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Estado de Minas

Novos aplicativos de transporte prometem aumentar segurança para mulheres

Mesmo com custo mais alto, apps destinados exclusivamente ao público feminino ganham espaço em BH. Em cinco meses, denúncias por importunação ofensiva ao pudor na capital mineira cresceram 75%


postado em 16/08/2018 06:00 / atualizado em 16/08/2018 07:32

A motorista Cláudia Bartolomeu viu no novo aplicativo uma chance de elevar a renda(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)
A motorista Cláudia Bartolomeu viu no novo aplicativo uma chance de elevar a renda (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)
Enquanto casos de desrespeito, assédio e até estupro contra passageiras no transporte particular continuam a ser denunciados, novos aplicativos prometem proteger as mulheres de atitudes machistas que parecem estar longe do fim.

Segundo o Observatório de Segurança Pública Cidadã, da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), 95 mulheres denunciaram importunação ofensiva ao pudor (assédio) de janeiro a maio em Belo Horizonte, contra 54 em igual período do ano anterior. Em 2017 inteiro, foram 165 registros. Nesse cenário, dois novos aplicativos de transporte foram lançados apenas com motoristas do sexo feminino para atender exclusivamente às chamadas feitas por outras mulheres. Apesar de alguns problemas — como a demora para o atendimento da corrida e preços um pouco mais altos que os dos concorrentes —, os apps apontam para uma demanda crescente em Belo Horizonte. Enquanto isso, outras empresas do ramo aperfeiçoam e reforçam ferramentas de segurança para os usuários.


Ganhou repercussão nacional há quase um ano o caso da escritora gaúcha Clara Averbuck, que escreveu um relato em sua página no Facebook no qual denunciou ter sido estuprada por um motorista do Uber em São Paulo. O depoimento viralizou e trouxe à tona o problema no transporte individual. Com as hashtags #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador,  houve uma série de relatos de mulheres sobre episódios de assédio sexual dentro dos carros. E foi nesse cenário que os apps exclusivos para mulheres cresceram, favorecendo tanto as passageiras quanto as motoristas.

“Vimos um grande potencial de fomentar o empreendedorismo de mulheres, colaborando para a igualdade de gênero, além de proporcionar novas oportunidades aliando a segurança, a independência financeira e, consequentemente, fortalecendo essas mulheres”, explicou Gabrielle Jaquier, diretora de marketing e operações da Venuxx. O app chegou a BH em abril, mas está se popularizando aos poucos entre as mulheres. As regras de utilização da Venuxx são as seguintes: meninos de até 12 anos podem usar o serviço, de 13 a 16 anos só podem usar acompanhados de uma mulher solicitante. Homens acima de 16 não podem utilizar o sistema nem mesmo na companhia de uma mulher.

Do ponto de vista das usuárias, os novos sistemas prometem segurança, confiança e comodidade. A analista de inovação Ivy Cristiny Nunes Bruno, de 23 anos, baixou o Venuxx há três semanas. “O que me levou a baixar foi uma série de problemas com outros aplicativos. Questões diversas como motoristas inconvenientes e cobranças indevidas da tarifa. Sempre me senti insegura com motoristas homens”, contou. Apesar de nunca ter sofrido nenhuma violência sexual no carro, ela conta que certos comentários geraram incômodo. “Já tive experiências péssimas como, por exemplo, o dia em que eu estava no carro com minhas amigas comentando que achávamos ótimo poder não usar salto alto. Logo o motorista nos interrompeu para dizer: ‘Mulher tem, sim, que usar salto alto’. Não acreditei no que estava ouvindo”, lamentou Ivy.

Para ela, foi libertador chamar um carro dirigido por uma mulher e poder se sentar no banco da frente sem nenhuma preocupação. “Ao vê-la, senti empatia e fiquei muito à vontade”, contou a jovem. O sentimento é compartilhado por motoristas, que também se dizem aflitas ao aceitar uma corrida de um usuário masculino. “Da mesma forma que as passageiras não gostam ou não se sentem tão à vontade quando é um homem na direção, também nos sentimos mais confortáveis quando a gente está com uma passageira mulher. Infelizmente, tudo devido ao comportamento masculino, né? Se o homem soubesse se comportar melhor, talvez nem fosse necessário esse tipo de aplicativo”, opinou Cláudia Bartolomeu, de 50, administradora de empresas que trabalha como motorista do novo sistema.

Para Ivy Bruno, a grande vantagem é se deslocar em segurança e longe das manifestações machistas(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)
Para Ivy Bruno, a grande vantagem é se deslocar em segurança e longe das manifestações machistas (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)


Para as motoristas, o sistema promete além da segurança, garantia de renda e independência. Cláudia é administradora de empresas. “Tenho 28 anos de formada, pós-graduação, MBA. E, como não consigo recolocação no mercado, optei por trabalhar com aplicativo”, contou ela. Quando entra no Venuxx, a motorista fica com 75% do valor de suas corridas. Após realizar 30 corridas, passa para a categoria Gold, recebendo 80% do valor delas. Assim, consegue uma renda extra. Cláudia, que começou há um ano e quatro meses trabalhando com Uber, Cabify e 99, avalia a nova ferramenta como muito positiva. Mas considera que a demanda do app feminino não é grande o bastante para que ela atue somente com ele. Por sua vez, a diretora de marketing da Venuxx, Gabrielle Jaquier, afirma que a procura tem crescido desde abril. “A nossa base de motoristas e passageiras cresce a uma média de 40% ao mês”, contou.

Um dos veteranos do mercado é o Femitaxi – programa de táxi com motoristas femininas, que só aceita chamada feita por outras mulheres. Atuando desde janeiro de 2017 também já se expandiu no último mês. “A chegada do app à capital mineira teve o objetivo de atender a demanda das passageiras. A maioria prefere ser conduzida por profissionais do sexo feminino, segundo pesquisas nacionais divulgadas à época no mercado”, explicou o CEO e idealizador do Femitaxi, Charles Henry Calfat.

Segundo ele, em Belo Horizonte estão cadastradas no app aproximadamente 500 motoristas e cerca de 20 mil passageiras. “Atualmente, os valores estão levemente acima dos praticados pelo Uber, por exemplo. Além disso, com o lançamento do serviço de motoristas particulares, estamos praticando um valor, em média, 20% menor em relação à corrida convencional. Atualmente, o valor aplicado à corrida convencional equivale a R$ 2,35 por quilômetro, com tarifa-base de R$ 4,70 e preço mínimo de R$ 8 por corrida. Já ao novo serviço de motoristas particulares aplicamos um valor de R$ 1,99 por quilômetro, com tarifa-base de R$ 3 e preço mínimo de R$ 5.”

O app também aposta em planos para os pais em Minas Gerais com pacotes pré-pagos na categoria “Crianças desacompanhadas”, na qual passageiros com idades entre 7 e 15 anos viajam no táxi sem a presença de adultos. A funcionalidade permitirá aos responsáveis acompanhar o trajeto ao vivo, via YouTube, por meio do aparelho celular da motorista, além de fornecer em tempo real a posição exata do táxi no mapa do app. Ainda não há data para o lançamento em Minas. (Colaborou Cristiane Silva)

 

Viagem ‘acompanhada’

A Uber não tem um serviço exclusivo para mulheres, mas lançou um novo recurso para facilitar o acesso do usuário a várias ferramentas de segurança do aplicativo. A partir de agora, o símbolo de um escudo ficará disponível sobre o mapa da viagem para dar acesso a várias funções de segurança ao toque de um botão. A nova ferramenta, está disponível para todos os usuários brasileiros desde o dia 2. “Contatos de confiança” é uma nova função que permitirá aos usuários compartilhar facilmente suas viagens pelo app com contatos de sua preferência. Eles poderão salvar até cinco contatos de confiança (como amigos e familiares) para compartilhar os trajetos de suas viagens regularmente em apenas um toque. Outra novidade é a opção de ligar diretamente para a polícia em caso de emergência ou situação de risco. Ao pressionar este botão, o usuário será informado de sua localização atual e detalhes do veículo em viagem para que possa compartilhar rapidamente com as autoridades locais que operam pelo número 190.

 

NÓS TESTAMOS

Uma repórter do Estado de Minas testou o app Venuxx. A Avenida Getúlio Vargas, 225, no Bairro Funcionários, foi escolhida como origem para a viagem rumo à Avenida Olegário Maciel, 1.600, endereços na Região Centro-Sul de BH. A motorista aceitou a corrida em menos de quatro minutos. Mas o problema foi uma falha no app para identificar a posição exata da condutora enquanto a cliente a aguardava no ponto da chamada. A espera foi de 12 minutos – um pouco maior do que se o pedido fosse feito pelos aplicativos concorrentes, devido ao fato de a frota que atua no app feminino ser inferior em números. Uma mulher muito educada parou no endereço chamado. A motorista contou que trabalha com a Venuxx e com a Uber, mas prioriza chamadas das mulheres. O trajeto, de cerca de quatro quilômetros, durou 12 minutos e custou
R$ 11,53, pagos no cartão de crédito. O preço mínimo da corrida: R$ 8.

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