
No aparador de madeira, estrategicamente posicionado em frente à porta principal, está a outra parte da explicação do duradouro e feliz relacionamento. Em meio a dezenas de porta-retratos, de molduras e rostos diversos, sobressai a foto dos dois na época em que se conheceram, ele aos 28 anos e ela aos 18, em preto e branco. “Veja como ela era uma coisa de louco quando jovem, bem-apanhada. Na verdade, até hoje está bem bonitona e ajeitada, você mesma vai ver. Já eu estava mais magro”, afirma Tobias, sendo interrompido nesse momento por Olga, que está descendo as escadas, muito elegante, com seu corte chanel, preso de lado.

Tobias olha para Olga como se fosse a primeira vez, em Itapecerica, quando se apaixonou pela jovem de longas tranças. “Casaria mais 20 vezes com ela. À medida que o tempo passa, gosto ainda mais da minha mulher”, declara Tobias, eternamente apaixonado por sua escolhida. Na verdade, seria uma ideia original recriar o álbum de casamento de Olga e Tobias. Eles contam que, na data marcada, uma chuva torrencial impediu a execução dos serviços contratados na antiga Mesbla. O temporal quase compromete a realização da cerimônia. “Olga, sol da minha vida/Como uma flor, você brotou em Itapecerica”, são alguns dos versos que Tobias rascunha para a mulher, enquanto ela prepara sobremesas de que ele gosta.
Trem “Meu pai conseguiu mandar buscar os convidados de trem pela rede ferroviária. Foi o que garantiu nosso casamento na fazenda”, conta a noiva, posando para novas fotos ao lado do antigo pretendente. O trabalho é inspirado na história de um casal de Vitória (ES), que refez o álbum de casamento depois de 69 anos juntos – as imagens viralizaram na internet. “Ele era caixeiro-viajante e já estava noivo quando me conheceu. Tinha uma pilha de cartas da namorada. Mas eu venci”, afirma Olga, lembrando que Tobias abandonou a profissão e se dispôs a ficar ao lado dela. “Confio inteiramente nele”, completa, lembrando que os dois batalharam juntos no ramo hoteleiro em BH, criando filhos e recebendo os hóspedes. “Era uma vida muito agitada. Se precisava de mais travesseiros, eu ia lá dentro e costurava”, conta.

Para dissipar a tristeza que paira por uns instantes sobre o casal, é feita a proposta de se iniciar o ensaio fotográfico. Pronto. Tobias separa as cartas de amor, que vai (re)ler para sua querida, que retribui o carinho em abraços, muitos abraços. No outro cômodo da casa, onde estão preservados móveis do início do século passado, os namorados se encantam diante da tradicional chapeleira, cenário para um beijo roubado. Na sala de visitas, o lustre de cristal faz a luz perfeita para a última cena do par: a dança de salão, em que Olga e Tobias se unem no mesmo ritmo e compasso há seis décadas, tornando-se campeões de bolero e forró do Clube da Maturidade. Que sejam felizes para sempre.
"Casaria mais 20 vezes com ela. Gosto ainda mais da minha mulher"
José Tobias, 89 anos
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"Quando a gente se gosta, se casa e dá certo, é um presente de Deus"
Olga Tobias, 80 anos

