Publicidade

Estado de Minas

Igam acredita que é possível resgatar o Rio Paraopeba, atingido por rejeitos de barragem

Res­pon­sá­vel pe­lo abas­te­ci­men­to de 2,3 mi­lhõ­es de pes­so­as, o Pa­ra­o­pe­ba se tor­nou, se­gun­do in­te­gran­tes da ex­pe­di­ção da SOS Mata Atlântica, um 'rio mor­to, sem con­di­ção de vi­da aquá­ti­ca e do uso da água pe­la po­pu­la­ção'


postado em 01/03/2019 06:00 / atualizado em 01/03/2019 07:57

Rio Paraopeba visto de ponte em Brumadinho durante solenidade de um mês do rompimento da barragem: turbidez elevada denuncia estragos(foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press - 25/2/19)
Rio Paraopeba visto de ponte em Brumadinho durante solenidade de um mês do rompimento da barragem: turbidez elevada denuncia estragos (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press - 25/2/19)


Do­mi­na­do pe­la tur­bi­dez, as­so­la­do pe­los me­tais pe­sa­dos e ce­ná­rio de de­gra­da­ção por to­do la­do, o Rio Pa­ra­o­pe­ba não es­tá mor­to, mas “im­pac­ta­do”, dis­se, on­tem, a di­re­to­ra-ge­ral do Ins­ti­tu­to Mi­nei­ro de Ges­tão das Águas (Igam), Ma­rí­lia Me­lo, so­bre a si­tu­a­ção do aflu­en­te do São Fran­cis­co mais de um após o rom­pi­men­to da bar­ra­gem da mi­na do Cór­re­go do Fei­jão, em Bru­ma­di­nho, na Re­gi­ão Me­tro­po­li­ta­na de Be­lo Ho­ri­zon­te (RM­BH). “Não sa­be­mos qual se­rá o tem­po pa­ra re­cu­pe­rar o Pa­ra­o­pe­ba, mas é pos­sí­vel”, dis­se Marília. O qua­dro, no en­tan­to, é bem ca­ó­ti­co na ba­cia hi­dro­grá­fi­ca, sen­do um dos pi­o­res exem­plos o Cór­re­go Fer­ro Car­vão, que, con­for­me dis­se ao Es­ta­do de Mi­nas o se­cre­tá­rio es­ta­du­al de Meio Am­bi­en­te e De­sen­vol­vi­men­to Sus­ten­tá­vel (Se­mad), Ger­ma­no Lu­iz Go­mes Vi­ei­ra, foi to­tal­men­te “so­ter­ra­do”.

Nas edi­çõ­es de quar­ta-fei­ra e de on­tem do EM, fo­ram di­vul­ga­dos os re­sul­ta­dos da Ex­pe­di­ção da Fun­da­ção SOS Ma­ta Atlân­ti­ca, que per­cor­reu 2 mil qui­lô­me­tros de es­tra­da, ao lon­go de 21 mu­ni­cí­pi­os, pa­ra ana­li­sar a qua­li­da­de da água em 305 qui­lô­me­tros do Rio Pa­ra­o­pe­ba afe­ta­dos pe­lo rom­pi­men­to da bar­ra­gem da mi­ne­ra­do­ra Vale. O re­la­tó­rio da ex­pe­di­ção, apre­sen­ta­do em Bra­sí­lia (DF), re­ve­la que a la­ma de re­jei­tos pro­vo­cou um ras­tro de des­trui­ção ao lon­go do ma­nan­ci­al, ele­van­do o ní­vel de me­tais pe­sa­dos na água, que fi­cou im­pró­pria pa­ra o consumo.

Res­pon­sá­vel pe­lo abas­te­ci­men­to de 2,3 mi­lhõ­es de pes­so­as, in­clu­in­do ha­bi­tan­tes da RM­BH, o Pa­ra­o­pe­ba se tor­nou, se­gun­do in­te­gran­tes da ex­pe­di­ção, re­a­li­za­da no pe­rí­o­do de 31 de ja­nei­ro a 9 de fe­ve­rei­ro, um “rio mor­to, sem con­di­ção de vi­da aquá­ti­ca e do uso da água pe­la po­pu­la­ção”. À fren­te da ins­ti­tui­ção res­pon­sá­vel pe­la ges­tão das águas, Ma­rí­lia afir­ma que “as me­to­lo­gi­as são di­fe­ren­tes tan­to na co­le­ta quan­to na aná­li­se da água, com ve­ri­fi­ca­ção do Ins­ti­tu­to Na­ci­o­nal de Me­tro­lo­gia, Qua­li­da­de e Tec­no­lo­gia (In­me­tro)”.

NO­VOS PON­TOS
Se­gun­do a di­re­to­ra do Igam, mais qua­tro pon­tos de mo­ni­to­ra­men­to de qua­li­da­de da água se­rão ins­ta­la­dos no Rio Pa­ra­o­pe­ba a fim de de­tec­tar o avan­ço da plu­ma (on­da de re­jei­to de mi­né­rio) no aflu­en­te do São Fran­cis­co, in­for­mou, on­tem, a di­re­to­ra-ge­ral do Ins­ti­tu­to Mi­nei­ro de Ges­tão das Águas (Igam), Ma­rí­lia Melo. Des­ta vez, os téc­ni­cos fa­rão co­le­ta e aná­li­se den­tro e de­pois do re­ser­va­tó­rio de Três Ma­ri­as, em Fe­li­xlân­dia, na Re­gi­ão Cen­tral, e tam­bém lo­go após a Usi­na Hi­dre­lé­tri­ca de Re­ti­ro Bai­xo, en­tre Cur­ve­lo e Pompéu. No to­tal, se­rão 22 pon­tos de mo­ni­to­ra­men­to, pois a Co­pa­sa tem três e o Ser­vi­ço Ge­o­ló­gi­co do Bra­sil (CPRM) a mes­ma quantidade.”O ma­te­ri­al po­de che­gar, sim, a Três Ma­ri­as”, ad­mi­tiu, on­tem, a di­re­to­ra-ge­ral do Igam, em­bo­ra sem fa­lar em datas.

Com as chu­vas, a ten­dên­cia é que os se­di­men­tos de­po­si­ta­dos no cór­re­go Fer­ro Car­vão, que fi­cou des­truí­do com a la­ma va­za­da da bar­ra­gem da Mi­na Cór­re­go do Fei­jão, da Va­le, se­jam re­vol­vi­dos e car­re­a­dos pa­ra a ca­lha do Paraopeba. “Por en­quan­to, a plu­ma não che­gou à Usi­na Hi­dre­lé­tri­ca de Re­ti­ro Bai­xo, dis­se a di­re­to­ra, ex­pli­can­do que, an­tes des­sa uni­da­de, o ín­di­ce de tur­bi­dez ex­tra­po­lou o li­mi­te de clas­se 2. Tam­bém fo­ram além dos ní­veis acei­tá­veis o alu­mí­nio, o fer­ro dis­sol­vi­do, o man­ga­nês, o chum­bo e o mercúrio.

CA­DAS­TRA­MEN­TO A par­tir da Po­lí­ti­ca Na­ci­o­nal de Se­gu­ran­ça de Bar­ra­gens (PNSB), de se­tem­bro 2010, o go­ver­no do es­ta­do, via por­ta­ria do Ins­ti­tu­to Mi­nei­ro de Ges­tão das Águas (Igam), di­vul­gou as nor­mas a se­rem apli­ca­das pa­ra ga­ran­tir a in­te­gri­da­de das bar­ra­gens de água (ir­ri­ga­ção, abas­te­ci­men­to, pai­sa­gis­mo ou sim­ples­men­te pa­ra ma­tar a se­de dos ani­mais no cam­po). A re­so­lu­ção in­clui Ins­pe­ção de Se­gu­ran­ça Re­gu­lar (ISR), Ins­pe­ção de Se­gu­ran­ça Es­pe­ci­al (ISE), Re­vi­são Pe­ri­ó­di­ca de Se­gu­ran­ça (RP­SB), Pla­no de Se­gu­ran­ça da Bar­ra­gem (PSB) e Pla­no de Ação de Emer­gên­cia (PAE).

“São me­di­das, em vi­gor des­de quar­ta-fei­ra e fun­da­men­tais pa­ra pro­te­ger os pro­pri­e­tá­ri­os e as co­mu­ni­da­des, pois há re­gis­tros de rom­pi­men­tos des­sas bar­ra­gens”, des­ta­ca a di­re­to­ra-ge­ral do Igam. “De­ve­mos pen­sar que a água, se rom­pi­da a bar­ra­gem, po­de atin­gir ca­sas, ro­do­vi­as, en­fim, há ris­cos pa­ra a po­pu­la­ção, em­bo­ra elas es­te­jam lo­ca­li­za­das em áre­as de va­le e fun­do de va­le, e não no to­po das montanhas.” A re­so­lu­ção ex­clui usi­nas hi­dre­lé­tri­cas, em­pre­en­di­men­tos in­dus­tri­ais e de es­tru­tu­ras de con­ten­ção de re­jei­tos de ati­vi­da­de minerária. Ma­rí­lia es­cla­re­ce que não foi a tra­gé­dia de rom­pi­men­to da bar­ra­gem da Va­le, em Bru­ma­di­nho, na Gran­de BH, há pou­co mais de um mês, o pon­to de par­ti­da pa­ra re­gu­la­men­ta­ção da PNSB. “Já es­tá­va­mos tra­ba­lhan­do ne­la ha­via um ano e meio, e fi­cou pron­ta uma se­ma­na an­tes da tra­gé­dia em Brumadinho.”

Mi­nas tem cer­ca de 57 mil bar­ra­gens de água, a mai­or par­te na re­gi­ão do se­mi­á­ri­do, com des­ta­que pa­ra Nor­te do es­ta­do, e tam­bém o No­ro­es­te, sen­do 40 mil de me­nor por­te com vo­lu­me ar­ma­ze­na­do abai­xo de 5 mil me­tros cúbicos. Pa­ra al­gu­mas es­tru­tu­ras, co­mo as de 50 hec­ta­res (al­go co­mo 50 cam­pos de fu­te­bol) tor­na-se ne­ces­sá­rio o li­cen­ci­a­men­to pe­los ór­gã­os competentes.

Um dos pon­tos da Por­ta­ria nº 2 do Igam se re­fe­re ao ca­das­tra­men­to, in­for­ma Marília. Por­tan­to, aten­ção: até dia 28 de mar­ço, os pro­pri­e­tá­ri­os de es­tru­tu­ras – com al­tu­ra igual ou su­pe­ri­or a 15 me­tros e ca­pa­ci­da­de to­tal do re­ser­va­tó­rio mai­or ou igual a 3 mi­lhõ­es de me­tros cú­bi­cos – de­ve­rão aten­der ao cha­ma­do das au­to­ri­da­des, que es­tá no site  www.igam.mg.gov.br/ges­tao-das-aguas/ca­das­tro-de-barragens. O pro­pri­e­tá­rio ou res­pon­sá­vel que não cum­prir a obri­ga­ção, es­tá su­jei­to a mul­ta apli­ca­da pe­lo Igam.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade