por isso, a corporação não pôde identificá-la. A vítima estava com pés e mão amarrados e sem roupa. A perícia da Polícia Civil constatou que ela foi estuprada e estrangulada. O corpo tinha sinais  de outras agressões.

A corporação foi acionada por um homem que mora nas proximidades e foi alertado sobre o crime por uma mulher. A investigação segue para a 3ª Delegacia Especializada em Homicídios de Venda Nova.


CRIME HEDIONDO 

O feminicídio é o assassinato de pessoas do sexo feminino, pelo menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou por violência doméstica. A legislação foi sancionada em 2015 e classificou a morte violenta de mulheres por questão de gênero como crime hediondo. As penas variam de 12 a 30 anos de reclusão. O autor desse tipo de assassinato pode ter a pena aumentada em um terço até a metade se o crime for praticado durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto, contra pessoa menor de 14 anos, maiores de 60 anos ou com deficiência e se ocorrer na presença de descendente ou de ascendente da vítima.



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