
O tiro fulminante disparado na cidade de Dallas, no Texas, mergulhou a América no luto, ecoou mundo afora e deixou os mineiros comovidos e prontos para reverenciar a memória de John F. Kennedy (1917–1963). O assassinato do primeiro e único presidente católico dos Estados Unidos (EUA) – data fatídica completou ontem 50 anos, curiosamente também uma sexta-feira – teve missas de sétimo dia celebradas em várias igrejas da capital e homenagem em instituições públicas. Em 28 de novembro de 1963, às 9h, a Igreja de São José, no Centro, ficou com os bancos ocupados durante a celebração eucarística – missa de réquiem – presidida pelo vigário geral da Arquidiocese de BH, monsenhor José Augusto Dias Bicalho. Ao lado, o padre Pascoal, da congregação redentorista.
Conforme reportagem do Estado de Minas, em 29 de novembro daquele ano, a celebração na Igreja de São José teve momento de grande emoção, sendo entoado, ao final, o canto de exéquias Libera me domine (Livrai-me, Senhor), o que fez muita gente “não conter as lágrimas”. Estavam lá “dos mais humildes às mais ilustres figuras da sociedade mineira, ficando repleto o templo de autoridades civis e militares, representantes da indústria, comércio, círculos financeiros, quadros políticos, meios culturais, do governo do estado e de outras nações”. As músicas, a cargo do coral São José, tiveram a regência do maestro Afrânio Lacerda. Para quem não pôde estar presente, a missa foi transmitida ao vivo pela TV Itacolomi e Rádio Guarani, dos Diários Associados.
“Naquela época, o presidente John Kennedy era o homem mais poderoso do mundo”, diz o professor Aluísio Pimenta, de 90 anos, então reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lúcido, ele diz se lembrar bem daqueles tempos. “Houve muitas manifestações de pesar pelo assassinato em Dallas e de solidariedade à família Kennedy. Era importante o reitor de uma instituição como a UFMG estar presente à missa”, afirmou o hoje professor aposentado, que criou a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e foi ministro da Cultura.
HOMENAGENS
Nos dias seguintes a 28 de novembro houve 10 missas em intenção da alma de John Kennedy, com publicação de anúncios fúnebres nos jornais – na Igreja São José esteve presente o cônsul dos EUA, Edmund Albin Silveira, que recebia as condolências. No mesmo templo, houve outra celebração eucarística, desta vez diante do altar do Sagrado Coração de Jesus, presidida pelo padre jesuíta José Cândido de Castro.
Há registro ainda de missas na capela do Palácio da Liberdade, na Praça da Liberdade, mandada celebrar pelo governador Magalhães Pinto; na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, por iniciativa dos padres e paroquianos; na Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, por solicitação do senhor Alan Roberts; e na Basílica do Santo Cura D’Ars, no Prado. No dia 30, foi a vez de a capela do Palácio Cristo Rei, da Cúria Metropolitana, abrir as portas para missa a pedido do American Field Service e colônia norte-americana. A comunidade judaica também rendeu homenagens ao presidente na sinagoga da Associação Israelita Brasileira, tendo à frente o grão-rabino Istvan Veghazi.
sétimo dia O psicólogo e educador Raimundo Nonato Fernandes, de 85 anos, aposentado, também guarda lembranças tristes. “Fui à missa de sétimo dia, celebrada por frei Inocêncio, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Kennedy era um presidente católico e fomos rezar pela alma dele e em solidariedade à viúva, Jacqueline, e os filhos”, conta.
Ele lembra que John Kennedy estudou na Universidade Harvard, em Boston, onde “tive a oportunidade de fazer um estágio na época do Instituto Superior de Educação, criado na década de 1970 e depois extinto”. Enaltecendo a figura do líder assassinado, Raimundo afirma que o episódio foi um trauma para todo o mundo. “Repercutiu em todo os cantos, pois o presidente norte-americano era uma figura imbatível.”

Na semana da tragédia, o governador Magalhães Pinto descansava em Guarapari (ES) e, nesse dia, tinha transferido o gabinete por algumas horas para Aimorés, no Vale do Rio Doce. Foi quando soube da tragédia em Dallas. De imediato, decretou luto oficial de cinco dias. Na Assembleia Legislativa, a sessão foi suspensa às 17h e o deputado José Maria Magalhães encaminhou à mesa diretora pedido para envio de voto de pesar ao consulado norte-americano em BH e à embaixada.
Na sua cobertura, o EM mostrou, em reportagem: “Repercute intensamente em Minas a morte de Kennedy”. Em entrevista, o então presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, desembargador José Alcides Pereira, destacou o homem que viveu para a Justiça e o direito: “Não tenho dúvida em afirmar que a humanidade perdeu uma de suas maiores figuras e a democracia universal, um dos seus maiores líderes”. O Diário da Tarde saiu com edição extra às 20h, que se esgotou rapidamente.
No ano seguinte, por iniciativa do consulado dos EUA, foi celebrada missa de um ano de morte na Catedral da Boa Viagem, pelo então bispo de BH, dom Serafim Fernandes de Araújo. Na Igreja dos Sagrados Corações, no Bairro Padre Eustáquio, os vicentinos rezaram e lembraram o 22 de novembro de 1963. Houve uma exposição com fotos, revistas e livros no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e os estudantes tiveram mais uma opção de curso de engenharia com a abertura da Faculdade Kennedy.
Já em 28 de agosto, a Câmara Municipal autorizou o Poder Executivo a dar o nome de Presidente John Kennedy à primeira rua, praça ou avenida a ser aberta na capital. No entanto, isso só ocorreu oficialmente em 1968, depois que o irmão de John, senador Robert Kennedy (1925–1968) foi também assassinado. Uma via do Bairro Cidade Nova, na Região Nordeste, passou então a se chamar “Irmãos Kennedy”. Há duas ruas Kennedy em BH, uma no Bairro São Bernardo, na Região Norte, e Olhos D’Água, no Barreiro. Mas os moradores dessa segunda via pública reclamam: “O presidente dos Estados Unidos foi um homem tão importante e não há uma placa com o nome dele, que só aparece mesmo quando chegam as contas”.
SAIBA MAIS: UM LÍDER CARISMÁTICO
John Fitzgerald Kennedy nasceu em 29 de maio de 1917 em Brookline, no estado de Massachusetts, Estados Unidos. Era filho de Joseph Kennedy e Rose Fitzgerald, rica família católica, e o casal teve nove filhos: Joseph Jr., John, Rosemary, Kathleen, Eunice, Patricia, Robert, Jean e Edward. Muito ligado à família, o 35º presidente dos Estados Unidos sabia como atrair as atenções e deixou uma frase, proferida no seu discurso de posse em 20 de janeiro de 1961: "Não perguntem o que seu país pode fazer por vocês; perguntem o que vocês podem fazer por seu país. Meus colegas cidadãos do mundo: não perguntem o que a América pode fazer por vocês, mas o que, juntos, podemos fazer pela liberdade do homem”. Um dos pronunciamentos mais famosos de todos os tempos dava início a um mandato curto no tenso período da Guerra Fria. Pouco mais de mil dias depois de chegar à Casa Branca, tiros de fuzil transformaram Kennedy em mito.
LINHA DO TEMPO
1963: Em 22 de novembro, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, morre assassinado em Dallas, no Texas
1963: Em 22 de novembro, o governador de Minas, Magalhães Pinto, decreta luto oficial de cinco dias. Decreto é assinado em Aimorés
1963: Em 22 de novembro, às 17h, é suspensa a sessão na Assembleia Legislativa. Deputado José Maria Magalhães encaminha à mesa pedido para envio de voto de pesar à embaixada norte-americana
1963: Em 28 de novembro são celebradas missas de sétimo em BH em intenção do presidente Kennedy, uma delas na Igreja São José, no Centro
1963: Comunidade judaica participa de celebração na sinagoga da Associação Israelita Brasileira, em BH
1963: Em 10 de dezembro, na Basília de Lourdes é celebrada Missa de Réquiem, com cantos litúrgicos
1964: Em 23 de novembro, por iniciativa do consulado dos Estados Unidos, é celebrada na Catedral da Boa Viagem, por dom Serafim Fernandes de Araújo missa de um ano de morte de Kennedy
1964: Câmara Municipal autoriza em lei ao Executivo a dar o nome de Presidente John Kennedy à primeira rua, praça ou avenida a ser aberta na capital
