Publicidade

Estado de Minas

Furtos de placas deixam monumentos sem identificação em Belo Horizonte

A falta das placas é notada em vários pontos da capital. No último furto, placa de bronze datada de 1943 foi levada da Boa Viagem


postado em 11/01/2019 06:00 / atualizado em 11/01/2019 07:42

Graça Malveira, administradora da paróquia, lamenta o furto de placa do monumento da Boa Viagem, do tempo em que JK era prefeito. Outra já havia sido levada no mesmo local(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Graça Malveira, administradora da paróquia, lamenta o furto de placa do monumento da Boa Viagem, do tempo em que JK era prefeito. Outra já havia sido levada no mesmo local (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Belo Horizonte acaba de completar 121 anos e começa a sofrer de “memória fraca”, mal causado, principalmente, pelo furto das placas de identificação de monumentos públicos: bustos de personagens da história e esculturas desaparecem sem deixar vestígios, deixando moradores e visitantes perdidos ou com cara de ponto de interrogação. O caso mais recente ocorreu no adro da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem – Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua, na Região Centro-Sul. Segundo a administradora da paróquia, Graça Malveira, foi levada a placa de bronze, datada de 1943, do tempo em que Juscelino Kubitschek (1902-1976) era prefeito da capital e Benedito Valadares (1892-1973), o governador. 

“Arrancaram tudo, até parte do reboco. Quebraram os parafusos”, mostra a administradora, explicando que fez o boletim de ocorrência e comunicará hoje o fato ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), responsável pelo tombamento do “prédio e da praça que o circunda” em 1977. O pilar de alvenaria do lado esquerdo de quem olha para a Rua Sergipe, também está vazio. “Esse furto é mais antigo, não tivemos mais notícia da peça. É uma tristeza grande para todos nós, pois se trata de um bem protegido”, afirma Graça. O templo tem ainda elementos artísticos – incluindo a imagem, altar, pia, chafariz e outras peças do século 18 – sob proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

As placas desaparecidas ficavam onde um dia existiu a sacristia da Igreja Boa Viagem, na época de Curral del-Rey, o arraial colonial varrido do mapa para construção da capital, inaugurada em 12 de dezembro de 1897. Em um espaço, cercado de muro de alvenaria e grade, está a réplica do lavabo, em pedra-sabão, que ficou durante anos no Museu Histórico Abílio Barreto. A peça original, datada de 1793 e atribuída por alguns especialistas a Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814) pode ser vista pelo público do lado direito da também chamada catedral provisória.

Desorientação: Francisca Ramos passa diariamente em frente ao busco de Getúlio Vargas, na avenida que leva o seu nome, sem saber quem é o homenageado (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Desorientação: Francisca Ramos passa diariamente em frente ao busco de Getúlio Vargas, na avenida que leva o seu nome, sem saber quem é o homenageado (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Em 2017, a Prefeitura de Belo Horizonte, via Guarda Municipal, registrou 363 ocorrências de danos ao patrimônio público de praças. No ano passado, o número cresceu: 386. Em nota, a PBH informa que os danos se referem a depredação parcial ou total de monumentos, bancos e demais estruturas nos espaços. “A Guarda Municipal atua no combate a esse tipo de vandalismo realizando rondas preventivas em viaturas em toda a capital, durante 24 horas por dia. O monitoramento de imagens captadas por câmeras, no Centro Integrado de Operações (COP-BH), reforça este patrulhamento e possibilita a intervenção imediata do efetivo da Guarda nas áreas que contam com tal equipamento”, afirmam as autoridades em nota.

A PBH informa ainda que a recolocação das placas nos monumentos envolve vários órgãos municipais e que será analisada a maneira mais eficaz de resolver a questão.

Confusão: sem identificação, a figura de Sette Câmara já foi confundida com a do poeta Joaquim Mendes e 'vestida' por engano na semana de moda (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
Confusão: sem identificação, a figura de Sette Câmara já foi confundida com a do poeta Joaquim Mendes e 'vestida' por engano na semana de moda (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)
SUMIÇOS Um giro pela Região Centro-Sul de BH mostra que muitas homenagens a personagens da história do Brasil, de Minas e da capital sumiram e ficaram sem substitutas. Permaneceram as falhas de memória, que comprometem a compreensão de moradores e turistas em visita à cidade na época das férias de janeiro. Residente no Bairro Fernão Dias, na Região Nordeste, Francisca Ramos passa diariamente pela Avenida Getúlio Vargas, no Bairro Funcionários, na Centro-Sul, em direção ao trabalho, e nunca se deu conta da presença do busto de bronze em honra do gaúcho de São Borja, líder da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, e presidente da República em dois mandatos: de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. “Impossível a pessoa saber de quem se trata, pois não tem placa de identificação. Se a minha família vier do interior, terá a mesma dificuldade”, disse Francisca rodeando o monumento localizado no canteiro central da avenida, quase na esquina com a Rua Maranhão, para confirmar se havia um sinal da figura ilustre.

Já na Avenida Augusto de Lima, esquina com Rua da Bahia, no Centro, há um personagem sem placa que causa confusão – e quem sabe, a partir desta reportagem, a questão seja esclarecida de uma vez. Em outubro, durante a Semana de Moda, um grupo de empresários, estilistas, consultores de marketing e outros profissionais do setor plantou muda de ipê no canteiro e depois “vestiu” o busto de bronze do poeta e jornalista Joaquim Mendes de Oliveira (1879-1918). A turma garantiu que ligava o nome à pessoa. Quem passa lá, pode ainda ver a gravata vermelha balançando ao vento. Mas uma pesquisa feita em 2015, pela Belotur, indicou o diplomata e advogado José Sette Câmara (1920-2002), mineiro de Alfenas, como “ocupante” do trono. A ideia de prestar a homenagem Sette Câmara, na Praça Afonso Arinos, foi efetivada pela da Lei 812, de 9 de dezembro de 1959. “Sem placa, como vamos saber?”, diz um homem que passa apressado.

Já na recém-restaurada Praça da Liberdade, na Centro-Sul, está de volta a placa identificando o imperador Pedro II. O material desapareceu em setembro de 2010, conforme denunciou o Estado de Minas após comunicado da Associação dos Amigos da Praça da Liberdade (Apraliber). Sem cerimônia, os vândalos levaram até mesmo “as porcas dos parafusos que sustentavam o bronze, deixando só a marca do metal”, conforme representantes da entidade. Na verdade, o ato de arrancar o material se repetia pela segunda vez. Na primeira, foi deixado na grama da praça tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha).

Também na Praça Hugo Werneck, entre as avenidas Alfredo Balena e Francisco Sales, na Região Hospitalar, foram recolocados o nome e outras informações sobre o médico Hugo Werneck (1878-1935), natural do Rio de Janeiro (RJ) e um dos fundadores da Santa Casa de Belo Horizonte. Em agosto de 2015, quando o EM mostrou o descuido com os monumentos, a Belotur listou mais de 50 peças em bronze de figuras ilustres, além de dezenas de esculturas, monumentos, obeliscos e outras homenagens cidade afora. O monumento foi erguido em 19 de março de 1940 por iniciativa do Sindicato dos Médicos de BH.

 

 

Homenagens de BH


1923
Em 14 de agosto, é erguido, no Bairro Santa Efigênia (Região Hospital), em Belo Horizonte, o busto em homenagem ao médico Cícero Ferreira, por iniciativa dos estudantes de medicina

1940
» Em 19 de março, é inaugurado o busto em bronze do médico Hugo Werneck, numa homenagem do Sindicato dos Médicos de Belo Horizonte a um dos fundadores da Santa Casa

1942
» Em 22 de novembro, é inaugurado o busto do industrial Victório Marçolla. Hoje a peça está no canteiro central da Avenida Afonso Pena, entre a Avenida Getúlio Vargas e Rua Professor Moraes

1959
» Em 22 de abril, é inaugurado, no Centro de BH, o busto do ex-governador de Minas Augusto de Lima, em comemoração ao seu centenário de nascimento

1959

» Em 9 de dezembro, é sancionada a Lei 812/59, para homenagear o diplomata e advogado José Rodrigues Sette Câmara com um busto na Praça Afonso Arinos

 

Antes...

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 28/11/2012)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 28/11/2012)

Em agosto de 2010, foi furtada a placa de bronze, medindo 60cm de altura x 40cm de largura, do monumento em honra ao imperador dom Pedro II. Os vândalos levaram até mesmo “as porcas dos parafusos que sustentavam o bronze, deixando só a marca do metal”, conforme moradores. O material já havia sido arrancado antes. Na primeira vez, foi deixado na grama


...depois

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Pres)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Pres)

Quem passa pela Praça da Liberdade, aberta ao público desde o início de dezembro, já pode ver a identificação do imperador dom Pedro II. A peça fica mais próxima do Palácio da Liberdade, perto da fonte das ninfas. Na tarde de ontem, enquanto operários retiravam a decoração de Natal, algumas pessoas chegavam mais perto do monumento a fim de contemplar o busto em bronze.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade