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Estado de Minas

Quilombo em Belo Horizonte vira patrimônio imaterial

Conselho reconhece quilombo da Região Leste de BH como patrimônio cultural imaterial e define ações para conservar projetos do arquiteto Oscar Niemeyer em 17 cidades de Minas


postado em 25/10/2018 06:00 / atualizado em 25/10/2018 07:59

Makota Cássia, do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango (ao microfone), destacou a importância do título: 'Está sendo preservado um berço da nossa história' (foto: Iepha/Divulgação)
Makota Cássia, do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango (ao microfone), destacou a importância do título: 'Está sendo preservado um berço da nossa história' (foto: Iepha/Divulgação)


Dois tempos de Belo Horizonte destacados como riquezas de Minas. O Conselho Estadual de Patrimônio Cultural (Conep) reconheceu, ontem, por unanimidade, como patrimônio cultural imaterial, o quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, no Bairro Santa Efigênia, na Região Leste, com território original até o município vizinho de Santa Luzia. Já para o inventário arquitetônico de Oscar Niemeyer (1907-2012) – no total, 62 projetos em 17 cidades mineiras, a maior parte na capital –, foram apresentadas 14 ações para preservação. Como primeiras decisões, está a abertura de processo de tombamento do Colégio Estadual Central e envio do inventário, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), às prefeituras com obras de Niemeyer.


A reunião do Conep, realizada à tarde na sede do Iepha, na Região Centro-Sul da capital, teve momentos de muita emoção, já que participaram representantes do Manzo Ngunzo Kaiango – no dialeto africano bantu, quer dizer “a casa da força de Iansã”. Em 13 de dezembro do ano passado, junto com as comunidades de Mangueiras, no Bairro Aarão Reis, na Região Nordeste, e a dos Luízes, no Bairro Grajaú, na Oeste, o quilombo Manzo Ngunzo Kaiango foi destacado como Patrimônio Cultural do Município, pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de BH.


Declarando-se “muito feliz” com o reconhecimento pelo estado, Makota Cássia, da liderança do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango afirmou que o título valoriza a cultura e a resistência de um povo. “Está sendo preservado um berço da nossa história”, disse. Ela explicou que, mais do que um reconhecimento, trata-se de uma “reparação”, pois os negros, desde o início da escravidão no Brasil, sofreram não só “torturas” como também violação. O território original do quilombo, por exemplo, passava pela Região de Venda Nova e chegava a Santa Luzia, estando restrito hoje ao Bairro Santa Efigênia.


A comunidade composta atualmente por nove famílias foi fundada na década de 1970, por Mãe Efigênia, descendente de indígenas e africanos que foram escravizados, no Morro da Queimada, em Ouro Preto – em 1955, migrou para BH. Se considerado o território original, são 23 núcleos familiares. A expectativa é de que, no mês que vem, quando se comemora o Dia da Consciência Negra (dia 20, em homenagem a Zumbi dos Palmares) haja uma festa para comemorar. “Vamos esperar a publicação oficial para celebrar”, contou Makota Cássia. E adiantou que, no Centro Cultural Lagoa do Nado, em BH, também em novembro, haverá a exposição Tem quilombo na cidade.


Para a presidente do Iepha, Michele Arroyo, o reconhecimento da comunidade como patrimônio de Minas “reafirma o compromisso do instituto e das políticas públicas culturais com a valorização e salvaguarda afro-brasileira como cultura de resistência e fundamental para a compreensão de toda as manifestações em Minas”. E mais: “O dossiê de registro do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango no âmbito estadual reforça olhares e histórias não contadas, mas que resistiram ao longo dos séculos e que nos permitem compreender o estado na sua diversidade e pluralidade”.

Batizado com o nome do arquiteto, edifício erguido na década de 1950, na Praça da Liberdade, é um dos 62 projetos de Oscar Niemeyer em Minas Gerais(foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
Batizado com o nome do arquiteto, edifício erguido na década de 1950, na Praça da Liberdade, é um dos 62 projetos de Oscar Niemeyer em Minas Gerais (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


NIEMEYER Entre os trabalhos mais importantes de Niemeyer em BH, está o conjunto moderno da Pampulha, que, junto com o espelho d’água, ganhou o título de Paisagem e Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco). Vale destacar também a Catedral Cristo Rei, em construção na Região Norte, e a Cidade Administrativa, no Bairro Serra Verde, em Venda Nova. Atualmente fechada para obras, a Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul, tem como destaque, em meio a construções de vários estilos arquitetônicos, o Edifício Niemeyer, erguido na década de 1950. Tombado como patrimônio histórico nas esferas municipal, estadual e federal, o prédio foi construído no início dos anos 1950, depois da entrega à cidade do complexo da Pampulha.


Nas páginas do seu livro As curvas do tempo: memórias, de 1998, Niemeyer escreveu que a Pampulha significou um despertar na sua carreira, servindo de referência até para o projeto de Brasília, inaugurada em 1960 e fruto da sua parceria com o urbanista Lúcio Costa (1902–1998). Enquanto o mundo ainda valorizava o ângulo reto, a Pampulha explodia em curvas. Com efeito, vai ficar na história uma das frases de Niemeyer que resumem esse pensamento: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual”.


Do conjunto moderno, fazem parte a Igreja de São Francisco de Assis, o Museu de Arte da Pampulha (MAP), o Iate Tênis Clube e a Casa do Baile, atual Centro de Referência em Urbanismo, Arquitetura e Design de Belo Horizonte e o Iate Tênis Clube, todos construídos entre 1942 e 1943 com projeto de Niemeyer (1907-2012). Em Minas, há obras em Betim, Caratinga, Cataguases, Conceição do Mato Dentro, Ipatinga, Juiz de Fora, Montes Claros, Poços de Caldas, Ritápolis, Sete Lagoas, Uberaba, Uberlândia, Arinos, entre outros.


A história vai mais além, começa na década de 1930, com a construção da barragem da Pampulha para abastecimento de água da população, na administração do prefeito Otacílio Negrão de Lima (1897-1960), que pôs em prática o projeto do engenheiro Henrique de Novaes. Dez anos depois, quando assumiu a prefeitura, o prefeito Juscelino Kubitschek (1902-1976) decidiu ampliar a área da represa e fez um concurso para a construção de um cassino, porém não ficou satisfeito com o resultado. Pediu então opinião a Gustavo Capanema (1900-1985), ministro da Educação do governo Getúlio Vargas, que o apresentou ao jovem arquiteto Niemeyer.

Patrimônio imaterial

O quilombo Manzo Ngunzo Kaiango é o sexto bem reconhecido como patrimônio imaterial de Minas e se junta ao modo artesanal de fazer o queijo da Região do Serro (2002), à Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Chapada do Norte (2013), à Comunidade dos Arturos (2014), às Folias de Minas (2017) e às Violas (2018). O inventário das obras de Niemeyer é o segundo realizado pelo Iepha. A região do Rio São Francisco foi inventariada em 2015.

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