Publicidade

Estado de Minas

Cinema no Rio São Francisco encanta população ribeirinha no Norte de Minas


postado em 19/08/2017 06:00 / atualizado em 19/08/2017 07:53

primeira parada do cinema itinerante foi na cidade de São Francisco(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
primeira parada do cinema itinerante foi na cidade de São Francisco (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
São Francisco – O lavrador João Rodrigues de Oliveira, de 37 anos, morador de São Francisco (Norte de Minas), teve uma noite diferente no seu cotidiano na última quinta-feira. Levou os dois filhos, João Rodrigues Júnior, de 10, e Janine Celi, de 8, para “conhecer cinema”. “É importante que as crianças aprendam o que é isso”, disse. O contato de adultos e crianças da cidade com a sétima arte foi possibilitado pelo projeto Cinema no Rio São Francisco, que este ano chegou a sua 12ª edição, com exibições gratuitas de filmes ao ar livre em cidades ribeirinhas, precedidas de oficinas de fotografia.

São Francisco, de 53, 8 mil habitantes, foi o ponto de partida da atual edição do projeto. Ao todo, serão percorridos seis municípios mineiros banhados pelo Velho Chico até quarta–feira, com exibição de 15 filmes: quatro longas e cinco curtas-metragens brasileiros. Além disso, o público é contemplado com seis documentários inéditos, gravados em cada uma das seis cidades do roteiro do Cinema no Rio.

Os longas exibidos este ano são A Família Dionti, O menino no espelho, Do pó da Terra e Margareth Mee e a flor da lua. Entre os cinco curtas programados, três são de animação: A fábula da corrupção, Caminho dos gigantes e Vida Maria. Os outros curtas são Pierre e a mochila e Vermelho rubro do céu da boca. Em São Francisco, a exibição ocorreu na Praça do Centenário, onde centenas de pessoas se concentraram com olhares curiosos – muitos assistiam a filmes na tela grande pela primeira vez e não pareceram se importar com um atraso motivado por problemas técnicos.

Os documentários da atual edição do projeto abordam a mulher sertaneja das cidades percorridas ao longo do Velho Chico, produzidos pelo idealizador e coordenador do projeto, o cineasta Inácio Neves, durante a fase de preparação da viagem. “Estamos valorizando a mulher ribeirinha. A proposta é retratar as dificuldades e a luta da mulher do sertão”, afirma Inácio, lembrando que a iniciativa também chama a atenção para a valorização da cultura ribeirinha e para a importância da preservação do Rio São Francisco, que sofre com a degradação ambiental.

Uma das mulheres abordadas no documentário produzido e exibido em São Francisco foi Maria Eugênia Cardoso Nascimento, de 42 anos. Casada e mãe de um filho, era professora e tornou-se coveira após ser aprovada em um concurso público. Maria Eugênia disse que se sentiu “orgulhosa” ao assistir o filme junto com centenas de conterrâneos na praça principal da cidade. “A mulher pode fazer qualquer serviço. Basta ter coragem”, ensina ela na gravação.

A mulher relata que antes do trabalho no cemitério era professora “normalista” e teve de deixar a sala de aula por causa da exigência de curso superior. Depois que passou a trabalhar no cemitério, fez curso superior de pedagogia e até pós-graduação. Mesmo assim, não quis voltar a lecionar. Ela não esconde o motivo: o salário. “Uma professora municipal ganha R$ 1,3 mil. Como coveira, ganho em torno de dois salários-mínimos (R$ 1.874,00)”, conta.

Animação Outra moradora de São Francisco que assistiu aos filmes foi a aposentada Maria Rodrigues Oliveira, de 74 anos. Ela acompanhou a “movimentação” sentada em uma cadeira, na porta de sua casa, sem tirar da mão o um terço. “Acho bom, anima o povo. Aqui não tem diversão”, disse Maria, relatando que viu filmes na “telona” há quase 50 anos, quando ainda funcionava um antigo cinema na cidade – foi fechado há mais de três décadas.

A aposentada era dona de uma antiga pensão de São Francisco e conta que, por mais de uma vez, Juscelino Kubitscheck dormiu no local após deixar a Presidência da República. “O JK saía de Brasília e vinha para esta região fazer política. Ele queria se candidato novamente, mas não deixaram”, afirmou Maria.

A dona de casa Cristiane Santos, por sua vez, teve na quinta-feira a primeira experiência de ver um filme na telona, junto com o marido, o mototaxista Silvano Alves Pereira, e as filhas Maria Julia (de 10) e Maria Eduarda (de 6). “Este dia é inesquecível”, resumiu Cristiane. Além de São Francisco, Pedras de Maria da Cruz, Januária, Itacarambi, Manga e Matias Cardoso receberão o projeto, que tem patrocínio da Oi, por intermédio da Lei Estadual de Incentivo á Cultura.

Cine Sesi também exibirá filmes em 24 municípios

Cinema gratuito com direito a pipoca e tapete vermelho no interior de Minas Gerais. Vinte e quatro cidades do estado receberão, nos próximos meses, sessões de cinema a céu aberto. Trata-se do Cine Sesi Cultural, que, em sua 10ª edição no estado, pretende levar a sétima arte para mineiros de nove regiões do estado. Com curadoria de Lina Rosa Vieira, o evento é destinado para todo tipo de público. “É um projeto para você, seja quem você for”, convida Lina. A caravana começa em 25 de agosto e vai até 12 de novembro deste ano.

Segundo a curadora, o foco do evento é que os filmes exibidos mesclem conteúdo inteligente e produção de qualidade, em uma estrutura comparada a grandes salas de exibição do Brasil. Em todas as cidades, será montada uma tela de cinco metros de altura por doze de largura. “Em Minas, a gente priorizou, também, os filmes mineiros. O estado tem uma safra muito bacana”, considera Lina.

Os longas selecionados foram A Família Dionti, o premiado Que horas ela volta e a animação norte-americana Zootopia. Curtas-metragens e oficinas também estão no roteiro do projeto, que começa por Conceição do Mato Dentro, Região Central do estado. Todas as escolhidas para esta edição serão contempladas pela primeira vez. “Minas é grande e o público mineiro muda dentro do próprio estado”, justifica a curadora.

Além de Conceição do Mato Dentro, já estão confirmadas sessões em Santa Maria de Itabira (1º a 3 de setembro), Nepomuceno (8 a 10 de setembro) e Urucânia (15 a 17 de setembro). Mais informações podem ser obtidas na página do Cine Sesi Cultural no Facebook.

Acessibilidade Todos os moradores, incluindo os que têm algum tipo de deficiência ou dificuldade de mobilidade, poderão acompanhar as sessões. De acordo com Lina Vieira, há espaços prioritários para idosos, gestantes e pessoas com algum tipo de deficiência, como previsto em lei. Lina conta que mesmo pessoas com deficiência visual ou auditiva conseguem participar. “Ou nos organizamos para contar o filme ou a gente arruma um voluntário para que faça a descrição audiovisual”, garante.

*Estagiário sob supervisão do editor André Garcia

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade