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Estado de Minas

Cenipa investiga se piloto de bimotor que caiu em BH realizou manobra arriscada

Hipótese de saída no estilo 'manobra americana' foi levantada depois que testemunhas e pilotos ligados à torre de comando do aeroporto da Pampulha confirmaram a subida quase vertical da aeronave em relação à pista


postado em 09/06/2015 06:00 / atualizado em 09/06/2015 10:14

Manobras que antecederam queda de avião em BH intrigam especialistas (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)
Manobras que antecederam queda de avião em BH intrigam especialistas (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A.Press)

Uma manobra arriscada de decolagem está na mira da investigação da tragédia com o avião que caiu e matou três pessoas no domingo. Técnicos do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes (Seripa III), órgão que integra o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), analisarão imagens e outros dados sobre os últimos momentos em que o avião bimotor King Air – prefixo PR-AVG – esteve no ar, para apurar se o piloto Emerson Thomazini executou uma decolagem diferente da habitual.


A hipótese de que ele tenha feito uma saída do solo no estilo “manobra americana” foi levantada depois que testemunhas e pilotos ligados à torre de comando do aeroporto da Pampulha, de onde ele decolou, confirmaram a subida quase vertical em relação à pista. A técnica, considerada arriscada por especialistas, consiste em retirar a aeronave do solo, recolher o trem de pouso, mas ganhar velocidade com o avião sobrevoando em baixa altitude, entre 2 e 4 metros, até quase o fim da pista, onde o piloto puxa o manche de forma mais acentuada do que o habitual para decolar. Assim permanece até alcançar altitude entre 1 mil e 2 mil metros, quando estabiliza o avião.


Segundo a Força Aérea Brasileira (FAB), o bimotor permaneceu no ar apenas um minuto dos 50 minutos de tempo previsto no plano de vôo, entre BH e Setubinha, no Vale do Jequitinhonha. Decolou às 15h23 e caiu às 15h24. A informação de que o comandante teria feito a manobra arriscada circulou ontem nos hangares do aeroporto. “O piloto manteve a aeronave voando baixo até terminar a pista e depois subiu na vertical”, detalhou um experiente comandante.

Segundo ele, a torre de comando do aeroporto tem os registros da manobra, que, conforme análise da testemunha, teria sido ainda mais ousada do que a “decolagem americana”. “O que ele fez se chama estol de badalo, feito pelos pilotos da Esquadrilha da Fumaça em performances aéreas”, afirmou o comandante.

Amigo de Emerson Thomazini, o também piloto Augusto de Lima entende que a decolagem americana é “uma manobra perfeitamente normal”. Já para o diretor de segurança operacional da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (Appa), Miguel Rodeguero, a decolagem americana foge da operação padrão e deve ser evitada. “Toda vez que foge do padrão, se expõe ao risco”, afirma o especialista em segurança de voo.

"Precisamos analisar as gravações de voz do avião e os vídeos das câmeras de segurança do hangar e da Infraero" , Leonardo Neves Carneiro, capitão do Cenipa (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)

Peritos do Seripa III recolheram a caixa-preta com as últimas conversas das vítimas. Imagens da torre de controle do aeroporto de onde a aeronave havia decolado também serão analisadas. O diálogo da torre com o piloto também foi solicitado. “O CVR, popularmente conhecido como caixa -preta, grava dados de voz e não de voo. Ele será encaminhado para Brasília para ser analisado. Os técnicos terão que abrir o CVR com muito cuidado, pois está bastante queimado”, informou o chefe de investigação do Seripa III, Raphael Vargas Vilar. Ele e a sua equipe coletaram dados, destroços e entrevistaram testemunhas para tentar chegar às causas da queda.

Depois de acompanhar a retirada dos destroços do avião, o capitão Leonardo Neves Carneiro, do Cenipa, afirmou que, somente depois de uma análise em laboratório, será possível saber se a gravação na aeronave foi preservada. “Ainda não tem como falar que houve a polêmica decolagem americana. Precisamos analisar as gravações de voz e os vídeos das câmeras de segurança, do hangar e da Infraero”, disse.

Ver galeria . 32 Fotos Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press )


Retirada O recolhimento dos destroços de dentro do imóvel começou pela manhã e até o fim da tarde não havia terminado. Bombeiros precisaram cortar algumas peças para passar pelo portão da casa. O material foi empilhado na calçada e recolhido por um guincho.  O material será guardado em uma empresa de manutenção no aeroporto da Pampulha.

Segundo o major-aviador Raphael Vargas Vilar, chefe da Sessão de Investigação do Seripa III, a divisão coletará evidências e analisará os dados para, em uma terceira fase, divulgar o relatório. Ele ainda afirma que não é possível precisar com exatidão quando a investigação será concluída. Um dos fatores que pode levar à demora se deve à aeronave ter sido fabricada nos EUA e contar com motor canadense, o que pode demandar a ajuda de órgãos internacionais na apuração.

(foto: Arte/Soraia Piva)
(foto: Arte/Soraia Piva)


Até então, o major-aviador apenas tinha visto as imagens do avião caindo em parafuso, gravadas por populares. “Tudo indica que o piloto perdeu o controle da aeronave e não teve como escolher o local do pouso. Segundo o órgão, o comandante Emerson Thomazini, de 43 anos, era piloto  desde novembro de 1998, tinha licença de linha áerea desde 2011 e estava com habilitação válida. Ele trabalhava havia 10 anos para o grupo Atlantica Exportações e Importações, dona do avião. Já o copiloto Gustavo de Toledo Guimarães tinha licença desde 2000 e também estava com habilitação em dia. Ainda de acordo com a Anac, a situação de navegabilidade do bimotor era normal e a data de validade da licença estava regular.

O chefe do Núcleo de Operações Aéreas da Polícia Civil, delegado Ramon Sandoli, esteve no local do acidente para acompanhar os trabalhos. O policial que morreu atuava no Núcleo. Sandoli informou que a Polícia Civil acompanhará as investigações da Cenipa e abrirá inquérito paralelo para apurar as mortes violentas. “As causas do acidente ficam por conta da Cenipa, que analisará todos os dados, desde antes da decolagem até o acidente”, afirmou. “A Polícia Civil vai apurar se houve acidente danoso ou culposo. Vamos aguardar as investigações da Cenipa”, afirmou o policial.

ASSISTÊNCIA Representantes da Atlantica Exportação e Importação, responsável pela aeronave, também estiveram no local. A empresa é especializada em grãos de café cru e faz parte da MonteSanto Tavares, uma holding mineira que já foi dona das marcas Café Três Corações e Sucos Mais, e atualmente comanda a marca de café Fino Grão.

 Por meio de nota, a empresa informou que está prestando toda a assistência aos familiares das vítimas. Também afirmou estar acompanhando as investigações e que o piloto Emerson Thomazini era considerado um “profissional exemplar”.

Ver galeria . 7 Fotos A produtora Cássia Sodré, moradora de uma cobertura no Bairro Palmares, flagrou a queda do avião na tarde de ontem. Cássia fotografava a paisagem quando percebeu o o King Air C90 em uma posição inusitada e fez vários cliques (Cássia Sodré)Cássia Sodré
A produtora Cássia Sodré, moradora de uma cobertura no Bairro Palmares, flagrou a queda do avião na tarde de ontem. Cássia fotografava a paisagem quando percebeu o o King Air C90 em uma posição inusitada e fez vários cliques (Cássia Sodré) (foto: Cássia Sodré )


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