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Estado de Minas

Minas e Bahia vão pesquisar documentos para definir futuro do "mar mineiro"

Após reportagem do EM mostrar que governo de minas adquiriu faixa no litoral baiano em 1910, estados vão a arquivos para esclarecer transação


postado em 20/08/2015 06:00 / atualizado em 20/08/2015 19:10

Ver galeria . 8 Fotos Trecho que vai da divisa entre os dois estados à cidade histórica de Caravelas, incluindo seus dois distritos, Ponta de Areia e Barra de Caravelas, seria o acesso de Minas ao marBeto Novaes / EM / D.A Press
Trecho que vai da divisa entre os dois estados à cidade histórica de Caravelas, incluindo seus dois distritos, Ponta de Areia e Barra de Caravelas, seria o acesso de Minas ao mar (foto: Beto Novaes / EM / D.A Press )

Os governos de Minas Gerais e da Bahia vão pesquisar seus arquivos em busca de documentos que esclareçam a negociação que, em 1910, transferiu ao patrimônio mineiro um filete do território baiano, de 12 quilômetros de largura por 142 quilômetros de extensão, mostrada ontem pelo Estado de Minas. Trata-se do que seria o acesso de Minas ao mar, em trecho que vai da divisa entre os dois estados à cidade histórica de Caravelas, incluindo seus dois distritos: Ponta de Areia e Barra de Caravelas.

A reportagem se baseou em matéria publicada na revista O Cruzeiro, em 1973, pelo então repórter Fernando Brant (1946 – 2015), que viria a ser o principal parceiro de músicas de Milton Nascimento. Ele aproveitaria a viagem a trabalho para compor Ponta de Areia, música que trata da extinção da Ferrovia Bahia-Minas.

A curiosa história da abertura mineira para o Atlântico tem início justamente com a ferrovia. A Baiminas, como moradores antigos se referem à linha férrea, ligou Ponta de Areia (BA) a Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. A maria-fumaça começou a apitar no trecho em 1881, na época do Império. Em 1966, o governo militar decidiram desativá-la, pois acreditou que o asfalto garantiria à região progresso melhor do que o conduzido pelos trilhos.

O caminho de ferro foi construído e gerenciado pela Companhia de Estrada de Ferro Bahia e Minas. Para garantir a construção da linha pela iniciativa privada, dom Pedro II (1825-1891) concedeu à empresa a posse de seis quilômetros de terras devolutas em cada uma das margens dos trilhos (total de 12 quilômetros). Já a extensão vai de Ponta de Areia à divisa entre os dois estados (142 quilômetros).

No fim do século 19, a empresa hipotecou as terras ao Banco de Crédito Real do Brasil. Em 1908, já proclamada a República, o banco executou a dívida. Em 1910, porém, a instituição enfrentou dificuldades financeiras e o governo de Minas adquiriu as terras, em escritura de cessão de crédito e transferência de direito.

Na década de 1940, o estado enviou ofício ao governo da Bahia, reivindicando a posse das terras. O governo vizinho não se manifestou sobre o assunto. A atual administração baiana informou que vai consultar os documentos para emitir um parecer. Da mesma forma, o governo de Minas. A Prefeitura de Caravelas não de retorno ao pedido de entrevista.

Parte do terreno que pode ser patrimônio mineiro integra uma área que abrange vários mangues. De acordo com o pesquisador de solos Carlos Hernesto Schaefer, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Sul da Bahia “é composto pelo maior conjunto de manguezais do Nordeste, e um dos maiores do Brasil”.

Testemunho de Brant

“É o fim da nostalgia do mar. Minas Gerais já tem o seu, de direito, desde 1910. O Cruzeiro descobre e mostra documentos e fatos que comprovam: Minas é um estado marítimo. A história começa no segundo Império e se arrasta até hoje (1973), encoberta por inexplicável silêncio. Não se trata do Contestado, motivo de tanta briga, em passado recente, entre mineiros e capixabas. Uma briga inútil, pois, desde 1910, trezentos contos de réis tornaram Minas Gerais proprietário, de direito, de um trecho no extremo Sul da Bahia, que vai dar em Caravelas, Ponta de Areia e Barra de Caravelas. Por mistério da política, o assunto nunca foi devidamente levantado.

As terras marginais da estrada de ferro Bahia-Minas, com extensão de 142 quilômetros por 12 (quilômetros), seis para cada lado da linha férrea, ligando a terra mineira ao Atlântico, abrangendo Caravelas, Barra e Ponta de Areia, pertenceriam ao estado de Minas Gerais. ‘Seria isso verdade?’, perguntará o ansioso mineiro. Será que os pintores, escritores, poetas mineiros perderão este elemento tão inspirador e legendário, a nostalgia do mar?”

Trecho da reportagem “Olha aí o Mar de Minas” de Fernando Brant, em O Cruzeiro de 23 de maio de 1973

Confira um vídeo feito pela equipe do EM nos locais das reportagens:


A "nossa praia" é sucesso na rede 
O desejo dos mineiros de ter um lugar ao sol à beira do Atlântico não é novidade. Mas o fato curioso de Minas Gerais ter adquirido uma faixa de quase 150 quilômetros pelo território baiano até o litoral aguçou o imaginário dos internautas. Cerca de 800 pessoas compartilharam a reportagem publicada pelo Estado de Minas no Facebook do EM, reivindicando o espaço que seria legitimamente mineiro. Outros 400 usuários da rede curtiram a publicação. Muitos parabenizam Minas pela conquista, que completa 105 anos e que quase ninguém conhecia. Entre os comentários, houve quem fizesse piada, como Hemerson Henrique: “Já que Minas agora tem mar, não vou pro bar”. Confira outras reações à reportagem:

"Agora sim, não falta mais nada neste estado maravilhoso!"
Leandro Rodrigues

"Isso sim é praia do mineiro. Chega de Guarapari!"
Charle Rocha

"Até que cairia bem um pedacinho de mar pra gente..."
Poliana Alves

"Seria muito bom Minas tomar posse da praia, para o futuro dos mineirinhos"
Luciene Breder

"Bem que podia ser verdade mesmo. Ia acabar a zoação contra meu lindo estado."
Thiago Vieira

"E aí, vamos para a praia de Minas?"
Dângelo Silva

Trecho de 12 quilômetros de largura por 142 quilômetros de extensão vai da atual divisa com o estado vizinho até as praias do sul baiano(foto: Arte EM)
Trecho de 12 quilômetros de largura por 142 quilômetros de extensão vai da atual divisa com o estado vizinho até as praias do sul baiano (foto: Arte EM)

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