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Estado de Minas

Estudo mostra impacto direto da presença policial extra na redução de ocorrências

Enquanto lojistas esperam reforço policial para a época mais movimentada do comércio, levantamento revela impacto direto da presença de efetivo extra na redução de ocorrências


postado em 04/11/2015 06:00 / atualizado em 04/11/2015 01:01

Comerciantes e frequentadores das áreas comerciais apostam no patrulhamento mais ostensivo no fim do ano para enfrentar o aumento dos riscos(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )
Comerciantes e frequentadores das áreas comerciais apostam no patrulhamento mais ostensivo no fim do ano para enfrentar o aumento dos riscos (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )

O incremento do número de policiais militares cumprindo rondas a pé para evitar a ação de criminosos é um desejo antigo e manifesto de lojistas e frequentadores de áreas comerciais de Belo Horizonte como a Savassi e o Hipercentro. E a análise de dados sobre ocorrências na época mais movimentada do comércio mostra que o impacto do aumento do efetivo vai muito além da sensação de segurança. O emprego de 1.938 formandos da academia militar e de pessoal dos setores administrativos na Grande BH contribuiu, por exemplo, na Região Centro-Sul da capital, para uma redução de 9% dos crimes contra o patrimônio. Esse ganho ocorreu graças à permanência do efetivo extra nas ruas por mais tempo, já que, em vez de essas forças cumprirem o policiamento a pé de novembro a dezembro e depois serem despachadas para o interior, como era feito nos anos anteriores pela Polícia Militar (PM), a corporação ampliou o período de rondas de novembro de 2014 a janeiro deste ano – permitindo, com isso, quantificar o impacto da presença estendida.

Os dados foram obtidos pela reportagem do Estado de Minas junto ao Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds), com base em números de ocorrências do 1º Batalhão (interior da Avenida do Contorno) e do 22º Batalhão (Centro-Sul). Até esta terça-feira, no entanto, a PM não havia definido quantos militares farão o reforço neste ano e quando irão para as ruas, o que tem deixado comerciantes na expectativa para as vendas de Natal e os comandantes de batalhões sem ter como iniciar seu planejamento. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, o anúncio deverá ocorrer nos próximos dias.

Os grupos de três a quatro cadetes acompanhados de militares mais experientes em rondas pelas vias da cidade impactaram com mais vigor no crime de roubo, que é quando ladrões usam de violência para tomar os pertences de alguém. Segundo o comparativo 2013/2014 com 2014/2015, as ocorrências desse crime caíram 19,4%, de 3.040 para 2.452 registros. Também seguindo essa tendência, os furtos, que são a subtração de bens sem emprego de força ou ameaça, diminuíram 12,7% e os arrombamentos a residências e a estabelecimentos comerciais tiveram redução de 7,8%.

O envio de mais policiais para as ruas nesta época do ano traz tanta tranquilidade que o presidente do Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep) do Hipercentro, Jonisio Lustosa, que também é presidente da Associação dos Empresários do Centro e Barro Preto, afirma que tal medida deveria servir de política para o ano inteiro. “Com toda certeza, não se faz segurança sem a PM nas ruas e isso nós sentimos na pele nas épocas em que os cadetes são enviados para reforçar o policiamento. Os consumidores perdem o medo, sentem tranquilidade para fazer compras, trazem as famílias para o Hipercentro como sempre foi tradição em BH”, afirma. “Estamos ansiosos para ver quando os policiais vão começar a ser destacados para as ruas, pois o impacto é imediato. Estão um pouco atrasados neste ano, mas é imprescindível que essa ação ocorra”, disse Lustosa.

Elementos Para o consultor em segurança pública coronel da reserva Wilson Chagas Cardoso, a população tem razão em pedir mais policiais nas ruas. “O aumento da ostensividade é a forma mais antiga de combate ao crime. Não precisa de bola de cristal nem instinto policial para saber que mais militares na rua trazem aumento da segurança subjetiva – sentida pelas pessoas – e uma redução das oportunidades de crimes”, afirma o especialista. De acordo com o coronel reformado, para que um crime ocorra, são necessários três elementos num cenário, que são a vontade de praticar o delito, a disponibilidade de vítimas e a falta de fiscalização. “Com essa estratégia, a PM amplia a fiscalização e quebra esse ciclo”, avalia.
E a presença dos cadetes agrada também os comandantes dos batalhões que os utilizam. “Estou apreensivo para saber quantos (cadetes) poderei utilizar e a partir de quando. Os recém-formados são uma tropa muito motivada, disciplinada, que gosta de trabalhar e que está com a teoria fresca na cabeça, uma atuação qualificada num momento em que só no Hipercentro o número de pessoas salta de 1,5 milhão por dia para 2 milhões”, avalia o comandante do 1º Batalhão da PM, tenente-coronel Eugênio Valadares. O militar alerta, contudo, que a população deve ainda fazer a sua parte, usar mais cartões de crédito do que dinheiro, evitar a desatenção com bolsas e sacolas e procurar ir às compras na companhia de mais pessoas. “Com essas medidas, os cidadãos também ajudam na sua própria proteção”, considera o comandante.



Medo multiplicado no fim do ano

Os assaltos em Belo Horizonte aumentaram 15,84% nos oito primeiros meses deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado, e a preocupação de comerciantes e pedestres é que a situação piore com a aproximação do Natal, quando os trabalhadores recebem o 13º salário e vão às ruas para as compras de fim de ano. Por isso, defendem mais policias nas ruas para garantir a segurança de todos.


Gerente de loja de roupa no Centro de BH, Cléber Marra, de 50 anos, conta que a situação está insustentável. “Toda hora passa um ladrão, pega uma roupa no mostruário da minha loja e sai correndo. Fui obrigado a contratar dois seguranças para correr atrás e recuperar a peça. Temos poucos policiais nas ruas”, reclama o gerente. Para ele, reforçar o policiamento no fim do ano é extremamente necessário. “Quando tem mais policiais nas ruas, a gente fica mais seguro. Quando tem um PM na esquina, dificilmente os ladrões atacam”, disse Cléber, lembrando que sempre presencia furtos e roubos do lado de fora loja. “Os ladrões abrem as bolsas das pessoas andando e elas nem percebem. Roubo de celular tem quase toda hora”, reclama.


A revolta de comerciantes e pedestres é tanta, segundo ele, que muitos partem para a violência quando conseguem alcançar o ladrão. “As pessoas estão querendo fazer Justiça com as próprias mãos. Há pouco tempo, um grupo reagiu e quase matou um ladrão de tanto bater. Isso só não aconteceu porque houve a interferência de um homem que se indentificou como policial. Já tinham chutado a cabeça do ladão várias vezes”, conta Cléber.


Pedestres também se sentem inseguros. A empresária Sirlei Morais, de 59, conta que todos os dias circula pelo Centro e vive agarrada à sua bolsa com medo de ser roubada. “Já ando preparada até para dar um pescoção no ladrão se precisar”, disse. Para ela, o reforço no policiamento deve ser o ano inteiro e não apenas no Natal. “O Centro é perigoso o ano inteiro. É lógico que os crimes aumentam com a aproximação do Natal. As pessoas saem com o 13º para fazer compras e é aí que os ladrões atacam”, disse.


Na Região da Savassi, comerciantes também estão preocupados com a segurança no Natal. Gerente em loja de roupas na Avenida Getúlio Vargas, Fabíola Pacheco, de 27, teme, principalmente, pela situação nos sábados, quando o seu estabelecimento fecha mais tarde. “As outras lojas fecham às 14h. Eu, às 15h. Nesse horário, a Savassi fica deserta. Reforçar o policiamento no final de ano é imprescindível para garantir a segurança de todos, inclusive dos meus funcionários na hora de fechar a loja e ir embora”, disse Fabíola.
A executiva de contas Simone Pinheiro, de 35, relata que passou aperto ontem na Savassi. Ela estava indo para uma reunião, levando o notebook, e achou que seria assaltada por dois rapazes em atitudes suspeitas. “Olhei e não vi nenhum policial por perto”, reclamou. Minutos antes, quando a reportagem chegou ao local, dois PMs estavam posicionados na Praça Diogo de Vasconcelos, mas haviam saído com o carro. “Há policiais na Savassi, mas não são suficientes”, reclama a executiva.


A estilista Raísa Francescato, de 24, conta que sempre anda pela Savassi, e, para ela, a presença da PM não intimida mais os ladrões. “Com polícia ou sem polícia, os crimes continuam acontecendo. A insegurança está em qualquer lugar. Eu mesma tive que me mudar do Bairro São Pedro por causa da violência. E olha que eu morava ao lado de uma delegacia da Polícia Civil”, disse.

Balanço Dados divulgados em setembro pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) mostra que os assaltos aumentaram 16,2% em Minas Gerais nos oito primeiros meses deste ano na comparação com igual período de 2014. Em Belo Horizonte, onde as ocorrências desse tipo de crime subiram de 20.405 para 26.641, no mesmo intervalo, avanço de 15,84%. Donos de lojas e de agências de veículos da Avenida Cristiano Machado, na Região Nordeste da capital, estão deixando de receber dinheiro em espécie para aliviar os prejuízos diante de tantos roubos. (Pedro Ferreira)


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