Publicidade

Estado de Minas

Hospital João XXIII abre as portas ao EM e mostra protocolo para desastres

Maior referência em traumas da América Latina, Hospital de Pronto-Socorro de BH revela funcionamento do protocolo para grandes desastres, retaguarda em época de festas que envolvem multidões, estradas cheias e chuvas que podem provocar tragédias


postado em 03/01/2018 06:00 / atualizado em 03/01/2018 07:23

(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Eram 19h daquela quinta-feira, 5 de outubro, quando o helicóptero pousou trazendo a primeira criança, exatas oito horas depois do telefonema informando sobre a tragédia em uma creche em Janaúba, no Norte de Minas, e pedindo ajuda ao Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, em Belo Horizonte, para o atendimento às vítimas. Não se sabia ao certo quantas chegariam, apenas que 16 pessoas, a maioria crianças, estavam entubadas na Santa Casa de Montes Claros, e que havia pelo menos 70 feridos. Foi o bastante para soar no maior hospital de referência em trauma da América Latina o alarme que deflagrou o Plano de Atendimento a Múltiplas Vítimas, protocolo tido como o mais completo do país. Por meio dele, em questão de minutos são reorganizados espaços e equipes para acolher vítimas em caso de desastres e tragédias. De sobreaviso em época de riscos extras trazidos por comemorações com grandes públicos, como as festas de fim de ano, chuvas intensas e movimento extra nas estradas, o HPS abriu suas portas ao Estado de Minas para mostrar como esse sistema de retaguarda é posto em prática.

O plano foi elaborado em 2013 e, desde então, passa por atualizações. Já foram escritas 22 versões detalhando o passo a passo, da preparação ao atendimento. O protocolo elaborado por funcionários do pronto-socorro já foi acionado 14 vezes, a primeira delas em julho de 2014, depois da queda do viaduto Batalha dos Guararapes, na Avenida Pedro I, na Região Norte de Belo Horizonte. “O acidente foi à tarde e em 25 minutos já havíamos esvaziado o Poli (sala de politraumatismos), cujos pacientes foram acomodados nos ambulatórios. Tudo estava preparado, mas, por fim, veio apenas uma pessoa, às 20h, porque o restante foi levado para o Hospital Risoleta Neves (em Venda Nova)”, conta o médico Marcelo Lopes Ribeiro, gerente assistencial e diretor técnico do João XXIII.

A tragédia de Janaúba acabou se transformando no maior teste do protocolo de emergência. “Foram várias vítimas que chegaram ao mesmo tempo. Quando ocorreu o rompimento da barragem em Mariana (em novembro de 2015), vieram em torno de 12 vítimas para o hospital, mas de forma esparsa”, disse. Porém, na situação mais grave atendida pelo hospital, o Plano de Atendimento de Múltiplas Vítimas ainda não existia: o incêndio no Canecão Mineiro, em 2001, que matou sete pessoas e quando 250 atendimentos foram feitos na unidade.

(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)


TODOS EM ALERTA Dos 2,7 mil funcionários do João XXIII, 800 foram treinados para operar sob as condições rigorosas do protocolo de emergência. Na tragédia de Janaúba, o diretor Marcelo Lopes conta que recebeu a ligação que fez soar o alarme na unidade às 11h. Diante dos números de feridos previamente informados, autorizou imediatamente a transferência de todos os pacientes para Belo Horizonte e orientou ainda o município acionar a Força Nacional, que chegou a disponibilizar equipes médicas e aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) – que, por uma questão de logística, não chegou a decolar.

Na ocasião, foi posto em prática o último dos três níveis de acionamento, que variam de acordo com a condição e o número de pacientes. No primeiro, a resposta é dada com os meios disponíveis no hospital e não se altera o fluxo de atendimento habitual do pronto-socorro, adaptando apenas a classificação de risco de catástrofes. No segundo, já ocorre uma reorganização de funções das equipes, embora também seja mantido o fluxo e adaptada a classificação. No terceiro, além de redimensionamento de funções, há convocação de recursos externos (municipais, estaduais ou federais).

Assim, o atendimento habitual do HPS é desviado para outras unidades que tenham condições de receber os casos, garantindo prioridade às vítimas do evento de maior porte. No caso de Janaúba, foram acionados também o Pronto-Socorro Risoleta Neves, o Hospital Municipal Odilon Behrens, unidades de pronto-atendimento (UPAs) da capital, além do Hospital Infantil João Paulo II. Essas instituições de saúde disponibilizaram vagas para pacientes do próprio HPS e para aqueles da tragédia em estado  menos grave, com intuito de liberar no João XXIII leitos para os casos mais urgentes e complexos.

Ao contrário do dia e que o viaduto caiu, na ocasião da tragédia na creche a preparação foi feita com calma, uma vez que, mesmo em transporte aéreo, os primeiros pacientes demorariam a chegar, por causa dos 547 quilômetros entre a cidade do Norte de Minas e a capital. A sala de politraumatizados foi parcialmente esvaziada, com 20 dos 28 pacientes remanejados para ambulatórios. As salas de reanimação e de tomógrafo também foram preparadas.

Para atender as vítimas, quatro leitos de CTI adultos foram liberados. Uma enfermaria inteira foi adaptada para se transformar em CTI infantil, com leitos para seis crianças. Dois hospitais da Rede Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais) enviaram monitores para os equipamentos ligados aos pacientes e a Secretaria de Estado de Saúde (SES) mandou imediatamente 10 monitores novos que estavam em estoque para ser destinados a unidades de saúde do interior. Acionado o plano, todos os atendimentos programados do hospital, entre eles, cirurgias, foram suspensos.

Protocolo tem objetivo de mobilizar e preparar rapidamente as alas e profissionais do maior pronto-socorro do estado para dar resposta a catástrofes, explica o médico Marcelo Lopes Ribeiro (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
Protocolo tem objetivo de mobilizar e preparar rapidamente as alas e profissionais do maior pronto-socorro do estado para dar resposta a catástrofes, explica o médico Marcelo Lopes Ribeiro (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)

Corredor de urgência e prioridade a vítimas


Enquanto o hospital se preparava, o Corpo de Bombeiros liberou um corredor de trânsito para a passagem das ambulâncias que traziam pacientes, e, no hospital, isolou o trajeto do heliponto até a sala de politraumatismo. Oito pediatras aguardavam a chegada da primeira criança, vinda de helicóptero: o menino Gabriel Carvalho de Oliveira, de 5 anos. Em 15 minutos ele estava no bloco cirúrgico, enquanto a aeronave retornava para buscar mais vítimas.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)
“Muitos médicos apareceram aqui querendo ajudar voluntariamente, mas mediante o protocolo só atua quem é capacitado, treinado e é do hospital ou da rede Fhemig”, explica o diretor Marcelo Lopes. O João XXIII, informa, atende diariamente média de 300 pacientes, mas o hospital tem capacidade para até 400. Em situações de catástrofe, pode receber até 80 vítimas, ou seja, 20% da sua capacidade habitual e com um plano de transferência dos pacientes internados e estáveis na retaguarda.

O plano foi desativado 24 horas depois, mas com o Hospital de Pronto-Socorro de sobreaviso para continuar recebendo vítimas. Ao todo, 15 pessoas foram para o João XXIII, sendo que quatro não resistiram (uma adulta e três crianças). “No sábado (seguinte à tragédia), ao preparar o boletim médico, o primeiro nome era o do Mateus (Mateus Felipe Rocha Santos, de 5 anos, que havia sido transferido de Montes Claros naquele dia, em estado grave, e não resistiu). Lembrei quando o tiramos do helicóptero, e imaginei as crianças acuadas naquela sala em chamas. Porque criança, diferentemente do adulto, não corre se vê a porta aberta. Ela fica retraída”, conta o médico, emocionado. “O que mais nos sensibilizou não foi só o fato de serem queimados, mas de serem crianças.”

Duas pessoas continuam internadas no João XXIII: uma criança de 5 anos e uma mulher de 42. Para Marcelo Lopes, o trabalho e a resposta no atendimento em um caso como o de Janaúba atestam a capacidade do maior hospital de trauma da América latina, e são uma garantia aos pacientes de que, se todos estão sujeitos a situações de rotina que podem levar a grandes acidentes, há um gigante de prontidão para casos de emergência: “Em uma unidade deste tamanho, pode estar faltando alguma porta, itens da estrutura e do dia a dia. Mas a experiência da equipe é um diferencial. E recurso para paciente a gente não deixa faltar”.


Entenda o Plano de Atendimento a Múltiplas Vítimas

» O plano foi criado para atender situações em que se identifique a necessidade de esforços extras no Hospital João XXIII de forma ordenada e planejada

» Principais riscos: acidentes de trânsito, violência urbana, enchentes e desabamentos, acidentes químicos e biológicos, explosões de bombas e incêndios

» Em caso de catástrofe, o HPS pode receber até 80 vítimas – 20% de sua capacidade media habitual (cerca de 400 pacientes)

» O protocolo está em sua 22ª versão, e já foi acionado 14 vezes, mas a última, da tragédia de Janaúba, é considerada um dos grandes testes do plano, diante da concentração na chegada de pacientes e da gravidade dos queimados

» O plano prevê três níveis de gravidade: No primeiro, não se altera o fluxo de atendimento habitual do pronto-socorro, adaptando apenas a classificação de risco de catástrofes. No segundo, ocorre a reorganização de funções da equipe, mas também é mantido o fluxo e adaptada a classificação. No terceiro, além de redirecionamento de funções, são convocados recursos externos

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade