Publicidade

Estado de Minas

Febre amarela provoca corrida por vacinação e estoques acabam em cidades mineiras

Suspeita de que 14 mortes foram causadas pela doença em Minas. Prefeito de Ladainha decreta calamidade. Secretaria estadual tranquiliza população


postado em 11/01/2017 06:00 / atualizado em 11/01/2017 08:09

Fila para imunização em Teófilo Otoni:
Fila para imunização em Teófilo Otoni: "Situação é grave", diz coordenador de Vigilância Sanitária da região (foto: Vinícius Rêgo Pessoa / Diário de Tófilo Otoni)

No dia seguinte à divulgação de um surto de febre amarela silvestre em várias regiões do estado, Minas encara, agora, o desafio de imunizar a população, manter disponíveis os estoques de vacina, fazer os exames laboratoriais para análise de casos suspeitos e, principalmente, proteger moradores de áreas rurais. Ontem, muitos municípios dos vales do Mucuri e do Rio Doce, no Leste, foram palco de longas filas, com pessoas de todas as idades buscando o antídoto para a doença, que, segundo dados das prefeituras e das superintendências regionais da Secretaria de Estado da Saúde, já pode ter causado 23 mortes. A corrida pela vacina ocorreu também em Belo Horizonte, onde houve procura nos centros de saúde.


Os números ainda vão demandar confirmação das autoridades estaduais, já que, oficialmente, são 23 casos suspeitos notificados e 14 óbitos. Do total de notificações, 16 são considerados pela SES como prováveis, o que significa que tiveram quadro clínico compatível com o da febre amarela e uma confirmação laboratorial. Outros sete estão em investigação. Ontem, não houve atualização de mais casos pela SES, embora alguns municípios prossigam com notificações: em Ladainha, no Vale do Mucuri, o prefeito Walid Nedir Oliveira informou que há 10 casos suspeitos, com dois óbitos confirmados.

No interior, as autoridades de saúde estão preocupadas com o avanço da febre amarela, doença infecciosa grave, de alta letalidade. O mal é causado pelo flavivírus, o qual é transmitido ao ser humano pela picada do mosquito Haemagogus. “A situação é grave, merece atenção especial, por isso é necessário intensificar a cobertura vacinal”, disse o médico-veterinário Gilberto Luiz Leonhardt, coordenador de Vigilância Sanitária da Superintendência Regional de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, que agrega 32 municípios. O coordenador prefere não falar em números de casos, já que isso muda a todo momento devido ao número de notificações.

Preocupado com a situação, o secretário municipal de Saúde de Caratinga, no Vale do Rio Doce, Giovanni Corrêa da Silva, diz que o número de casos pode ser maior do que o divulgado até agora. “Estamos na base, depois é que os dados serão filtrados pela equipe da secretaria. Até agora, temos 63 casos notificados na nossa microrregião, com suspeita de oito óbitos em Imbé de Minas, Piedade de Caratinga e Ubaporanga, incluindo a de uma adolescente praticante de ecoturismo.

Embora não haja mortes com suspeita da doença em Caratinga, o município, que faz parte da superintendência regional de Coronel Fabriciano, está na lista de casos prováveis da SES, com dois registros. Além de Caratinga, Imbé de Minas, Votuporanga e Piedade de Caratinga, estão também Inhapim (1 caso) e São Domingos das Dores (1). Já na regional de Manhumirim, com 34 municípios, na Região Leste, está o município de Ipanema, com caso suspeito e um óbito à espera de confirmação. Segundo uma funcionária, a vacinação foi intensificada. “Estamos em alerta”, afirmou.

Calamidade Moradores de Ladainha vivem com medo por causa do avanço da febre amarela na região. O prefeito decretou situação de calamidade pública na saúde devido ao número de casos da doença no município, de aproximadamente 15,3 mil habitantes. Ontem, quando novamente as vacinas acabaram, milhares de pessoas lotaram um ginásio para receber a dose, porém, muitos tiveram de voltar para casa sem a medicação.

A empresária Marília Neves recebeu a 2ª dose da vacina em BH:
A empresária Marília Neves recebeu a 2ª dose da vacina em BH: "Se não fosse isso (o surto), não lembraria" (foto: Jair Amaral/EM/D.A.Press)


No decreto, Walid afirma que a cidade e outras da região passam por um “momento de apreensão” em razão das evidências de “surto de febre amarela’. Segundo o prefeito, o documento vai ajudar nas ações previstas no município. “Conseguimos decretar estado de calamidade para ter ajuda do governo. Somente hoje uma equipe foi enviada para auxiliar em Ladainha. Nosso hospital é novo, moderno e bem equipado, mas não damos conta dos casos sozinhos”, explicou. Com o aumento de número de casos, os moradores da cidade correm atrás das vacinas. Porém, as doses acabaram pelo segundo dia consecutivo.

Ginásio vira local e imunização

“Na segunda-feira, elas acabaram. Recebemos mais 2,2 mil vacinas para hoje (terça-feira). Foram mais de 3 mil pessoas ao ginásio, onde estamos aplicando o medicamento. Porém, tivemos que voltar com várias famílias. O povo de Ladainha está eufórico. Tivemos que pedir até a Polícia Militar (PM) para avisar que tinha acabado a vacina. Cerca de 1,5 mil ficaram sem”, explicou o prefeito. Para hoje, Walid afirma que devem chegar entre 2,5 mil a 3 mil doses. “É a cidade com a situação mais crítica. Muita gente está passando mal com todos os sintomas da doença. Temos seis moradores internados em Teófilo Otoni com suspeita de febre amarela. Outras três estão em Ladainha.”

O surto de febre amarela que atinge o interior também provoca aumento da procura por vacina nos centros de saúde de Belo Horizonte. Apesar de a capital não ter casos suspeitos , a situação nos vales do Rio Doce e Mucuri fez muita gente conferir o cartão de vacinação e descobrir que a imunização não estava em dia. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a cidade está preparada em caso de surto e há estoque de vacina. O Centro de Saúde Carlos Chagas, na Região Centro-Sul, foi um dos mais procurados ontem por quem queria se imunizar. Segundo funcionários, o movimento era grande no início da manhã. Por estar próximo à área hospitalar, muitos pacientes vindos do interior do estado passaram pelo local.

Falta pontual Sobre a divergência em relação ao número de casos repassados pelos municípios e os divulgados oficialmente pela SES, o órgão estadual informou que as cidades estão repassando o número de casos notificados em que há suspeita da febre amarela, mas ainda sem confirmação laboratorial, o que pode exigir algumas semanas. Já sobre o estoque de vacinas, todos os municípios estão abastecidos e devem se organizar para solicitar o quantitativo suficiente para a vacinação, segundo a secretaria. “No entanto, pode haver falta pontual em alguns municípios, pois alguns não dispõem de estrutura para armazenar grande quantidade da vacina, uma vez que há uma grande procura”, informou a SES, por meio de nota.

As doses do produto são oferecidas no calendário nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) e enviadas, mensalmente, para todo o país. Em 2016, foram repassados aos estados mais de 16 milhões de doses, sendo mais de 3 milhões para o estado de Minas Gerais. O governo do estado garante que tem estoque suficiente para atender toda a população e que, neste momento, conta com 300 mil doses em estoque e que, ontem, o Ministério da Saúde enviaria mais 285 mil, totalizando 585 mil unidades de vacina.

 

TIRA-DÚVIDAS

1) O que fazer para evitar a febre amarela?
A principal regra é se vacinar. A recomendação vale para as pessoas que residem nas áreas de infestação da doença ou viajam para regiões silvestres, rurais ou de mata, que são Áreas com Recomendação da Vacina contra febre amarela. A vacina é ofertada no Calendário Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) e pode ser encontrada nos postos de saúde. O uso de repelentes e mosquiteiros ajuda, mas a principal recomendação é se vacinar.

2) O que devo fazer se preciso viajar para uma das áreas de infestação no estado?
Se a pessoa não for vacinada, ela deve providenciar a atualização do cartão de vacinas e aguardar, no mínimo, 10 dias para se deslocar com destino a uma área de risco. O produto é válido por 10 anos. Se não for possível adiar a viagem por 10 dias, é preciso usar repelente nas áreas urbanas com risco de transmissão. Não é recomendável ir a áreas rurais ou de matas nas localidades em alerta.

3) Há risco de transmissão em áreas fora das que tiveram registro de casos ou mortes?
A febre amarela urbana não é confirmada desde 1942, mas de acordo com especialistas, a presença do mosquito Aedes aegypti (que transmite a forma urbana) nas cidades, expõe esses locais à ocorrência dos casos, apesar de o risco ser baixo.

4) O que devo fazer se apresentar os sintomas da doença?
A orientação é que a pessoa procure um médico na unidade de saúde mais próxima e informe sobre qualquer viagem para áreas de risco nos 15 dias anteriores ao início dos sintomas, principalmente se realizou atividades em áreas rurais, silvestres ou de mata, como pescaria, acampamentos, passeios ecológicos, visitação em rios, cachoeiras ou mesmo durante atividade de trabalho em ambientes silvestres. Também é importante informar a situação vacinal e data da última vacinação

5) Qual é o risco da febre amarela?
A maioria das pessoas melhora após os sintomas iniciais. No entanto, cerca de 15% dos pacientes, após o período inicial da doença, apresentam sensação de melhora que dura de algumas horas a até um dia e, então, desenvolvem uma forma mais grave da doença. Em casos graves, a pessoa pode desenvolver febre alta, icterícia (coloração amarelada da pele e do branco dos olhos), hemorragia (especialmente a partir do trato gastrointestinal) e, eventualmente, choque e insuficiência de múltiplos órgãos. Cerca de 20% a 50% das pessoas que desenvolvem forma grave da doença podem morrer.

Fontes: Secretaria de Estado de Saúde e Sociedade Mineira de Infectologia

 

 

Memória

Alerta no início dos anos 2000

No início da década passada, a febre amarela silvestre ressurgiu, depois de décadas desaparecida da vida dos mineiros, pondo o estado em alerta. O resultado foi uma série de óbitos, filas para vacinação e criação de barreiras sanitárias nas rodovias. Em agosto de 2000, o alvo foi o Norte. No ano seguinte, em março, a população de Belo Horizonte tomou precauções e até o  Mineirão (foto) se tornou posto de imunização. Nesse mesmo mês, houve campanha de vacinação, com faixas em postos da Polícia Rodoviária. Até abril, o Noroeste e o Triângulo foram os mais atingidos, além da Região Central. Em 2008, a doença voltou a assombrar, e muita gente buscou a Fundação Carlos Chagas, em BH, para se proteger contra a febre amarela.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade