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Estado de Minas

Cresce a procura por teste rápido para Aids e sífilis em BH

Procura por diagnóstico rápido para doenças como Aids e sífilis explode em unidades de saúde de BH. Aumento é positivo, ao permitir tratamento precoce, mas também indica falta de prevenção


postado em 19/08/2017 00:12 / atualizado em 19/08/2017 07:25

(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Na sala de espera do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Sagrada Família, em Belo Horizonte, que faz diagnóstico e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST’s), o nervosismo está estampado no rosto de pacientes que aguardam o resultado de exames rápidos para detecção dos vírus HIV, da sífilis e das hepatites B e C. Ansiedade que tem sido cada vez mais frequente e possível de ser percebida nas unidades do Sistema Único de Saúde de Belo Horizonte (SUS-BH) que prestam esse tipo de serviço em BH, onde aumentou em 3.100% o número de testes rápidos desde 2014, quando foram feitos 287 exames, até agora. Em 2017, até a primeira semana de agosto, os números quase alcançam o total de exames feitos em 2016 – cerca de 9.200.


O avanço tem seu aspecto positivo – uma vez que a precocidade do diagnóstico garante melhor resultado do tratamento e qualidade de vida ao paciente. Mas, por outro lado, revela um problema de saúde pública: a banalização do sexo sem preservativo e também do risco de contaminação, especialmente pelo vírus HIV que transmite a Aids, doença para a qual não há cura. Em BH, cerca de 10 mil pessoas estão infectadas e, desse total, 12% não foram diagnosticadas, tampouco se tratam. A sífilis também assusta e teve crescimento de 212% entre 2013 e 2016 na população adulta, saltando de 972 para 3.033 casos. Neste ano, já são 1.782 até o último dia 18. A estatística não inclui gestantes e bebês que pegam a doença da mãe contaminada, grupo em que a curva de casos também é crescente (veja quadro).

Em BH, a aplicação dos quatro testes rápidos, feitos de uma única vez, segue a política do Ministério da Saúde, que em 2011 lançou a estratégia para gestantes, durante o pré-natal e na assistência ao parto, e para grupos vulneráveis como profissionais do sexo, usuários de álcool e drogas e a população de transgêneros. Mas, com a crescente divulgação do exame, houve uma explosão no número de testes, como explica a coordenadora de Saúde Sexual e Atenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis/AIDS e Hepatites Virais da Secretaria Municipal de Saúde, Tatiani Fereguetti. “Além da ampliação da oferta na rede, com o teste sendo feito em todos centros de saúde, as pessoas também se viram motivadas pela possibilidade de obter o diagnóstico imediato, em até 30 minutos, gratuitamente e sem necessidade de agendamento ou pedido médico”, afirma Tatiani.

Mas, para além disso, há questões multifatoriais por trás do aumento, como sustenta a coordenadora. Segundo ela, a checagem cada vez maior é um dos reflexos do não uso da camisinha, medida capaz de prevenir as IST’s. “Percebemos que há uma mudança nas formas de relacionamento, com aumento dos encontros por meio da internet e facilitados pelos aplicativos de paquera. E além de ampliada, essa rede de relacionamento tem deixado a camisinha de lado”, afirma. A falta de prevenção tem sido resultado também, segundo Tatiani, da pouca importância quanto ao perigo das doenças. Atualmente, segundo ela, o tratamento para as IST’s, especialmente a infecção por HIV tem tratamento, com uso de duas pílulas diárias, ao contrário do temido “coquetel” de medicamentos indicados na década de 1980. Na ocasião, em 1983, a Aids foi reconhecida e se alastrou como sinônimo de atestado de óbito dado às pessoas contaminadas.

REPERCUSSÃO Apesar dos avanços da medicina nas opções de tratamento, a coordenadora alerta para as implicações das doenças e da infecção por HIV. “Para sífilis e hepatite há cura. E, apesar de as pessoas com o vírus da Aids poderem passar a vida toda sem desenvolver a doença, elas têm muito mais chances de desenvolver outras enfermidades, como as cardiovasculares, além de sofrerem com envelhecimento precoce.”

Integrante da Sociedade Mineira de Infectologia, o médico Carlos Starling também alerta para esse perigo. “Pessoas que vivem com HIV têm até 10% mais chances de ter doenças como infartos e acidente vascular cerebral, por exemplo. Também podem desenvolver, muito mais que a população não infectada, diversas formas de câncer, a depender dos fatores de risco de cada um”, afirma. Ele ainda lembra dos perigos da sífilis, que se não tratada pode chegar ao seu estágio terciário, com quadros de demência, doenças cardiovasculares e até levar à morte. “Não dá para banalizar a prevenção”, afirma. O especialista ainda comenta o aumento dos testes rápidos na capital e destaca o lado positivo desse cenário. “Vemos que a oferta se ampliou, com fornecimento de testes pelos governos não só nas unidades físicas, mas também em eventos de saúde tanto da rede pública, quando da rede privada”, diz.

 

 

COMO É FEITO O diagnóstico da infecção por HIV, sífilis e hepatites B e C é feito a partir de uma gota de sangue, retirada de uma picada de agulha na ponta do dedo. Os testes rápidos que detectam os anticorpos contra os vírus apresentam resultado em até 30 minutos. Ao procurar o centro de testagem, o usuário pode solicitar um pré-aconselhamento individual e durante a entrega do resultado ele é atendido por um profissional da equipe de saúde, que orienta sobre o resultado, independentemente de ser positivo ou negativo. Trata-se de uma ação de prevenção que tem por objetivo oferecer apoio emocional ao usuário, facilitar a correta interpretação pelo paciente e esclarecer possíveis dúvidas.

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