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Estado de Minas

Força-tarefa investiga ''troca de laudos'' de estabilidade da barragem da Vale em Brumadinho

Grupo avalia indícios de que a Vale dispensou auditoria que reprovou estabilidade de barragem e contratou outra para obter atestado


postado em 07/03/2019 06:00 / atualizado em 07/03/2019 08:59

Área arrasada da Mina Córrego do Feijão: auditores que consideraram barragem estável foram contratados após dispensa de outra empresa(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 11/2/19)
Área arrasada da Mina Córrego do Feijão: auditores que consideraram barragem estável foram contratados após dispensa de outra empresa (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 11/2/19)


A força-tarefa que apura o desastre da mina da Vale em Brumadinho investiga se a mineradora responsável pela operação da barragem que se rompeu em 25 de janeiro na cidade da Grande BH mudou de auditoria técnica para conseguir um parecer favorável sobre a estabilidade da estrutura, que acabou entrando em colapso. A ruptura das barragens 1, 4 e 4A provocou a maior catástrofe humana e socioambiental do Brasil, deixando 186 mortos e 122 desaparecidos sob mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração.

Investigadores das polícias Civil, Federal, do Ministério Público de Minas Gerais e dos órgãos de fiscalização detectaram que a Vale mudou de consultoria técnica em setembro do ano passado, quando era atendida pelo grupo franco-belga Tractebel/Engie. Segundo reportagem do jornal norte-americano Wall Street Journal, a Tractebel não chegou a emitir um laudo de garantia de estabilidade da estrutura do complexo da Mina Córrego do Feijão. Outro fator que teria chamado a atenção dos investigadores foi que a Vale recontratou a consultoria alemã Tüv Süd, que tinha garantido a estabilidade do barramento em junho daquele ano e voltou a emitir um laudo favorável, em setembro.

Em entrevista ao Estado de Minas, a promotora que coordena a força-tarefa dos desastres da Vale e da Samarco (2015) pelo MP, Andressa Lachotti, afirma que há pressões, sobretudo econômicas, para que os licenciamentos necessários para que as barragens possam receber rejeitos, sem que a atividade minerária seja interrompida – o que geraria um grande número de demissões numa das atividades que mais empregam em Minas Gerais. A promotora, porém, não comentou sobre o inquérito criminal e a suspeita de substituição de auditorias em Brumadinho para obtenção do laudo de estabilidade.

Em 29 de janeiro, os engenheiros da Tüv Süd Makoto Namba e André Jum Yassuda foram detidos, assim como três funcionários da Vale – o geólogo Cesar Augusto Paulino Grandchamp, o gerente de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do complexo minerário de Córrego do Feijão, Ricardo de Oliveira, e o gerente-executivo operacional Rodrigo Artur Gomes Melo. Em depoimento à força-tarefa, Makoto Namba afirmou ter se sentido pressionado pela mineradora para atestar a estabilidade da barragem, que viria a se romper. Segundo o profissional, representantes da Vale insistiam em saber quando o laudo de garantia de estabilidade seria emitido. Ele garantiu ter informado à empresa que deveria seguir as 17 recomendações que fez para que a operação continuasse, mas admitiu ter assinado o atestado temendo perder o contrato.

A equipe de reportagem do EM ouviu a defesa dos funcionários da Vale, que negaram essa pressão. De acordo com o advogado Henrique Viana Pereira, o engenheiro interpretou incorretamente um pedido de expectativa de emissão do laudo, como se fosse algum tipo de ameaça que poderia resultar na perda do contrato de prestação de serviços. “Isso foi uma impressão que o engenheiro pode ter tido, mas não houve nenhuma pressão de fato”, disse o advogado Henrique Viana Pereira.

ELES SABIAM Em 15 de fevereiro, outros oito funcionários da Vale foram detidos e ouvidos pela força-tarefa. Nos depoimentos, os trabalhadores indicaram que executivos da mineradora sabiam que havia ocorrido  um decréscimo no nível de segurança na barragem, mas mantiveram a operação da estrutura. Em paralelo a essas investigações, o MP requisitou na Justiça o descomissionamento de outras oito barragens da empresa, por não serem consideradas seguras, segundo os próprios critérios da mineradora.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Tüv Süd informou que “com o apoio de especialistas da própria empresa e externos está investigando minuciosamente seus processos internos, bem como possíveis causas para o trágico colapso da barragem em Brumadinho”. “Caso essas investigações revelem qualquer conduta indevida por parte de funcionários, a empresa tomará as providências necessárias”, concluiu. A Tractebel foi procurada, mas até o fechamento desta edição não havia respondido aos questionamentos da reportagem do EM. A Vale também não se posicionou sobre as suspeitas investigadas pela força-tarefa.

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