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Estado de Minas

Na Pampulha, moradores de rua buscam sobrevivência


postado em 31/03/2013 00:12 / atualizado em 31/03/2013 07:52

Vanessa soares presta apoio a sem-teto na Praça Iron Marra:
Vanessa soares presta apoio a sem-teto na Praça Iron Marra: "O problema é o álcool" (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A PRESS)
O morador de rua vive sobre uma linha invisível que divide a tolerância e a intolerância. Só que ele não sabe em que lado está uma ou outra e com quem. Por isso, é um ser ressabiado, que sabe o momento conveniente de deixar a agressividade de lado. É, por isso, quase sempre acessível, mesmo porque precisa receber para sobreviver. Wiliam Alves Ribeiro, de 32 anos, e Adalto César de Almeida, de 34, conheceram primeiro o lado da intolerância. Eles são dois dos sobreviventes de uma tentativa de homicídio por envenenamento em maio de 2011, no Bairro Santa Amélia, Região da Pampulha, Norte de BH.

Eles e outros moradores da Praça Engenheiro Iron Marra serviram-se de uma garrafa de cachaça envenenada com chumbinho (produto tóxico para matar ratos). Wiliam, depois dessa experiência, continuou desatento à intolerância e sofreu mais dois atentados. Uma noite, dormia com o namorado, o Warley, de 36, sob uma marquise de um estabelecimento comercial, na praça, quando alguém jogou álcool sobre os dois e ateou fogo. Um taxista apagou as chamas com o extintor do carro, mas Warley não resistiu. Wiliam tem, no dorso, marcas das queimaduras. E não foi só isso.

"Está vendo aqui, ó", diz e levanta a calça para mostrar a panturrilha direita com uma ferida ainda não totalmente cicatrizada. “Um moleque jogou uma garrafa plástica incendiada, enquanto eu dormia. Hoje, durmo com um olho aberto e outro fechado.” E é para compensar as noites maldormidas, em alerta, que invariavelmente são flagrados dormindo durante o dia. Wiliam e Adalto integram um grupo de cerca de 10 pessoas que moram na Praça Iron Marra.

Wiliam, Adalto e os demais moradores da Praça Iron Marra usam carrinho, desses de supermercado, sobre o qual entulham as tralhas: pedaços de espuma, que servem de colchões, cobertores, roupas e têm a companhia de alguns cães. E foi um deles que lhes salvou a vida. “Ganhamos um marmitex e, desconfiados, demos a comida para um dos cachorros e ele morreu.” Mas nem tudo é ruim por ali. O intenso comércio da área aprendeu a conviver com eles. “Não nos incomodam, mas os clientes reclamam muito das abordagens inconvenientes”, diz Marluce Costa, funcionária de um sacolão.

A tolerância dos comerciantes não é a única bênção que recebem. Há moradores interessados em entendê-los e ajudá-los, como a dentista Vanessa Alcântara Soares Dutra, de 46, e o marido, também dentista. “Eles precisam de apoio espiritual e moral. Fazemos parte de uma iniciativa religiosa, o Projeto Francisco, e há um mês os visitamos e conversamos com eles. Aos domingos, fazemos orações e eles participam com atenção e respeito.” O que Vanessa entende é que no plano material o máximo que pode fazer é servir um lanche depois das orações.

"O problema deles é o álcool". São dominados pela bebida. Wiliam tem irmã no Bairro Copacabana e mãe no Bairro Juliana. Adalto é casado, tem mãe em Esmeraldas, mas brigou com o padrasto. A mulher, também alcoólatra, vive em albergue. E não uma oferta oficial de tratamento. E, como a maioria dos moradores de rua, rejeitam os abrigos. “Lá dentro é pior do que aqui fora. É consumo de droga, discussões, bebida. Ninguém consegue dormir”, diz Wiliam.


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