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Estado de Minas

Conheça os mineiros que ainda escrevem cartas na era da informação digital

Linhas carregadas de emoção, manuscritas por uma legião silenciosa, mas fiel, fazem com que o costume de trocar mensagens pelo correio sobreviva na era digital


postado em 24/11/2013 00:12 / atualizado em 24/11/2013 07:34

Maria Da Conceição, moradora da Cidade Ozanam, apaixonada pela troca de cartas e em busca de pessoas com quem se corresponder(foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Maria Da Conceição, moradora da Cidade Ozanam, apaixonada pela troca de cartas e em busca de pessoas com quem se corresponder (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)

Em plena era da informação instantânea, de mecanismos que disparam notícias sobre a vida, a morte e as preferências de centenas de milhões de pessoas em tempo real para todos os cantos do planeta, um público silencioso se mantém fiel a uma forma de comunicação que antecede até mesmo a impressão da primeira Bíblia, por Gutenberg. Em parte movido por ele, apenas em Minas Gerais os Correios processam em média 1,3 bilhão de correspondências por ano. Ainda que em número cada vez menor – não há estudo detalhado sobre cartas manuscritas –, as missivas pessoais sobrevivem à era do e-mail, das redes sociais e dos smartphones.

Entre os amigos mais velhos de tempos em que a telefonia fixa era um sonho, entre familiares letrados ou entre colegas mais jovens, românticos, aficionados pela escrita à mão, não há melhor demonstração de apreço e consideração. Para a cadeirante Maria da Conceição, de 69 anos, da Casa do Ancião Celso Mello de Azevedo, a carta escrita é o melhor pedaço de quem a escreve. “É o coração da outra pessoa, na ponta dos dedos, vindo dizer que não esqueceu você”. Nas próximas linhas, o Estado de Minas faz uma viagem pelos traços desse amor manuscrito, cultivado por uma legião de apaixonados que, trocando mensagens, o mantém livre da extinção.

Maria Helena Arcanjo, de 52(foto: Tulio Santos/EM/D.A Press. )
Maria Helena Arcanjo, de 52 (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press. )
Separadas pela vida, unidas pelas letras

Do encontro das duas mulheres, a amizade em letras desenha envelopes. Duas Marias, uma da Conceição, a outra Helena, unidas pelo traçado das canetas. Uma cuida do marido, com problemas de saúde; a outra está na Casa do Ancião, longe da família. As correspondências sustentam a troca de palavras de conforto e esperança, para dar conta do lado triste das circunstâncias. Maria da Conceição, de 69 anos, cadeirante, vive na Cidade Ozanam, no Bairro Ipiranga, desde 2010. Mãe de três filhos, ela não esperava encontrar o asilo.

Escrever ajuda a lidar com a condição. E a história com as cartas regulares começou com um pedido de uma estranha. “Uma visitante me pediu para escrever para o filho dela, de 14 anos. Ela disse que o menino não gostava de ler e que estava dando trabalho na escola. Escrevi da minha cabeça, com as informações que ela me deu. Gostei muito de fazer aquilo”, relembra.

Quando a outra Maria, a Helena, colega cozinheira de tempos passados, soube que Conceição estava na Casa do Ancião, ela escreveu a carta que renovou e fortaleceu a amizade. Nas mãos da cadeirante, o texto de afeto da amiga, que traz no papel pautado a imagem de um regador em ação em um jardim florido: “Que Deus proteja você, a sua família e amigos. Vou indo bem e o Geraldo está melhorando”.

Do outro lado do envelope, o endereço da amiga remetente, no Bairro Riacho das Pedras, em Contagem. Lá, o EM encontrou Maria Helena Arcanjo, de 52, dona de sorriso largo e a da fala macia e fácil de quem lê e escreve com paixão, gosto e alegria. “No Brasil, infelizmente, as pessoas não gostam muito de ler e escrever. Eu leio de tudo, sem preconceito: romances, livros espíritas, Machado de Assis… até autoajuda”, enumera.

A dona de casa faz questão de escrever para os familiares e amigos mais próximos ao menos duas vezes por ano – no aniversário e no Natal. “A Maria da Conceição faz aniversário dia 15 de dezembro. Tenho muita estima, amizade e admiração por ela. Sei da situação de dificuldade e contrariedade que ela atravessa. Se pudesse comprar uma casa, a levaria para morar com minha família”, emociona-se.

Enquanto o aniversário não vem, na Cidade Ozanam, Maria da Conceição guarda a última carta escrita pela amiga como todo o tesouro que ela tem, e que cabe numa caixa de sapato. “Tenho outras 15 cartas”, conta. “Quando recebo uma, tenho muito prazer. É um sentimento de carinho de duas mãos da pessoa ter dedicado um tempo dela para me escrever uma carta. Você poderia dar o meu endereço para as pessoas escreverem para mim?”

Claro, dona Maria: Maria da Conceição. Casa do Ancião Celso Mello de Azevedo. Rua Dom Barreto, 641. Bairro Ipiranga. CEP 31.160-210.

Com as palavras o senhor, carteiro

“O maior volume de cartas manuscritas vem do interior, das regiões mais pobres e das penitenciárias”, conta Emerson Barbosa, de 44. Depois de tempos como metalúrgico e de 24 anos como auxiliar de expedição em distribuidora de remédios, é como carteiro que o belo-horizontino tem ganhado o pão. São 16 quilos nos ombros e média de 10 quilômetros por dia nas andanças de segunda a sexta-feira.

Em muitas das correspondências vindas de presídios, um recado se destaca no topo do envelope: “Sr. carteiro, por favor, entregue esta carta para a minha mãe”. Respeito dos condenados por aquele que encurta distâncias. “É muito comum ter um recado para o carteiro no alto do envelope. Na carta para a mãe, para a mulher, para os filhos… Os presos costumam respeitar nosso trabalho”, diz Emerson.

Tem pouco mais de um ano na função – mas tempo suficiente para falar como veterano. “De cada 10, a gente pode dizer que uma é manuscrita. E tem muito telegrama também”, diz. A bolsa azul surrada, no Bairro Nova Suíssa, na Região Oeste, leva o peso do que o homem dos Correios diz. Com a pele exposta coberta de bloqueador solar, a bermuda de trabalho ajuda a lidar com o calor. Só nas ruas, “com muito gosto pelo ofício”, são seis horas de endereço em endereço.

Romântico, Emerson revela que, embora goste muito de escrever à mão, no último ano, diminuiu o ritmo da escrita. “Comecei a usar mais o e-mail. Ainda assim, sempre que posso, escrevo ao menos um cartão ou um bilhete. É mais pessoal, não é?”, sorri. Da última carta, ele diz se lembrar bem: um relatório de trabalho, na letra caprichada de quem leva a vida de diminuir distâncias.


Lutador de caneta em punho

Campeão brasileiro de boxe em 1960, Elson Martins, de 76, trocou as luvas e os ringues pelo papel e pela caneta. Depois de vencer meio mundo no punho, o tetracampeão das Minas Gerais e professor aposentado de educação física decidiu combater por meio da escrita à mão tudo o que entende não ser certo. “São reclamações e sugestões. Quando sinto que posso ajudar, contribuir de alguma forma para melhorar alguma coisa, escrevo à mão. Não gosto de nada mecanizado. Gosto do que é direto, personalizado”, explica.

Ex-campeão de boxe, Elson Martins hoje é um atleta das palavras que faz questão de escrever à mão(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Ex-campeão de boxe, Elson Martins hoje é um atleta das palavras que faz questão de escrever à mão (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Na sala do casarão no Bairro Renascença, na Região Nordeste de Belo Horizonte, sobre a mesa, rascunhos de cartas que já encontraram destino e textos ainda em fase de acabamento. Por lá aguardam envelope um pedido de financiamento ao Banco do Brasil para projeto rural da família, congratulações e sugestão de campanha para maior educação nos campos de futebol. “É para os jogadores pararem de cuspir nos gramados. Não está certo. Eles caem ali, rolam, passam o rosto na grama. Imagine se essa moda pega nas quadras?”, provoca o ex-lutador.

Entre páginas e páginas de papel letrado, há também um artigo intitulado “Saudades de um bom tempo”. Nele, em xeque, a educação no trânsito. “Ser bom cidadão é dar as mãos a cegos. Sou desse tempo”, sorri. O professor de educação física tem muito a dizer. Ressalta que é “grande admirador de todas as coisas belas”. “Bons modos, por exemplo”, diz. Casado há 51 anos, pai de cinco filhos e avô de 14 netos, enche-se de alegria para falar do primeiro bisneto.

Elson vê na carta manuscrita uma maneira de não deixar “o que é mecânico vencer o que é pessoal”. “Nem máquina de escrever eu quis ter. Hoje, infelizmente, a comunicação entre as pessoas é muito eletrônica. Minha letra não é bonita. Mas bonito tem que ser o conteúdo”, considera. O grande nome do boxe brasileiro nos anos 1960 reclama da falta de respeito e disciplina do passado, do tempo de mais cartas escritas à mão. “Na minha época, o professor era uma autoridade”, diz, saudoso.

O papel da gestação byte

Eles têm 18 anos, dominam novas tecnologias, fazem uso das redes sociais, são cheios de amigos e seguidores virtuais e, ainda assim, não abrem mão de correspondências mais pessoais. Lucas Arreguy Amado Correa Araújo, em Ituiutaba, no Triângulo, e Bernardo Tadeu Ferreira Valério, de BH, amigos de infância, trocam cartas manuscritas desde que se distanciaram, em 2010. “Quando vim de mudança para Ituiutaba, sem acesso às redes sociais, disse por telefone aos meus amigos que escreveria para não perder o contato. O Bernardo foi quem mais correspondeu”, diz Lucas.

O estudante, apaixonado pela escrita, prepara-se para ser jornalista. “Dizem que o papel vai acabar. Não acredito. Além do mais, o conteúdo de credibilidade vai sempre precisar de um profissional especializado”, considera. Lucas conta que desde criança gosta de escrever à mão. Avalia que a internet expõe muito as pessoas e revela não achar a menor graça em ferramentas como o Instagram. “A pessoa tira uma foto do prato que vai comer e coloca na internet…”

A 685 quilômetros, Bernardo, estudante de engenharia química, elogia a atitude do amigo. “Até escrevo pouco. O Lucas escreve mais. Ele gosta mesmo de escrever. A gente não tinha rede social quando começamos com as cartas, e interurbano era muito caro”, diz.

Embora não abandone o papel, Lucas, do Triângulo, vem aproveitando as redes sociais para fazer o que mais gosta: escrever e manter-se próximo dos amigos. “Criamos um grupo. Somos sete: Bárbara, Carol, Mariana, Guilherme, Hugo, Bernardo e eu. No grupo do Facebook, trocamos informações sobre leitura. A Bárbara tem até postado os capítulos do livro que ela está escrevendo”, conta. Para o futuro jornalista, a tecnologia só distancia as pessoas quando não é bem usada.

A mãe de Lucas, Myriam Arreguy Araújo, de 54, também faz uso regular dos Correios. A funcionária pública aposentada é exemplo de amizade e carinho com as letras. Longe do filho Fábio Arreguy Amado, de 26, em Belo Horizonte, Myriam sempre que pode mata um pouco da saudade na ponta dos dedos. “O papel carrega mais sentimento… tem mais de você nas letras e no papel. Recebo menos cartas do que envio… Às vezes escrevo uma carta e a pessoa me liga…”, sorri, conformada.

Na capital, Fábio, o filho de Myriam, revela ter muito carinho pelas cartas que recebe. “Vem carregada de sentimentos. É uma emoção indescritível. Sinto-me mais querido e a linguagem das cartas me agrada muito”, comenta. Ele diz ter mais inspiração na escrita à mão e na máquina de escrever – tanto que, em casa, tem duas. Com alguns capítulos escritos, espera em breve poder publicar o romance ainda guardado na gaveta.

Enquanto isso... menos cartas, mais telegramas

Estima-se que no mundo a redução do envio de cartas manuscritas na última década seja de 8%. No Brasil, os Correios não têm dados sobre cartas manuscritas. Mas a empresa registra grandes crescimentos em outros nichos. Do tráfego de encomendas do e-commerce, a ECT transporta cerca de 40% de tudo que é vendido pela internet no Brasil. Outro segmento em que os Correios registram crescimento significativo é o de telegramas e cartas via internet. É possível hoje redigir uma carta diretamente no site dos Correios, que se encarregam de imprimi-la em uma agência próxima ao destinatário e fazer a entrega, mais rápida e com menos custos logísticos. O V-Post, que permite que processos sejam digitalizados, transportados e entregues pelos Correios, é outro serviço que já vem sendo usado pelos tribunais em todo o país.


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