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Estado de Minas

Após 19 meses de tragédia, Mariana vai sanear rio com R$ 72 mi da Samarco

Cidade marcada pelo pior desastre socioambiental da história do país anuncia liberação de parcela inicial para limpeza e saneamento. Comunidade se mobiliza pelo resgate do Ribeirão do Carmo


postado em 31/05/2017 06:00 / atualizado em 31/05/2017 07:53

Com ajuda de 300 pessoas, entre elas muitos estudantes, margens receberam primeira ação ambiental desde o desastre da Samarco(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Com ajuda de 300 pessoas, entre elas muitos estudantes, margens receberam primeira ação ambiental desde o desastre da Samarco (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Ma­ri­a­na – Per­to de com­ple­tar um ano e se­te me­ses da mai­or tra­gé­dia so­ci­o­am­bi­en­tal do país – o rom­pi­men­to da Bar­ra­gem do Fun­dão, no dis­tri­to de Ben­to Ro­dri­gues –, a Pre­fei­tu­ra de Ma­ri­a­na, na Re­gi­ão Cen­tral do es­ta­do, tem si­nal ver­de pa­ra re­ce­bi­men­to da pri­mei­ra par­ce­la, no va­lor de R$ 18 mi­lhõ­es, do acor­do fir­ma­do com o po­der pú­bli­co e as em­pre­sas BHP Bi­lli­ton e Va­le, con­tro­la­do­ras da mi­ne­ra­do­ra Sa­mar­co, res­pon­sá­vel pe­lo em­pre­en­di­men­to que cau­sou 19 mor­tes, de­vas­ta­ção am­bi­en­tal e des­trui­ção da Ba­cia do Rio Doce. O pre­fei­to Du­ar­te Eus­tá­quio Gon­çal­ves Jú­ni­or, que re­ce­beu a in­for­ma­ção da Agên­cia Na­ci­o­nal de Águas (ANA), dis­se que os re­cur­sos se­rão re­pas­sa­dos em ju­lho e usa­dos in­te­gral­men­te em obras de sa­ne­a­men­to bá­si­co, tra­ta­men­to de re­sí­du­os só­li­dos e cap­ta­ção de água no Ri­bei­rão do Car­mo, cur­so d’água que cor­ta o mu­ni­cí­pio de 70 mil habitantes.

A Fun­da­ção Re­no­va – cri­a­da com a ta­re­fa de li­dar com os efei­tos da tra­gé­dia da Sa­mar­co, a par­tir do mes­mo acor­do en­tre go­ver­nos fe­de­ral, es­ta­du­al e mu­ni­ci­pais e as mi­ne­ra­do­ras – in­for­mou que re­cur­sos co­mo o re­pas­sa­do a Ma­ri­a­na fa­zem par­te de or­ça­men­to pa­ra co­le­ta e tra­ta­men­to de es­go­tos nos mu­ni­cí­pi­os atin­gi­dos pe­lo rom­pi­men­to da bar­ra­gem, em no­vem­bro de 2015. A dis­tri­bui­ção da ver­ba é de­fi­ni­da na Câ­ma­ra Téc­ni­ca de Se­gu­ran­ça Hí­dri­ca do Co­mi­tê In­ter­fe­de­ra­ti­vo, do qual a ANA faz parte.

O pre­fei­to Du­ar­te Jú­ni­or in­for­mou que o re­pas­se to­tal de R$ 72 mi­lhõ­es se­rá des­ti­na­do a uma sé­rie de in­ter­ven­çõ­es ao lon­go do Ri­bei­rão do Car­mo, pa­ra o qual es­coa to­do es­go­to da ci­da­de, e tam­bém de Ou­ro Pre­to, além de mui­to li­xo e ou­tros resíduos. “Fu­tu­ra­men­te, po­de­re­mos fa­zer até cap­ta­ção nes­sas águas, o que ho­je é impossível.” O che­fe do Exe­cu­ti­vo par­ti­ci­pou on­tem de ação am­bi­en­tal no mu­ni­cí­pio – a pri­mei­ra, de­pois da tra­gé­dia ocor­ri­da em 5 de no­vem­bro de 2015 –, em uma par­ce­ria en­tre po­der pú­bli­co mu­ni­ci­pal e comunidade. “No iní­cio, os re­cur­sos eram de R$ 250 mil e ho­je che­ga­ram a es­se mon­tan­te”, dis­se o pre­fei­to, res­sal­tan­do que Ma­ri­a­na e Bar­ra Lon­ga, na Zo­na da Ma­ta, fi­ca­ram com a mai­or par­te da ver­ba, que be­ne­fi­ci­a­rá ou­tros mu­ni­cí­pi­os da Ba­cia do Rio Doce.

Tam­bém on­tem o pre­fei­to in­for­mou que en­vi­a­rá à Câ­ma­ra Mu­ni­ci­pal, ain­da nes­ta se­ma­na, pro­je­to de lei que trans­for­ma em “área ur­ba­na e não mais ru­ral” o ter­re­no na lo­ca­li­da­de de La­vou­ra, es­co­lhi­do no ano pas­sa­do pe­los an­ti­gos mo­ra­do­res de Ben­to Ro­dri­gues pa­ra re­ce­ber a co­mu­ni­da­de atin­gi­da pe­lo rom­pi­men­to da Bar­ra­gem do Fundão. Du­ar­te Jú­ni­or es­cla­re­ceu que a me­di­da vai per­mi­tir o des­ma­ta­men­to da área, a fim de re­ce­ber no­vas mo­ra­di­as e de­mais ser­vi­ços que exis­ti­am no sub­dis­tri­to e fo­ram ar­ra­sa­dos pe­la la­ma de re­jei­tos de minério. De acor­do com a Fun­da­ção Re­no­va, a su­pres­são ve­ge­tal se­rá exe­cu­ta­da por uma em­pre­sa con­tra­ta­da, cu­jo no­me de­ve­rá ser co­nhe­ci­do no mês que vem, A ex­pec­ta­ti­va é de que o no­vo Ben­to Ro­dri­gues fi­que pron­to em mar­ço de 2019, in­for­mam os téc­ni­cos da Renova.
Em seus 80 anos, dona Nini lamenta a degradação: 'Jogam de tudo aqui. É uma vergonha'(foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Em seus 80 anos, dona Nini lamenta a degradação: 'Jogam de tudo aqui. É uma vergonha' (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)

MO­BI­LI­ZA­Ç­ÃO Par­te do pro­je­to mu­ni­ci­pal Mão So­li­dá­ria, que con­tem­pla di­ver­sas açõ­es pa­ra lim­pe­za, re­for­ma de qua­dras de es­por­te e ou­tras na área de saú­de, a ação am­bi­en­tal de on­tem em Ma­ri­a­na co­me­çou às 8h e reu­niu cer­ca de 300 pes­so­as, en­tre fun­ci­o­ná­ri­os da pre­fei­tu­ra, vo­lun­tá­ri­os e estudantes. De iní­cio, hou­ve pan­fle­ta­gem, com a en­tre­ga de fo­lhe­tos so­bre a im­por­tân­cia do Ri­bei­rão do Car­mo, em cu­jas mar­gens nas­ceu o pri­mei­ro po­vo­a­men­to, em 1696, com a che­ga­da de ban­dei­ran­tes pau­lis­tas a Ma­ri­a­na, que foi a pri­mei­ra vi­la, ci­da­de e di­o­ce­se de Minas.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)
No Bair­ro San­to An­tô­nio, co­nhe­ci­do co­mo Pra­i­nha, pro­fes­so­res e 120 es­tu­dan­tes da Es­co­la Mu­ni­ci­pal Wil­son Pi­men­ta Fer­rei­ra fo­ram de ca­sa em ca­sa, aler­tan­do a po­pu­la­ção so­bre a im­por­tân­cia de não jo­gar li­xo no rio. Pe­lo que se vê nas mar­gens, tra­ta-se de um tra­ba­lho de lon­go pra­zo, pois o que se vê são mui­tas gar­ra­fas PET, res­tos de pneus, uten­sí­li­os do­més­ti­cos e mui­tos ob­je­tos descartáveis. “Jo­gam de tu­do aqui. É uma vergonha. O as­seio co­me­ça den­tro da nos­sa ca­sa, co­me­ça por nós to­dos”, dis­se Me­ran­do­li­na da Fon­se­ca, co­nhe­ci­da co­mo do­na Ni­ni e cheia de vi­da aos 80 anos. Ao la­do da ir­mã Ma­ria das Gra­ças, de 68, ela con­ta que já viu de tu­do nas águas, “de ca­mas, cai­xo­tes e até fo­gão”. Na sua opi­ni­ão, “a mar­gem do ri­bei­rão pre­ci­sa de fis­ca­li­za­ção, com ur­gên­cia” e se tor­na fun­da­men­tal, ca­da vez mais, a pre­sen­ça dos jo­vens em açõ­es edu­ca­ti­vas e am­bi­en­tais co­mo as de ontem.

Ven­do a si­tu­a­ção, os es­tu­dan­tes, ten­do à fren­te a di­re­to­ra da es­co­la, Adri­a­na Ro­cha, re­co­lhe­ram ma­te­ri­al re­ci­clá­vel se­co e co­lo­ca­ram em sa­co plástico. “Pre­ci­sa­mos tra­ba­lhar jun­tos pa­ra dei­xar tu­do lim­po”, dis­se Ste­fa­ne Li­no da Sil­va Mar­tins, de 18 anos, alu­na do no­no ano. Vi­tó­ria Ga­bri­e­lli San­tos Mo­rais, de 14, alu­na do oi­ta­vo ano, tam­bém gos­tou da ex­pe­ri­ên­cia e re­ve­lou que a co­la­bo­ra­ção é o pri­mei­ro pas­so pa­ra des­po­luir o Ri­bei­rão do Carmo. A di­re­to­ra con­tou que par­ti­ci­pa­ram es­tu­dan­tes do sex­to ao no­no ano. “Fal­ta pre­ser­va­ção e ini­ci­a­ti­vas en­vol­ven­do mo­ra­do­res são im­por­tan­tes”, disse.

Às mar­gens do cur­so d’água, ela e a vi­ce-di­re­to­ra, Ân­ge­la Lo­pes, acom­pa­nha­das de um gru­po for­ma­do pe­la pe­da­go­ga Vi­vi­a­ne Fon­se­ca Ara­ú­jo e as pro­fes­so­ras Ma­ria Apa­re­ci­da Ro­sa de Sá (por­tu­guês) e Jo­vi­ta de Fá­ti­ma (ma­te­má­ti­ca), ima­gi­na­vam o fu­tu­ro da área. “Com a obra de sa­ne­a­men­to, po­de ha­ver uma pis­ta de ca­mi­nha­da, aca­de­mi­as de gi­nás­ti­ca ao ar li­vre e ou­tros ser­vi­ços pa­ra a po­pu­la­ção”, dis­se Adri­a­na Ro­cha, em sin­to­nia com as co­le­gas de trabalho.

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