Mateus Parreiras
Enviado especial

Manhuaçu e Viana (ES) – A multidão de curiosos ficou admirada com o caminhão que tombou com a carga de enlatados a um metro do abismo. Para não bater num carro que fazia ultrapassagem proibida numa curva no km123 da BR-262, em Conceição do Castelo (ES), o motorista jogou o veículo de 15 toneladas no mato, porque não havia acostamento ou área de escape. “Esse (motorista) foi herói. Jogou com a sorte. Se fosse eu, batia para não morrer, passava por cima”, afirmou um carreteiro antes de deixar o local do acidente, na última quinta-feira.
A demora na revitalização da estrada traz consequências trágicas. Em 2011, só trecho urbano de Manhuaçu, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) registrou acidentes com sete mortes e 57 feridos nos kms 29, 33 e 34 do perímetro urbano. Rotina que não mudou, segundo o técnico agrícola Osseny Pinel, de 31 anos, que trabalha numa loja de equipamentos agropecuários.
Para mostrar os perigos e gargalos enfrentados por quem se aventura pela estrada, uma das principais rotas dos mineiros que passam férias no litoral do Espírito Santo, a reportagem do Estado de Minas percorreu 375,6 quilômetros da 262, entre João Monlevade, no Vale do Aço, e Viana, na Grande Vitória. O edital que fracassou determinava que 188,8 quilômetros fossem duplicados pela concessionária vencedora, restando ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) o resto da ampliação. A via tem traçado antigo e sinuoso em alguns trechos, com poucos pontos de ultrapassagem e com terceira faixa. Além disso, a rodovia se mistura ao perímetro urbano em Manhuaçu e Martins Soares e no Espírito Santo (Venda Nova do Imigrante, Ibatiba e Viana).
E é logo no começo, quando a 262 deixa de integrar a Rodovia da Morte (BR-381), e segue para o litoral capixaba, a partir de um trevo de Monlevade, que os riscos de acidente surgem, em trechos em que a ampliação e conservação são urgentes. Os primeiros metros da estrada passam sob um viaduto em péssimo estado de conservação, usado por quem vem da 381, sentido BH, e quer pegar a 262.
Os guarda-corpos da ponte, feitos de peças pesadas de concreto, estão amarrados precariamente com uma gambiarra de bambu e arames para não despencar sobre os veículos que passam a 6 metros, na pista abaixo. Quando passam carretas rodotrens e bitrens, algumas com mais de 30 metros de comprimento, a estrutura inteira balança, dando a impressão de que vai cair, fato que já ocorreu numa das cabeceiras, mas os destroços foram parar no canteiro.
A pista simples é pior no lado mineiro da estrada. Há pelo menos três pontos onde existem erosões abertas por chuva há dois anos e que podem avançar sobre a pista. Um deles está no km 194, em Bela Vista de Minas, com 48 metros de comprimento e 4 metros de profundidade. O buraco já engoliu o acostamento e parte da pista no sentido Monlevade. Obstáculos como esse deixam alunos das comunidades rurais apavorados, porque precisam embarcar nos ônibus diariamente para ir à escola. É o caso de Alef Vinícios Silva Santos, de 14 anos, morador de Buraco Sabino, em Bela Vista de Minas. “A gente fica muito assustado, porque a rodovia já é apertada para tantos caminhões. Com os buracos (erosões), eles (caminhoneiros) jogam o veículo para cima da gente e quase batem no ônibus”, conta. O garoto precisa andar por uma trilha no meio do mato por 20 minutos, mas é da estrada que ele tem mais medo. “Não gosto de andar pelo acostamento. As carretas descem muito rápido e quase levam a gente embora com o vento”, disse o adolescente.
DEFESA DO PEDÁGIO A duplicação é um dos benefícios que o leilão traria, a partir do segundo ano de concessão. Muitos caminhoneiros dizem não se importar de pagar pedágio. “Compensa pagar sim. Essa rodovia é estreita demais. Se não conhecer bem as curvas e o traçado, pode cair numa canaleta, tombar e morrer. Se escapar, ainda tem o prejuízo, os dias parados”, disse o caminhoneiro capixaba Fábio Júnior da Silva, de 25 anos, que viajava com a mulher, Angelina Friederich, de 21.
O temor que Fábio Júnior tem de sofrer acidente virou realidade para outro carreteiro, Amarildo Vingler, de 49. O veículo dele sofreu pane e, como não há acostamento no km 156, ele teve de jogar o caminhão com carga de granito na valeta para não bater em outros veículos. “Estava quase perdendo o controle. Se não me jogasse na vala, poderia ter atingido os carros que estavam passando perto”.
O tráfego de veículos pesados faz muitos motoristas arriscarem manobras imprudentes. O desrespeito ao limite de velocidade é outro perigo. No km 91, o trecho que antecede o trevo de Serecita tem limite de 60 km/h para regular o fluxo de veículos que acessam a passagem e dos que seguem a rodovia. No entanto, a maioria trafega acima de 80 km/h. Em apenas 20 minutos de medições com um radar, a reportagem flagrou carros e motos chegando a 100 km/h, ou 67% acima do permitido.

