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Estado de Minas

Imagem de Santo Onofre vira símbolo de campanha para resgatar bens culturais de Minas

Peça do século 18, foi furtada há 24 anos de museu em Oliveira e devolvida ao Iphan em São Paulo. Autoridades procuram 734 objetos


postado em 22/10/2018 06:00 / atualizado em 22/10/2018 07:31

Peça foi restituída de forma anônima na superintendência paulista do Iphan, protegida por plástico bolha(foto: Sidney Lopes/EM/DA Press)
Peça foi restituída de forma anônima na superintendência paulista do Iphan, protegida por plástico bolha (foto: Sidney Lopes/EM/DA Press)


Minas terá uma nova etapa da campanha de resgate dos bens culturais desaparecidos e, desta vez, o símbolo será a imagem de Santo Onofre, peça do século 18 furtada há 24 anos do Museu Diocesano Dom José Medeiros Leite, de Oliveira, na Região Centro-Oeste, e devolvida espontaneamente em agosto, em São Paulo. A proposta é da superintendente em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Célia Corsino, que conversou a respeito do assunto com o bispo diocesano de Oliveira, dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro, e também com o secretário de estado da Cultura, Angelo Oswaldo.


A ideia é expor a partir da próxima semana a peça sacra de madeira, com 15,5 centímetros de altura, no Museu Mineiro, vinculado à Superintendência de Museus e Artes Visuais (Sumav) da Secretaria de Estado da Cultura e integrante do Circuito Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A peça deverá ficar em uma vitrine, para ser contemplada pelos visitantes. “Será algo bem singelo. O Museu Mineiro foi escolhido devido às importantes coleções que guarda”, afirma Célia Corsino, que também conversou sobre o assunto com a superintendente da Sumav, Andréa de Magalhães Matos.

O maior objetivo da exposição, destaca Célia, é sensibilizar as pessoas para que devolvam ou deem informações sobre imagens, retábulos, castiçais, sinos e outras peças pertencentes a igrejas, capelas, museus e prédios públicos mineiros, que foram furtados ou desapareceram em outras situações. De Oliveira, por telefone, dom Miguel Ângelo disse aprovar a iniciativa, pela visibilidade que terá, e diz que a atitude de quem devolveu é “elogiável”. O fato de a peça devolvida tornar-se símbolo de nova etapa da campanha de resgate do patrimônio poderá ajudar em outra frente: a reabertura do Museu Diocesano Dom José Medeiros Leite, fechado desde o furto de 36 peças em 24 de julho de 1994 – incluindo a imagem de Santo Onofre. “Eram 36 peças, todas sumiram”, disse o bispo, adiantando que o equipamento cultural poderá ficar em um espaço da Cúria.

Para compor o acervo, a diocese colocará em exposição outras peças do seu patrimônio. “Esperamos que Santo Onofre ajude Minas a recuperar seus bens. Permita Deus”, afirmou dom Miguel Ângelo. O secretário Angelo Oswaldo também está confiante e dá total apoio à proposta da superintendente do Iphan. “A campanha terá um protetor especial, Santo Onofre”, disse o secretário, lembrando que, pela fé popular, o santo socorre as pessoas e as ajuda a encontrar objetos perdidos. “Esperamos que, agora, ajude na recuperação do patrimônio de Minas.”

Técnicos da instituição constataram que ela não havia sido danificada(foto: Sidney Lopes/EM/DA Press)
Técnicos da instituição constataram que ela não havia sido danificada (foto: Sidney Lopes/EM/DA Press)


MARCO SAGRADO A devolução da imagem de Santo Onofre em São Paulo e exposição em Belo Horizonte ganha contornos mais amplos, já que Minas lembra, em 2018, os 15 anos da grande campanha para resgate das peças sacras desaparecidas de igrejas, capelas e museus, ficando como marco os “Anjos de Santa Luzia”, retirados por ordem judicial de um leilão no Rio de Janeiro (RJ) após denúncia do Estado de Minas.


As autoridades mineira ainda procuram 734 peças desaparecidas. Na lista, com objetos sumidos desde 1848, há muitas atribuídas a Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), o “mestre do barroco”, cujos 280 anos de nascimento são lembrados este ano. No período de campanha, foram encontradas e devolvidas 269 peças e aguardam decisão judicial mais de 250, fruto de apreensões do Ministério Público, polícias Federal, Militar e Civil ou entregues espontaneamente.
Conforme declarou ao Estado de Minas a titular da Coordenadora das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico/Ministério Público de Minas Gerais (CPPC/MPMG), Giselle Ribeiro de Oliveira, o MP trabalha para devolver as peças a seus lugares de origem. “Não há alegria maior, pois os moradores nunca perdem a esperança de rever seus objetos de devoção”, resume.

RETORNO A imagem de Santo Onofre, por enquanto, está na superintendência do Iphan, a Casa do Conde, no conjunto da Praça Rui Barbosa (Estação), em Belo Horizonte. Ao apresentar a peça, o restaurador André Luís de Andrade disse que ela não mostra danos que exijam intervenção antes de ser exposta ou devolvida à diocese de Oliveira. Junto com a imagem entregue ao porteiro da superintendência paulista do Iphan, a pessoa não identificada deixou um bilhete em papel branco, apenas com a palavras “Igreja de Oliveira M.G.”, escritas em azul. Por medida de segurança, um funcionário da instituição em São Paulo esteve em BH para trazer a relíquia no dia 11.
A identificação da peça se tornou possível graças ao blog patrimoniocultural.blog.br, da CPPC/MPMG, que mantém um banco de dados atualizado constantemente e disponível à população. Na busca no endereço eletrônico, a equipe do Iphan, na capital paulista, encontrou informações necessárias para fazer sua parte. De acordo com informações do instituto, a imagem foi entregue enrolada em plástico bolha, dentro de uma sacola de papel. 

FAÇA CONTATO 
Qualquer informação sobre as peças desaparecidas deve ser comunicada aos órgãos competentes. Veja como fazer: Ministério Público de Minas Gerais, via Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico (CPPC) – Pelo telefone (31) 3250-4620 ou pelo e-mail seccultural@pmmg.mp.br ou carta para Rua Timbiras, 2.941, Bairro Barro Preto, Belo Horizonte, CEP 30.140-062. Iphan – Pelos telefones (31) 3222-2440 / (61) 2024-6342 / (61) 2024-6355 / (61) 2024-6370 ou pelos e-mails depam@iphan.gov.br, cgbm@iphan.gov.br ou faleconosco@iphan.gov.br Iepha – Pelos telefones (31) 3235-2812 e  (31) 3235-2813 ou no  site www.iepha.mg.gov.br

Ermitad


Patrono da cidade de Munique, na Alemanha, do Principado de Mônaco, dos tecelões e de quem busca a casa própria, Santo Onofre tem seu dia comemorado em 12 de junho. Nascido no século 3, em terras da atual Etiópia, na África, é considerado também “santo forte” para quem quer abandonar o vício do álcool. Segundo a tradição, seu pai, um príncipe egípcio, jogou-o nas chamas, quando ele era criança, para comprovar se se tratava de um filho bastardo. O Livro dos Santos, de Noemí Marcos Alba, conta que “Deus não quis que sofresse dano algum, e as chamas não lhe causaram nada”. Criado num mosteiro, Onofre, ao atingir a idade adulta, renunciou a seus direitos de príncipe: “Na Capadócia, atual Turquia, encontrou uma cova e nela viveu por 60 anos”. Durante as meditações, o ermitão se alimentava de tâmaras e água. Teve um discípulo chamado Pafúncio que, em sua última visita, encontrou o ermitão muito enfermo e agonizante. “Chegou a tempo de lhe dar a eucaristia e permaneceu a seu lado até o momento da morte.” Anos mais tarde, Pafúncio teria escrito a biografia de Onofre, que é representado como um “ancião com barba e longos cabelos, corpo muito delgado, sem roupa e afastado do mundo”.

Devoluções espontâneas


As autoridades mineiras registram outras entregas voluntárias de bens culturais, religiosos ou não. Conheça algumas:

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 6/5/15)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 6/5/15)
» Em maio de 2015, uma peça em madeira pertencente ao Palacete Dantas, na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, foi devolvida de forma espontânea ao Ministério Público de Minas Gerais e entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG), órgão estadual responsável pelo tombamento do espaço público em 1977 e gestor do Circuito Cultural da praça.

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 21/11/14)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 21/11/14)
» Em novembro de 2014, um colecionador, de nome não divulgado, levou à sede da Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico (CPPC), em BH, em um caminhão, quatro peças de ferro que ficavam na torre esquerda da Fazenda da Jaguara, em Matozinhos, na Grande BH – cruz, haste de sustentação com sete metros de comprimento, galo e esfera armilar, com o sinal do poder da Coroa portuguesa. Já em madeira, foram restituídos dois óculos frontais (aberturas na parede para entrada de ar e luz).

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 21/11/14)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 21/11/14)
» Pouco depois, também em 2014, outro colecionador, cujo nome não foi divulgado, surpreendeu a equipe da CPPC ao entregar um conjunto de portas frontais, com duas bandeiras e duas partes superiores (sobrebandeiras) de madeira e o conjunto de portas laterais da mesma Fazenda da Jaguara

(foto: Euler Junior/EM/DA Press - 2/3/15)
(foto: Euler Junior/EM/DA Press - 2/3/15)
» Em fevereiro de 2006 foi devolvida à CPPC/MPMG a imagem de Nossa Senhora do Rosário, do século 18, de madeira policromada. Muito degradada, a peça foi depois restaurada

(foto: Auremar de Castro/EM - 3/1/05)
(foto: Auremar de Castro/EM - 3/1/05)
» Em janeiro de 2005, houve umas mais surpreendentes devoluções: uma imagem de São Sebastião e três crucifixos do século 18, roubados havia mais de 50 anos, foram restituídos à Igreja Matriz de São José da Lagoa, depois de uma confissão. As peças foram entregues embrulhadas e teriam passado por uma restauração precária. O nome da pessoa que devolveu as peças não foi revelado, já que é segredo protegido pela confissão

(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 5/9/05)
(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 5/9/05)
» Em março de 2004 foi devolvida, em São Paulo (SP), enrolada num cobertor, a imagem de São Vicente Ferrer, do século 19, também acompanhada de um bilhete. Desaparecida havia 10 anos, ela voltou para o Museu Regional do Sul de Minas, no município de Campanha.

 

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