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Estado de Minas

Conversa de JK e Niemeyer em exibição no Palácio da Liberdade

Entre as atrações da mostra Memórias e histórias, diálogo entre Juscelino e o arquiteto encena detalhes do projeto para construir o Palácio das Mangabeiras


postado em 27/07/2013 06:00 / atualizado em 27/07/2013 07:17

 

A suntuosidade do prédio, concluído em 1897, foi transformada em cenário para contar passagens da política mineira. O velho telefone revela confidências de Juscelino Kubitschek com o amigo Oscar Niemeyer(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
A suntuosidade do prédio, concluído em 1897, foi transformada em cenário para contar passagens da política mineira. O velho telefone revela confidências de Juscelino Kubitschek com o amigo Oscar Niemeyer (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)


O uso da tecnologia e da interatividade na exposição Palácio da Liberdade – memórias e histórias reserva uma surpresa em cada cômodo e dá vida à história política de Minas. Na Sala de Audiências, ao retirar um telefone antigo do gancho, o visitante pode ouvir uma conversa entre Juscelino Kubitschek e o arquiteto Oscar Niemeyer, que estava no Rio de Janeiro. “Pronto”, atende Niemeyer com voz de sono. “Oscar, dormindo ainda, meu amigo?”, quis saber o governador. “Você não perde essa mania, Juscelino. Eu não sei como seus auxiliares e secretários suportam esses telefonemas de manhãzinha. Que horas são?”, quer saber o arquiteto. “Sete horas”, responde JK, que governou Minas entre 1951 e 1955 e depois se elegeu presidente da Republica.

“Eu não podia mais esperar. Precisava falar contigo”, justifica o governador, que queria conversar sobre a construção do Palácio das Mangabeiras, pois não podia mais morar com a família no Palácio da Liberdade, onde recebia um chefe de partido com as meninas brincando de esconde-esconde atrás das cortinas. “A minha ideia é reformar uma construção que já existe lá no pé da Serra do Curral e ela vai ser a nova morada dos governadores mineiros”, diz Juscelino na conversa.

No Salão do Banquete não há imagens, apenas o burburinho de uma reunião em que Arthur Bernardes, que administrou o estado entre 1918 e 1922, discute as decisões do seu governo. Na Sala de Jantar, a conversa durante a refeição da família de Israel Pinheiro é sobre a construção do Palácio dos Despachos no terreno nos fundos do Palácio da Liberdade, onde ficava o pomar. Na imagem da mesa com o governador comendo goiabada com queijo, junto da mulher, Coracy, da filha, Helena, e do genro, o jornalista Otto Lara Resende, surge de um quadro com flores. Coracy lamenta a retirada de uma jaqueira e de um pé de sapoti para construção do prédio.

João Pinheiro aparece no Salão das Medalhas. Itamar Franco em um risque e rabisque sobre a mesa do gabinete oficial do governador. No lugar do papel, uma tela de computador. Uma mão vai desenhando caricaturas dele e episódios de sua carreira política. Milton Campos surge no espelho da Sala da Secretaria, em uma animação do cartunista Paulo Caruso. A Sala do Assessor Especial ficou para Magalhães Pinto, que surge do nada no espelho do vidro do guarda-roupa antigo, assim como Afonso Pena, na recepção do cerimonial. Na Sala dos Retratos, a pessoa entra na sala e a foto de Antônio Carlos começa a falar, em meio a outros 43 governadores.

A nova capital

(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Também chama a atenção uma mesa de centro com uma fotografia de Bias Fortes, que governou o estado de 1894 a 1898. Ele fala do traçado geométrico de Belo Horizonte, a nova capital de Minas, bem ordenado e que seguiu os padrões da higiene pública da época. “É por isso que as ruas são largas e se cruzam transversalmente, criando quarteirões regulares.” Numa tela aparece o mapa da cidade, com capacidade para acomodar até 200 mil habitantes, segundo o texto. “Ah, e antes que seja tarde. Eu sou Chrispim Bias Fortes, presidente de Minas e primeiro morador do Palácio da Liberdade”, prossegue o texto. No banheiro do quarto , quem surge de repente no espelho é Olegário Maciel, governador de 1930 a 1933. “Não se assuste”, diz ele ao visitante, para em seguida contar sua história. No closet, Wenceslau Brás surge no espelho original. A imagem é refletida por um projetor. Governante entre 1908 e 1910, ele aparece como se estivesse diante do espelho, porém do outro lado, ajeitando o seu terno e falando sobre sua vida.


Onde as paredes falam

A primeira vez que o curador e diretor artístico Marcello Dantas entrou no Palácio da Liberdade, para começar a planejar o museu, ele disse: “Meu Deus do céu, não tem nenhum centímetro livre, nenhum espaço para nada. Está todo completo”. Segundo Marcello, qualquer intervenção seria uma agressão à história do lugar. Mas com o auxílio dos recursos tecnológicos, os objetos e móveis seriam capazes de contar toda a história que aconteceu no interior do palácio. “Preciso fazer com que as paredes falem, que esses móveis nos deem sinais, mas sem mudar nada, preservando as características originais, uma exposição invisível. E deu certo, a obra parece se infiltrar na pessoa quando ela se aproxima, vazando dos poros da parede”, conclui o artista.

Outro problema, segundo Dantas, era falar da primeira metade do século 20, com pouquíssimas evidências, em alguns casos nada mais do que uma foto de determinado governador. Ele recorreu, então, ao recurso da animação, de simulação, dramatização com atores e documentários, entre outros efeitos especiais. “Quando você assiste ao filme do Aureliano Chaves, parece que você está vendo um vídeo da época da ditadura. Você olha o Tancredo Neves com o linguajar televisivo dos anos 80. As coisas mais antigas a gente trata mais na primeira pessoa, como se o político estivesse aqui dando um depoimento. A gente não tinha uma linguagem audiovisual para interpretá-lo. Afonso Pena, do século 19, a gente retrata com um ator simulando uma situação daquela época. Uma partitura ganha vida com uma música que a gente compôs com a história de Benedito Valadares e ele surge em cima do piano dançando”, explica Marcello.

Em determinadas situações a exposição se assemelha a contos de fadas, com um espelhos que falam, fantasmas e espectros que surgem de repente. “Vários políticos morreram aqui, como Olegário Maciel, morto no banheiro onde o fantasma dele ganha vida no espelho e começa a interagir quando o visitante se aproxima”, destaca o artista.

Na mostra, as pessoas ficam sabendo também da história das ruas e avenidas que receberam nomes dos governadores. Um mapa surge sobre um suporte de madeira, o visitante encosta o dedo no nome da via e um vídeo surge em um quadro em frente, com imagens antigas e atuais, explicando quem foi a pessoa homenageada.

Espaço compartilhado

Para a Secretária de Estado de Cultura, Eliane Parreira, “o Palácio da Liberdade viu muitos acontecimentos históricos, fatos decisivos na vida política de Minas Gerais. Vamos compartilhar esse espaço com a sociedade”, disse, ressaltando a riqueza arquitetônica do prédio. “A gente entendeu que também poderia ter um conteúdo da história política do estado disponível nas visitas. O grande desafio foi conciliar a arquitetura e a decoração, sem perder a definição da natureza dos espaços. A exposição não tira mobiliário do lugar, não desmonta nada”, disse. Ela lembra que 10 guias vão acompanhar os visitantes. A entrada será gratuita.

SAIBA MAIS: OBRAS DURARAM DOIS ANOS
A construção do Palácio da Liberdade, em estilo eclético, com influência francesa e neoclássica, demorou dois anos. A sede do governo de Minas foi inaugurada em 1897. Materiais como telhas, ferragens e a escadaria vieram da Europa. O estilo do mobiliário varia do Luís XVI ao mourisco e ao art nouveau. Uma curiosidade é a Sala da Rainha, da década de 1920, quando o rei e a rainha da Bélgica visitaram BH e ficaram hospedados no palácio. O governador cedeu seus aposentos aos reis e se hospedou em outro quarto. O investimento no museu foi de R$ 1 milhão, parceria do governo com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).


TRÊS PERGUNTAS PARA...
MARCELLO DANTAS, Diretor Artístico e curador

1) Como você conseguiu transformar um Palácio num museu aberto?
Minha missão era transformar um lugar desenhado para ser uma residência de políticos em local de visitação. Não tinha um centímetro sequer ali que não estava ocupado. Havia adornos do chão ao teto. O que resolvi fazer foi dar vida a esses fantasmas, dar vida às paredes que tanto ouviram. Usei a seguinte metáfora: se pudesse ouvir o que esses lugares escutaram, imagine como ficaria interessante o espaço? Aí surgiu o conceito da exposição Palácio da Liberdade: memórias e histórias.

2) O que o visitante verá?
Ao entrar, não verá nada além da arquitetura. Em seguida, à medida que caminhar pelas salas, encontrará vídeos nos quais os governadores já falecidos aparecerão em situações marcantes passadas dentro do Palácio. Verá o Afonso Pena no final do século 19 planejando a Cidade de Minas; mais adiante o Magalhães Pinto dando ordem às tropas para o golpe de 1964, e, depois, ouvirá tocar o telefone surgindo uma conversa de JK com Niemeyer sobre o próprio palácio.

3) Qual foi o critério para escolher os governadores que estarão na exposição?
Como tinha muitas histórias e mais de trinta governadores, optamos por realizar um recorte a partir dos que já morreram. Porque, caso contrário, poderia virar algo político. Outra opção foi retratar aqueles que protagonizaram passagens importantes ali. Muitos fazem parte do nosso cotidiano, viraram nomes de ruas e, hoje, não sabemos sua importância. Haverá, por exemplo, um mapa interativo, no qual o público poderá rever esse significado. A exposição tornará a visita, que era arquitetônica, num encontro com a história de Minas

 

 

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