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Estado de Minas FERAS DOMADAS E ADOTADAS

ONG promove ressocialização de cães ferozes

Cães ferozes podem ser domados e merecem uma segunda chance até mesmo para adoção


postado em 29/10/2013 06:00 / atualizado em 29/10/2013 07:18

"O animal é reflexo do dono. Se não der carinho e respeito, ele fica agressivo" - Carlos Araújo de Souza, que adotou a cadela Shakira, encontrada na rua e ressocializada (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

 

Eles estão soltos pelas ruas de Belo Horizonte e, para muitos, são uma ameaça. Mas, para outros, os cães ferozes podem ser domados e merecem uma segunda chance. Pensando nisso, o diretor de uma organização não governamental encontrou uma brecha em uma lei municipal para salvar os pit bulls recolhidos pela prefeitura. Já um agente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) usa o tempo livre no trabalho para ressocializar cachorros de grande porte encontrados em estado agressivo nas ruas. O desafio é achar quem enfrente o medo de um possível ataque e aceite abrigá-los.

Funcionário do CCZ, William Gonçalves conseguiu reabilitar um pit bull que matou o próprio dono. “Não é nada demais. Só trabalho com o comportamento animal. Não tem segredo”, diz o agente de endemias do CCZ, que faz recolhimento de cães de rua. Desde que passou no concurso público, em 2008, ele começou o trabalho paralelo de ressocialização. Já são 38 animais reabilitados, dos quais muitos ganharam novo lar. “Respeito aos animais é algo novo no Brasil, não está na nossa cultura ainda”, conta ele, que tem apenas o ensino médio completo, mas é perito em psicologia canina. Para isso, foi preciso força de vontade. O incentivo veio do curso de formação oficial de controle animal, que tratou de ética com os cães. Foi o pontapé inicial para a busca de bibliografias em livrarias e sebos.

Os cães grandes agressivos devem ser levados para eutanásia se o dono não aparecer em três dias. Mas aqueles em que William vê potencial de melhoria ficam no CCZ, inclusive os que atacaram outros animais ou donos. Ele explica que a maioria dos rotweillers, dogos argentinos, filas e pastores alemães recolhidos eram de uma família com posse responsável. “Quando a emoção de ter um cão desses passa, o dono o confina em uma corrente ou canil e o deixa isolado”, diz. Acuado e sem contato, o animal sente a necessidade de ser líder, pois não tem mais a figura que o comanda. “Ele entra em estado de alerta. É instinto do animal de grande porte. Preso, ele avança para se defender. São soltos nas ruas muitas vezes após maus tratos”, conta.

Segundo William, 80% dos cachorros recolhidos foram ressocializados. Bastam técnicas de comportamento. William passeia com eles pelo pátio, impõe disciplina e dá carinho: “Em casa, as pessoas só dão carinho e perdem o controle do cão”, diz. O processo pode levar até dois anos. O agente conseguiu socializar até cães que procriam na natureza e se alimentam de restos de comida e de pequenos animais, sem contato com pessoas.

ADOÇÃO Depois da ressocialização, vem a parte mais difícil: convencer as pessoas de que o cão não é mais agressivo e pode voltar a viver em um lar. Mas, segundo William, a aceitação aumentou depois que ele começou o trabalho no CCZ. O marceneiro Carlos Araújo de Souza não se arrepende de ter adotado Shakira, a dogo argentino de 4 anos, hoje o xodó da casa. “Ela avançou em mim quando cheguei perto da grade para conhecê-la. Percebi que ela queria apenas defender o território”, conta. Bastaram 10 minutos de convívio para que ela aceitasse sua presença. “Ela é dócil e brincalhona”, diz.

O mesmo aconteceu com o rotweiller Leão, de 6 anos, recolhido na rua. Há nove meses, o motorista Bruno Santos queria um cachorro para vigiar seu sítio. “Fiquei amigo dele antes de levá-lo. Sabia que foi agressivo e era aparentemente assustador. Mas hoje é superdócil”, lembra. Até seus filhos, de 1 e 4 anos, brincam com Leão.


Uma chance para pit bulls

A Lei Municipal 8.354, de 2002, proíbe propriedade, importação, adoção, comercialização, criação e manutenção de pit bulls em BH. Por isso, cães da raça que chegam ao Centro de Controle de Zoonoses são sacrificados. Alguns, no entanto, permanecem durante processos na Justiça. William e seu colega de trabalho Sidnei Giovane não perdem tempo. O pit bull que matou o próprio dono e outro que matou uma poodle hoje são dóceis. “Eles são enérgicos, precisam se exercitar, senão explodem. Não foram feitos para atacar pessoas, mas para rinhas. Não gostam é de outros cachorros”, explica.

Os veterinários do CCZ decidem quais animais treinados por William podem ser adotados. Se não fosse a lei, ele indicaria alguns pit bulls. Mesmo sabendo que o provável caminho é a eutanásia, Giovane faz desse tempo deles vivos o melhor possível. “A gente sabe do destino, mas faz o trabalho. É válido ocupar a mente com coisa boa”, diz.

O diretor da ONG Resgate Animal, Filipe Soldati, quer mudar a história desses pit bulls. Ele encontrou uma brecha na lei: o parágrafo que permite doação apenas para fins acadêmicos. Ele se reuniu com representantes da Secretaria Municipal de Saúde e fez acordo verbal para ficar com os cães recolhidos para estudar o comportamento. Soldati só espera o CPNJ da ONG para entrar com petição na prefeitura. Segundo a parceria, ele não poderá doar os animais para ninguém. “Quero pegar esses cães e fazer a ressocialização. A ideia é que a prefeitura faça acompanhamento mensal e dê ajuda de custo”, conta. O voluntário, que já tem nove pit bulls, pretende também entender por que eles se tornam agressivos em alguns momentos. A secretaria confirmou o pedido, mas não informou se ele foi aceito.

 


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