
A difícil disputa por um lugar nas vias públicas de Belo Horizonte ainda é desfavorável ao ciclista, personagem mais frágil no trânsito em relação a outros veículos. Prova disso são os números de atendimentos a vítimas de acidentes de trânsito no Hospital de Pronto-Socorro (HPS) João XXIII, em Belo Horizonte. Na unidade referência em politraumatismo, a média mensal de acidentados passou de 25 em 2011 para 28 neste ano. Enquanto há dois anos 307 pessoas que se envolveram em acidentes com bikes deram entrada no hospital, até outubro de 2013 foram 280. Se a média se mantiver, o ano vai terminar com pelo menos 336 vítimas, somando novembro e dezembro.

Em um dos seus deslocamentos com a bicicleta, o estudante Gabriel Junqueira Lima, de 24 anos, quase sofreu um acidente ao ser “fechado” por um carro. “Já briguei com dois motoristas por desrespeito ao meu direito de andar na rua. Nesse caso específico, o condutor me ameaçou com uma ultrapassagem forçada e depois freou bruscamente”, lembra. O estudante usa a bicicleta diariamente para ir de casa, no Bairro Anchieta, à universidade, no Cruzeiro, ambos endereços na Região Centro-Sul, e diz que faz questão de usar equipamentos de segurança para se proteger.

PONTO CRÍTICO
O uso da bicicleta é viável em Belo Horizonte?
Carlos Cateb
que participou da elaboração do Código de Trânsito Brasileiro (CTB)
Sim
“O uso da bicicleta é legal e necessário e qualquer cidade do mundo precisa dela. Em Belo Horizonte, onde o trânsito está um caos, o transporte por bicicleta iria, sem dúvida, melhorar muito os deslocamentos. Também traria uma melhoria significativa para o transporte coletivo, que é precário. Além disso, a bicicleta é prática e boa para a saúde. Mas para ganhar adesão precisa superar limitações. Em BH falta educação por parte dos motoristas. A cultura do condutor é de não respeitar ninguém. Motorista de táxi, então, nem se fala. Por outro lado não há nenhuma fiscalização e orientação de trânsito. BH é nota zero em termos de orientação de tráfego. Além disso, há as questões do relevo, com muitas subidas e descidas. Sem dúvida nenhuma é uma limitação objetiva, porque o grande número de ladeiras realmente desanima às vezes. Mas existem trechos planos, que podem ser aproveitados.”
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José Aparecido Ribeiro
especialista em trânsito, transportes e assuntos urbanos
Não
“O plano de mobilidade de BH foi adaptado do planejamento de Bogotá, na Colômbia, mas diferentemente de lá, que é uma cidade plana e com temperatura média de 17 graus, as condições climáticas e a topografia aqui inviabilizam o uso da bicicleta. Não é porque o cidadão não queira usá-la como meio de transporte, mas sim porque não encontra condições para aderir. Outro problema é o espaço da cidade, onde são emplacados 250 carros diariamente. A disputa é ruim para todos, mas principalmente para o ciclista, que corre mais riscos. Eles ainda são uma minoria e não vejo perspectiva de aumentarem. O projeto não emplacou. Acho que esse número pode crescer, mas para uso com finalidade de lazer e não para os deslocamentos do dia a dia. A solução para os problemas da cidade é investir no transporte público de massa e fazer obras para ampliar as vias que ligam regiões, criando novas rotas de trânsito para eliminar gargalos.”


