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Estado de Minas NAS RUAS CONTRA A DITADURA

Nossa história: estudantes do Brasil decidiram em 1977 enfrentar repressão militar

Depois de confronto e violência, 1,2 mil foram presos


postado em 22/06/2013 00:12 / atualizado em 22/06/2013 07:41

Sandra Kiefer

 

Os líderes universitários se reuniram no câmpus da Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, de onde saíram para a cadeia, após enfrentar forte aparato da Polícia Militar, que cercou toda a área(foto: Arquivo EM)
Os líderes universitários se reuniram no câmpus da Faculdade de Medicina da UFMG, em Belo Horizonte, de onde saíram para a cadeia, após enfrentar forte aparato da Polícia Militar, que cercou toda a área (foto: Arquivo EM)

Exatamente como hoje, as férias escolares ainda não haviam chegado. Era junho. Numa madrugada, começaram a aportar em Belo Horizonte ônibus de todas as partes do país. Vinham lotados de jovens, inscritos no 3º Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), que deveria ocorrer no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Naquele ano, 1977, os universitários tentariam reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE), dissolvida em 1968 pelo regime militar.

Até o estouro de manifestações da juventude brasileira este mês, o dia 4 de junho de 1977 era o marco do último grande protesto de estudantes em Belo Horizonte a terminar em confronto com a polícia. Na época, o saldo foi de cerca de 1,2 mil estudantes presos e quase uma centena indiciada com base na Lei de Segurança Nacional. A movimentação deixou o Centro de Belo Horizonte sitiado, o comércio fechado e a população paralisada, assistindo à resistência pacífica dos universitários ao regime verde-oliva.

“Não estou dizendo que a nossa manifestação era melhor ou pior que a de hoje, mas era diferente. Naquele momento, éramos um movimento de estudantes com suas representações, que defendiam a melhoria do ensino dentro de um processo maior de redemocratização do país. Penso que os protestos atuais são mais de jovens do que de estudantes. Tanto é que a reivindicação sobre o transporte público atende todas as categorias e não só os estudantes”, compara Laís Abramo, de 59 anos, diretora para o Brasil da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

RENDIÇÃO Na década de 1970, aos 23 anos, a filha de Perseu Abramo, então jornalista da Folha de São Paulo perseguido pela ditadura, participava da corrente Refazendo, que recriou o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo (USP). No dia seguinte, Laís embarcou mais cedo para o ENE, na capital mineira. Em vez de vir de ônibus, como a maioria dos estudantes, pegou carona em um Fusca. Com isso, escapou das barreiras montadas pelos militares na estrada e, portanto, de ser presa.

 “Na manhã seguinte, eu e o Mercadante (Aloizio, atual ministro da Educação), colega do curso de economia, saímos andando pelas ruas, procurando outros estudantes. Acabamos em uma igreja, que também foi cercada pela polícia, mas o padre negociou a rendição dos estudantes e ninguém foi preso”, relembra a então aluna de ciências sociais.


Prisões abarrotadas

Entre os universitários reunidos na Faculdade de Medicina da UFMG, na Avenida Alfredo Balena, no Bairro Santa Efigênia, a dispersão foi feita com violência. Os estudantes buscaram abrigo nas igrejas Boa Viagem e São José. Os párocos Bartolomeu Spinoli e Paulo Rigório tentaram negociar a saída dos estudantes da Igreja da Boa Viagem a polícia informou que não faria prisões. Na versão dos jornais da época, a promessa não foi cumprida. Entre os detidos estava Aloízio Mercadante.

(foto: Arquivo EM)
(foto: Arquivo EM)
Depois disso, a Faculdade de Medicina foi invadida e os estudantes começaram a deixar o local num corredor polonês. Em grupos de cinco, eles deixaram o prédio abraçados e cantando músicas dos compositores Geraldo Vandré e Chico Buarque. Colocados em ônibus de turismo (porque o reitor da UFMG, o médico Eduardo Osório Cisalpino, não concordou que fossem em camburões), foram conduzidos ao Parque da Gameleira.

Cerca de 100 estudantes foram indiciados e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, entre eles Jânio Bragança, então presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG. “ A polícia cercou a cidade inteira, parecia uma praça de guerra. Encheram todas as cadeias de BH e, como não cabia mais, levaram a gente para o Parque da Gameleira. Passei a noite sentado no chão”, explicou o então estudante de ciências sociais, que se tornou empresário em Itabira, na Região Central do Estado.


LINHA DO TEMPO
– 1968: Em outubro, no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), UNE é dissolvida com a prisão de 700 estudantes
– 1977: No início do ano, universitários fazem tentativa de reorganizar a UNE no câmpus da USP, mas sofrem repressão
– 1977: Novamente em 4 de junho, o 3º Encontro Nacional de Estudantes na Faculdade de Medicina da UFMG, os líderes tentam reconstruir a entidade
– 1977: Em 22 de setembro, na surdina, estudantes da PUC-SP realizam o 3º ENE e aprovam uma Comissão Pró-UNE
– 1979: Finalmente, ocorre o Congresso de Reconstrução da UNE, em Salvador (BA)

 

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