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Estado de Minas

Projeto garante festa a debutantes carentes e a portadoras de necessidades especiais

O baile terminou na madrugada de sexta-feira, no Bairro Jardinópolis, na Região Oeste de Belo Horizonte, fruto do projeto solidário Realizar Sonhos


postado em 10/03/2018 06:00 / atualizado em 10/03/2018 07:27

Da maquiagem ao book de fotos e ao salão, tudo foi garantido gratuitamente às 10 participantes (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Da maquiagem ao book de fotos e ao salão, tudo foi garantido gratuitamente às 10 participantes (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

As debutantes capricharam no ensaio e fizeram bonito na entrada triunfal no salão de festas. Ao som de uma música havaiana e saudações de Aloha!, o grupo de 10 esbanjou charme, distribuiu sorrisos, recebeu aplausos animados de parentes e amigos e, claro, flashes em profusão. Pela ordem, desfilaram Nicole, Letícia, Juliana, Paola, Natália Fernanda, Natália Cristina, Vanessa, Camile, Lorena e Vitória, todas com saias rodadas, motivos florais na estampa, tiaras de rosas miúdas prendendo os cabelos. Assim como uma vida nunca é igual a outra, a não ser num momento de felicidade coletiva, as jovens mostraram emoções bem particulares e atraíram todos os olhares. Amparada por um andador, Lorena surgiu confiante e, entre um passo e outro, tirava as mãos da barra e fazia movimentos com os braços no ritmo hula-hula.

O baile terminou na madrugada de ontem, no Bairro Jardinópolis, na Região Oeste de Belo Horizonte, fruto do projeto solidário Realizar Sonhos, coordenado por Audrey Elizabeth Rezende Fidélis. Para a quarta edição do evento, o terceiro no Espaço Even, também cedido generosamente, ela arregimentou grande número de amigos. “Tenho aqui, nesta noite, 100 pessoas ajudando. As meninas ganharam tudo, da maquiagem ao book de fotos. Aliás, há um fotógrafo para cada uma”, afirmou Audrey, destacando a presença de uma jovem da capital, outra de Ibirité, três de Sabará e três de Contagem, na Grande BH, e duas de Barbacena, na Região Central. Entre elas, quatro cadeirantes na mesma empolgação.

Meia hora antes de os convidados começarem a chegar, Lorena Oliveira de Paula ainda se entregava aos cuidados da equipe de maquiagem e cabelo. E não perdia tempo, registrando tudo no celular. “Estou muito feliz, é um dia especial”, contou a jovem, que alterna os movimentos numa cadeira de rodas com o andador. Acometida por um câncer na coluna, a garota toma um “montão” de remédios, conforme ressaltou, e não perde o bom humor. Aproveitou o dia de princesa, riu bastante com as amigas que a acompanhavam e concordou no momento em que uma delas alfinetou: “Lorena é assim mesmo. Quando quer, anda. Quando não quer, a gente tem que ficar empurrando a ‘folgada’”.

Juliana Pereira: 'Foi um gesto carinhoso dos organizadores'(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Juliana Pereira: 'Foi um gesto carinhoso dos organizadores' (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


ALTO ASTRAL

Tudo bem organizado, cada família com o nome da debutante à mesa, equipe de cerimonial de olho em todos os detalhes, cartazes com as fotos das meninas pelo salão e clima de alto-astral no ar. Pelo tipo de festa, a saudação havaiana Aloha! (olá, bem-vindo) caiu bem. Para Nicole Cristina Martins, de Sabará, era a realização de um sonho. “Aproveito a oportunidade, pois minha família não teria condições de fazer uma festa assim. Cheguei aqui cedo, tive um dia inesquecível.” Sentada num balanço na hora de posar para fotos, Paola Letícia Fernandes Neves, de Barbacena, encontrou na palavra gratidão a melhor forma de traduzir os sentimentos. “Fiz amigas e tenho certeza que serão para sempre”, observou a menina.

Também de Barbacena, Juliana Clara Pereira do Nascimento era o retrato da felicidade e determinação. Cadeirante, a garota, que pretende estudar medicina, gostou do ambiente, da decoração e da maquiagem. “Nada me impede de fazer o que gosto. Vou à escola sozinha e, se preciso vir à capital, para ficar na casa da minha irmã, Gisele, pego o ônibus e ela me espera na rodoviária”, disse Juliana, revelando que ficou um pouco ansiosa com os preparativos, mas depois foi se acalmando. “Sou cadeirante e não me incomodo se falarem algo sobre isso. Nunca sofri preconceito e também não vou ficar parada em casa.”

Sobre a mesa de doces, Juliana descobriu um detalhe que fez o coração bater no compasso da inclusão: uma boneca vestida com roupa de festa e na cadeira de rodas. “Achei muito bonito, um gesto carinhoso dos organizadores.” No momento da foto oficial perto da mesma mesa, a turma exibiu, em sorrisos, seus agradecimentos pela celebração e deixou apenas os olhos brilhando, sem pingar uma lágrima para não borrar a maquiagem.

Paola Fernandes ressalta gratidão: 'Fiz amigas para sempre'(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Paola Fernandes ressalta gratidão: 'Fiz amigas para sempre' (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


Uma causa, muitos padrinhos

Comerciante do setor de festas infantis, Audrey teve a ideia de promover a comemoração de debutantes em 2014, ao visitar uma família muito pobre da Vila Pinho, na Região do Barreiro: “A mãe estava grávida do décimo terceiro filho. Uma das filhas, adolescente, revelou seu sonho de debutar”. Daí em diante, ela reuniu os amigos no grande projeto denominado Doando com o coração, do qual Realizar Sonhos é um dos braços, e levou adiante seus planos, promovendo o primeiro baile no ano seguinte. As garotas estão na faixa de 15 anos, mas, para as portadoras de necessidades especiais, o céu é o limite.

“Vamos fazer mais uma edição em 9 de agosto, que já tem o nome das meninas”, adianta. Para selecionar o próximo, são abertas inscrições. A etapa seguinte é visitar cada casa a fim de conhecer a realidade. “É uma iniciativa muito séria, solidária, por isso apoio”, observa o empresário e publicitário Marcos Faria, que cedeu gratuitamente o Espaço Even pela terceira vez.

Vários momentos emocionantes marcaram a festa, que começou quinta-feira, às 21h, teve a tradicional valsa e acabou às 2h de ontem, com todo mundo se esbaldando na pista de dança ao som de funk. “Tudo na vida tem seu tempo e sua hora. Nunca imaginei que ela pudesse um dia participar de uma festa desse tipo”, disse a dona de casa Luzia das Graças, viúva, acompanhando a filha Natália Cristina Batista, moradora de Contagem e portadora de uma síndrome rara. Com 27 anos e cadeirante, ela dançou a valsa com o irmão Kennedy Argentino Batista, de 35, cuidador. “Trata-se de uma realização para nossa família, um exemplo de superação na vida e na história da Natália”, garantiu Kennedy. Com paralisia cerebral, Vanessa Lima Magalhães, de 22, de Contagem, valsou com a mãe, Maria Lúcia Pereira Lima.

Acompanhada da avó, Marina Paula da Silva, Camile Cristine de Paula, de 23, de Contagem, fez a alegria da família. “A gente não pode desvestir um santo para vestir outro. Estou muito feliz aqui”, disse a avó. Perto dali, outra turminha animada curtia a noite. Para Letícia Cristina Augusta Carneiro Rodrigues, de Sabará, uma data assim marca a vida para sempre. Vitória Cristina Almeida Ricardo, de Sabará, encontrava na expressão “Graças a Deus” um resumo de tanta felicidade.

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