Publicidade

Estado de Minas

Ouro Preto inicia série de ações de segurança contra incêndios

Enquanto o Museu Nacional passa por obras de escoramento, primeira cidade brasileira reconhecida como patrimônio da humanidade começa ações de prevenção


postado em 02/10/2018 06:00 / atualizado em 02/10/2018 08:42

O casario de Ouro Preto começou ontem a ser vistoriado por força-tarefa, para garantir a proteção do patrimônio. Hidrantes ganham atenção especial(foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 16/03/2018)
O casario de Ouro Preto começou ontem a ser vistoriado por força-tarefa, para garantir a proteção do patrimônio. Hidrantes ganham atenção especial (foto: Beto Novaes/EM/DA Press - 16/03/2018)
 

Primeira cidade brasileira a receber o título de patrimônio da humanidade (1980), Ouro Preto, na Região Central, dá a largada nas ações efetivas de combate a incêndios em igrejas, prédios públicos, casarões e outros monumentos dos séculos 18, 19 e início do 20. Ontem, começou no Centro Histórico e distritos uma operação pente-fino a fim de verificar se há autorização – Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) – para funcionamento de estabelecimentos comerciais, realização de eventos e outros. Ao mesmo tempo, o Serviço Municipal de Águas e Esgotos voltará as atenções para os hidrantes, adianta o secretário de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira. Segundo ele, as repúblicas de estudantes de Ouro Preto já contam com  o AVCB. O trabalho de fiscalização ocorre como consequência do incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), que completa um mês hoje.

Na sexta-feira, o Ministério Público de Minas Gerais, tendo à frente o promotor de Justiça da comarca de Ouro Preto, Domingos Ventura de Miranda Júnior, formou uma força-tarefa para trabalhar na prevenção de incêndios no município, com participação de representantes da Arquidiocese de Mariana, à qual Ouro Preto está vinculado, Corpo de Bombeiros, Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Museu da Inconfidência/Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e prefeitura local. No foco, estão os 13 museus, que se dividem entre federais, estaduais, municipais, da Igreja ou particulares. O temor das autoridades é de que o fogo destrua tesouros como os do Museu Nacional, que pode ter perdido o fóssil de Luzia, considerada a primeira mulher do Brasil, descoberto em 1974 na Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

“Ouro Preto vive uma situação de fragilidade. Como há muitas casas geminadas no Centro Histórico, o perigo de o fogo se alastrar e atingir museus e igrejas é imenso. Portanto, é necessária a união de esforços, um alinhamento na atuação das instituições e apresentação de projetos e cronograma de execução”, explicou o promotor de Justiça, após a reunião de mais de quatro horas. Um dos pontos destacados se refere aos hidrantes. “Esse é um ponto fundamental e é preciso melhorar a rede, identificando equipamentos que não funcionam e áreas descobertas”, disse Domingos, adiantando que são necessários aportes financeiros para evitar falhas e aumentar a frota de viaturas dos bombeiros e o prédio ocupado pelo batalhão, perto do Centro Histórico. As fontes poderão vir de compensações ambientais e de um fundo municipal.

Sobre o aniversário de um mês do incêndio no Rio, Domingos diz que, infelizmente, no Brasil se aprende com a tragédia. “O mais importante é que o processo burocrático não atrapalhe as ações de prevenção e combate”, disse. Logo após o incêndio, o governo de Minas, em parceria com outros órgãos e Corpo de Bombeiros, formou uma força-tarefa para fiscalizar os museus do estado. Em nota, os bombeiros informam que o serviço ainda está em execução na capital e no interior, pois o prazo é de 60 dias. “Ao final, teremos um levantamento real da situação dos museus em todo o estado”, diz a assessoria do comando. 

(foto: Tatiele Silva/Semae Ouro Preto/Divulgação )
(foto: Tatiele Silva/Semae Ouro Preto/Divulgação )
ESCOMBROS Segundo a assessoria do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não há previsão de atos públicos para hoje no local. A informação também é que, no momento, estão sendo feitas obras de escoramento, cobertura, instalação de andaimes e outros no prédio, com recursos de R$ 8,9 milhões do governo federal – uma próxima etapa deverá consumir R$ 50 milhões. O prazo para término desse serviço e retirada do acervo que está nos escombros é de 180 dias contados desde a segunda-feira da semana passada. As obras serão feitas pela Concrejato Engenharia, empresa que participou da reconstrução do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que também sofreu um incêndio. A empresa foi escolhida por chamada pública.

Além dessa primeira etapa de intervenções emergenciais, estão previstas outras três na reconstrução do Museu Nacional, incluindo a possibilidade de cessão de um terreno próximo ao local para que as atividades acadêmicas sejam mantidas. A segunda etapa depende da conclusão da perícia da Polícia Federal no local. Depois de realizada, será contratado um projeto básico e, com base nele, será implementado o projeto executivo da reconstrução do museu. A terceira etapa é a da reconstrução. A ideia é mobilizar recursos por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida como Lei Rouanet. A quarta fase poderá ocorrer em paralelo com a obra de construção. É a de recomposição do acervo. O governo pretende fazer uma campanha internacional para a doação e aquisição de acervos para o Museu Nacional.

O Museu Nacional tinha um acervo de cerca de 20 milhões de itens, mas até agora nada foi retirado. E também não se sabe o quanto foi perdido de fato, incluindo o crânio de Luzia. “Alguns fragmentos foram achados, mas não se sabe se são de Luzia. Da mesma forma, já se tem conhecimento de que a fachada não tem risco de desmoronar”, disse uma assessora, lembrando que uma equipe da Organização das Nações Unidas para a Educação, Saúde e Cultura(Unesco) já visitou o local. Sobre a Luzia, o dado mais recente é que, a partir da tomografia e posterior digitalização em 3D do crânio foi possível reproduzir o fóssil, assim como de outros 300 anteriormente escaneados. O trabalho foi feito pela equipe do Instituto Nacional de Tecnologia.

Entre o material que pode estar perdido nas cinzas do museu estão também coleções da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições. Numa via de mão dupla, a PUC Minas poderá fazer cópias de exemplares da megafauna, que tiveram os originais do Museu Nacional como referência, numa forma de ajudar o equipamento cultural e científico a recompor, no futuro, seu precioso patrimônio de 200 anos.

Incendiado em 2 de setembro, o Museu Nacional será reconstruído em quatro etapas e já se sabe que a fachada não corre risco de desabar(foto: Tânia Rego/Agência Brasil - )
Incendiado em 2 de setembro, o Museu Nacional será reconstruído em quatro etapas e já se sabe que a fachada não corre risco de desabar (foto: Tânia Rego/Agência Brasil - )


Rede de prevenção e proteção em Minas


As ações em Ouro Preto vão envolver treinamento – inicialmente serão 10 funcionários da arquidiocese, que trabalham na cidade – e verificação de projetos referentes à parte elétrica dos monumentos. A etapa é fruto da iniciativa da superintendência em Minas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que pretende criar brigadas nas cidades mineiras com sítios históricos reconhecidos como patrimônios da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As ações vão se espelhar num trabalho desenvolvido em Belo Horizonte, que tem a Pampulha nesse seleto grupo, numa parceria da prefeitura com os bombeiros. Os outros locais são, além de Ouro Preto, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e o Santuário Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, na Região Central.

Conforme disse ao Estado de Minas a superintendente do Iphan, Célia Corsino, trata-se de uma “rede de prevenção e proteção” entre as quatro cidades, com ajuda mútua e troca de experiências. “Vamos treinar brigadistas para tomar providências ao menor sinal de fogo, Queremos reunir não apenas funcionários de museus, mas também de arquivos e outros edifícios públicos, zeladores de igrejas e de capelas e outros interessados da sociedade civil.” A expectativa é de que dezenas de pessoas recebam treinamento até o fim do ano, ficando capacitadas a tomar providências caso o pior aconteça. Na prevenção, a Prefeitura de Diamantina está em negociação com o grupo especializado Ignis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para a elaboração de diagnóstico e projetos para proteção dos bens tombados do Centro Histórico.

Um avanço para as autoridades está na Portaria 366/2018, em âmbito nacional, divulgada na semana do incêndio do Museu Nacional e que busca “compatibilizar as normas do Corpo de Bombeiros com o que pode ser feito em prédios tombados”. Trata-se de uma forma de garantir mais agilidade na aprovação de projetos, e a explicação técnica é a seguinte: Até então, o Iphan só havia realizado ações pontuais, como a produção de cartilhas sobre combate e prevenção de riscos ao patrimônio cultural. “Dessa forma, a nova portaria conseguiu compatibilizar as exigências para a segurança, prevenção e combate a incêndios com o mínimo impacto sobre os elementos arquitetônicos e artísticos das edificações protegidas pelo Instituto”, diz uma nota da autarquia federal. (GW)

 

 

Museu reabre em Itabira

(foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS - 17/11/16)
(foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS - 17/11/16)

Depois de quase 10 anos fechado, o Museu de Itabira foi reaberto ao público no sábado, com exposição sobre a artista Elke Maravilha (1945-2016), palestra e música. De acordo com a prefeitura local, a solenidade de reinauguração marcou um importante momento para a cultura e o turismo de Itabira, já que o prédio do início do século 19 se confunde com a história da cidade, pois ficava ali a primeira sede da Câmara Municipal. Em 1971, o sobrado passou a sediar o Arquivo Público Municipal – e se tornou um elemento importante na preservação da identidade itabirana. A mostra sobre Elke, nascida na Rússia e que, ainda criança, chegou ao Brasil para morar com a família em um sítio em Ipoema, distrito de Itabira, inclui roupas, calçados e acessórios (alguns deles confeccionados por ela). O museu fica na Avenida Carlos Drummond de Andrade, 666, no Centro.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade