Luiz Ribeiro
Enviado especial

Bocaiúva, Juramento e Pirapora – Uma história de vida escrita nas linhas das cartas e pelas águas do São Francisco, contando histórias de outras vidas levadas e trazidas pelo mesmo rio. Na segunda reportagem sobre os apaixonados pelas letras que mantêm vivo o costume de se corresponder pelo correio, fazendo do papel seus e-mails e tecendo à mão suas redes sociais, o Estado de Minas foi à ribeirinha Pirapora para conhecer uma escritora de missivas de ofício, que fez das próprias letras mensageiras de muita gente. Também pelo Norte de Minas, descobriu que folhas manuscritas ainda encurtam as distâncias entre muita gente, trazem para perto a irmã que foi viver no convento, mandam mensagem pegando carona no rádio e abençoam, de longe, quem está no verso do envelope. Tudo fazendo do bom e velho papel companheiro, mensageiro e confidente.
Foi ao som do apito de vapores como o Benjamim Guimarães, gritando suas partidas e chegadas do porto de Pirapora, que a aposentada Lourdes Barroso, de 75 anos, moradora da cidade norte-mineira banhada pelo Rio São Francisco, começou a escrever sua história. Só a sua não: também as de muitos marinheiros de água doce e poucas letras que dependiam de suas mãos caprichosas para mandar notícias para a família ou resolver pendências prosaicas do dia a dia, em um tempo em que a tecnologia ainda era movida a lenha .
Durante quase 10 anos dona Lourdes viveu nas antigas embarcações movidas a vapor que percorreram o Velho Chico durante décadas, interrompendo as viagens no fim dos anos 1970. A função dela a bordo: escrever para os tripulantes. “Comecei a escrever com 20 anos. A tripulação dos vapores era formada de pessoas simples, como os caldeireiros e taifeiros, que não sabiam ler e nem escrever e precisavam enviar notícias para os familiares”, recorda.
Dona Lourdes acabou sendo confidente de muita gente, transcrevendo em papel muitas alegrias, mas também servindo como mensageira de luto e tristeza. Ela conta que escrevia correspondências que falavam de amor e de nascimentos, mas também de mortes e até de negócios. “Naquele tempo as cartas serviam também para informar que estava sendo enviada alguma mercadoria, como um saco de feijão, ou algum dinheiro para compra de determinado bem”, recorda. Os envelopes eram postados nas agências dos Correios das cidades ribeirinhas, sempre que o vapor parava para carregar mercadorias ou para o embarque e desembarque de passageiros.
Os vapores viraram história e atualmente o Benjamim Guimarães só zarpa para pequenas viagens turísticas. Mas até hoje dona Lourdes escreve cartas a pedido de outras pessoas. “Nunca parei de escrever, porque vizinhos que não sabem ler sempre pedem para enviar alguma coisa para eles. Ainda mando mensagens pessoais, mas hoje o que mais escrevo são correspondências pedindo emprego ou solicitando a alguma coisa à prefeitura ou outros órgãos públicos”, conta a aposentada, que não se aposenta do ofício de missivista e mantém a vida ligada ao São Francisco, de cujas águas e lendas tira inspiração para o trabalho de artesã e carranqueira.
Quando o hábito vira campanha
As cartas não representam apenas carinho trocado entre dois correspondentes, ou “o coração da outra pessoa na ponta dos dedos, vindo dizer que não esqueceu você”, como definiu dona Maria da Conceição, de 69 anos, ontem, na primeira reportagem “Minas das cartas”. Elas acabam se transformando também em uma espécie de companhia para quem se dedica ao hobby de escrevê-las. O aposentado Sebastião Moreira Lopes, de 64 anos, é uma dessas pessoas. Morador de Bocaiúva, no Norte de Minas, ele ocupa boa parte de seu tempo escrevendo para parentes que moram longe, como o filho que vive e trabalha em Campo do Meio, a mais de 650 quilômetros do pai, no Sul de Minas. Troca correspondências também com um primo em Francisco Morato e com uma ex-cunhada, que mora em Sorocaba (SP). E ainda encontra inspiração para enviar mensagens para programas de rádio da própria cidade e de Montes Claros, a 54 quilômetros de distância.

Homem de pouca instrução, ele demonstra que aproveitou bem as escassas oportunidades que a escola ofereceu. Tanto que seus manuscritos chamam a atenção pela correção da língua e da pontuação, com uma grafia sem reparos. “Estudei pouco, mas não tenho inveja de gente formada”, vangloria-se.
Para o aposentado, corresponder-se é um ritual que envolve muito sentimento. “Fico muito feliz quando recebo uma carta. E toda vez que escrevo para alguém, peço a Deus para abençoar aquela pessoa”, conta.
Ao escrever para o programa de rádio de que é fã, ele pede músicas e aproveita para prestar homenagens a parentes e amigos. Foi o que fez no texto enviado ao radialista Jota Pinheiro, da Rádio Educadora de Montes Claros, em agosto: “Que a paz de Jesus esteja sempre com você e todos os amigos ouvintes do ‘programa Chora viola’. Eu peço a música O presidente e o lavrador, da dupla Léo Canhoto e Robertinho. Ofereço a todos os meus amigos e ao meu irmão Manoel Lúcio Moreira, parabenizando toda a família”.
Irmãs nas letras
Em Juramento, cidade de 4 mil habitantes também no Norte do estado, mora outra mineira que fez das cartas parte de sua vida. Tanto que é delas que tira o sustento: carteira há nove meses, Noêmia Raimunda dos Santos, de 38, tem uma história muito longa com as correspondências. Há 14 anos são elas que mantêm forte sua ligação com sua irmã Marieta Raimunda dos Santos, freira, que vive em Ibimirim, no sertão pernambucano, a 339 quilômetros do Recife.
Para Noêmia, deitar ideias no papel é uma opção de vida. Ela conta que tem computador e telefone celular, mas prefere os manuscritos para manter em dia a comunicação com a irmã distante. “Não sou de ficar falando muito. Por carta, consigo expressar melhor meus sentimentos”, define. E se escrever é uma maneira de revelar o que vai pelo coração, receber a resposta soa como um reconforto. “Minha irmã está sempre me dando força e enviando mensagens pedindo que eu mantenha a fé e a esperança. Fico muito feliz toda vez que recebo uma carta dela”, emociona-se Noêmia.
Por telefone, o Estado de Minas conseguiu contato com Marieta Raimunda dos Santos, no convento da Ordem das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, em Ibimirim. Com acesso à internet, embora “muito lenta”, a freira é outra que confessa a preferência pela correspondência manuscrita. “A escrita demonstra o sentimento entre irmãos. Pela letra, a gente fica sabendo quem realmente escreveu a mensagem, que se trata de uma coisa verdadeira”, observa a religiosa, que se prepara para uma missão no Equador, no ano que vem. Sinal de que os envelopes apenas vão viajar mais longe, mas jamais interromperão a troca de emoções entre as irmãs.
