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Estado de Minas

Apreensão e contas a pagar: desastre paralisa trabalho ao longo do Paraopeba

Na segunda semana útil após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, população atingida já sofre com prejuízos financeiros


postado em 04/02/2019 06:00 / atualizado em 04/02/2019 09:00

Elismar e Adão trabalhavam em dragas na parte do Rio Paraopeba mais atingida pelo rompimento da barragem da mineradora Vale(foto: Renan Damasceno/EM/D.A Press)
Elismar e Adão trabalhavam em dragas na parte do Rio Paraopeba mais atingida pelo rompimento da barragem da mineradora Vale (foto: Renan Damasceno/EM/D.A Press)


Brumadinho – A segunda semana útil desde o rompimento da Barragem 1 da Mina do Córrego do Feijão começa hoje e Elismar Ferreira não sabe quando voltará a trabalhar para pagar as contas. Sua renda depende da operação de em uma das quatro areeiras que funcionavam no curso do Rio Paraopeba, na parte mais atingida pelos rejeitos da Vale, que invadiram o manancial desde o início da tarde de sexta-feira.

O rompimento paralisou o trabalho ao longo do rio. São operadores de dragas de areia, pedreiros que prestavam serviço em condomínios e chácaras – que pararam as obras –, e dezenas de agricultores familiares que viviam das hortas. “A gente não tem previsão de voltar a trabalhar. Até agora não recebemos nada do patrão, ele não falou nada, como vai ser o pagamento nosso. Do jeito que está, nem imagino quando vamos voltar”, contra Elismar, que opera dragas de areias há 10 anos. A empresa tem sete funcionários.

“Estou vivendo de ajuda das pessoas que estão auxiliando a gente. As contas estão todas paradas, carnê e cartão de banco também, criando juros”, conta Adão Balbino, morador do Parque da Cachoeira, comunidade rural de Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Adão trabalhava no Tiradentes, que fica do outro lado do Paraopeba. O acesso para essa área foi engolido pela lama. “Pararam os serviços do outro lado, porque a gente não consegue atravessar.”

Walmir Márcio da Silva, que também é pedreiro, começaria uma obra nesta semana. “Eu ia pegar uma reforma, que estava programada para começar este mês e foi cancelada. Estou na expectativa. Vou procurar outra coisa para trabalhar, fazer outra coisa enquanto isso.”

FUTURO INCERTO Os últimos 10 dias no Parque da Cachoeira foram de sustos em sequência. No dia 25, a lama do rompimento da barragem chegou poucos minutos depois à comunidade, destruindo cerca de 30 casas. No domingo, todos foram acordados cedo com a sirene anunciando o risco iminente de rompimento da barragem de água B6 – que foi estabilizada por bombeamento ao longo do dia. Quarta, outras 60 casas foram destelhadas pela chuva.

A comunidade se uniu e se reúne diariamente no campo de futebol do centro comunitário. Ali são distribuídos cestas básicas e água para os moradores. Muitas casas ficaram até dois dias sem fornecimento de água e luz, já que muitos postes e árvores foram tombados com a chuva, atrapalhando o abastecimento.

O futuro é incerto para os moradores, que estão vivendo de doações e ajuda dos voluntários, e oferecendo o pouco que tem para ajudar uns aos outros. “Esta semana fiquei correndo atrás, ajudando o povo, botando água para gelar, carregando água em função do resgate. Moro com meu pai e minha mãe e minha renda é a única. Tenho filho, pago pensão e não sei como vou fazer neste mês”, lamenta Elismar.

Poluição que não para

(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)

A água verde que corre sob o pontilhão da comunidade rural de Alberto Flores se encontra com a lama vermelho-escuro que desce pelo Córrego do Feijão. A reportagem do Estado de Minas visitou ontem o exato ponto onde o Rio Paraopeba recebe a poluição de rejeitos, que continua contaminando o leito 10 dias após o rompimento da barragem da Vale. No local, entre as comunidades dos Pires e Melo Franco, no limite com São José do Paraopeba, é possível perceber a força da catástrofe. Ao encontrar a calha principal, a lama que vinha pelo afluente avançou cerca de 150 metros rio acima. Na sexta-feira, o barro represou o Paraopeba, que teve o nível reduzido ao passar por Brumadinho. Horas depois, a lama começou a descer, matando peixes e avançando no sentido Três Marias. 


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