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Estado de Minas

Instituto São Rafael aguarda por tombamento para preservar memória centenária

Prédio mais antigo que a própria capital já abrigou imigrantes, militares, menores e colégio técnico


postado em 09/03/2013 00:12 / atualizado em 09/03/2013 08:11

(foto: Complexo construído em 1894 tem área de 8,5 mil metros quadrados e há 55 ano dá instrução para cegos)
(foto: Complexo construído em 1894 tem área de 8,5 mil metros quadrados e há 55 ano dá instrução para cegos)

Impossível revolver as origens de Belo Horizonte sem passar pela esquina das avenidas do Contorno e Augusto de Lima. Especialmente por endereço do final do século 19, em 1894, no Bairro Barro Preto, Região Centro-Sul. A área histórica de 8,5 mil metros quadrados tem edificação anterior à inauguração da capital (1897) e já abrigou imigrantes, Exército, menores infratores e escola técnica. Desde 1958, o conjunto, inaugurado como Hospedaria dos Imigrantes, por Crispim Jacques Bias Fortes (1847–1917), presidente do estado de Minas Gerais entre 1894 e 1898, abriga uma das escolas de educação especial mais importantes do país: o Instituto São Rafael.


Pela proteção do imóvel secular, especialmente pela relevância do trabalho feito ali com deficientes visuais, o administrador e historiador Carlos Augusto Baldo, de 52, em jornada solitária, reuniu pasta com mais de 200 páginas de documentos – fora batelada de anexos com fotos e cartas de apoio à causa – e percorreu todos os comandos acessíveis da administração pública. Diz ter encaminhado todo o material coletado, em ao menos quatro anos de pesquisa, à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e à Prefeitura de Belo Horizonte.

O voluntário da escola especial para cegos, que, desde 2001, dedica tempo e dinheiro ao propósito de tombamento do bem público, ressalta que não quer aparecer. “Quero apenas que sejam respeitados a memória, em função do processo imigratório; a preservação do patrimônio, um referencial histórico da cidade; e o direito dessas crianças à educação especial”, garante. Baldo, chefe de cozinha, descendente de italianos, conta que o interesse pela história do imóvel surgiu no trabalho voluntário, descrevendo as formas do lugar para seus alunos deficientes. Depois de esquadrinhar detalhes do casarão, o administrador diz ter descoberto que havia muito a ser feito pelo lugar.

DESCASO Na pequena sala do apartamento em que mora, no Bairro Santo Antônio, sobre a mesa, mapas, livros, páginas e mais páginas apuradas para comprovar o que afirma. Documentos com a assinatura de personagens ilustres da cultura brasileira, que corroboram a importância do Instituto São Rafael. Nomes como Monteiro Lobato e Villa-Lobos, de alguma maneira, se encantaram com o trabalho da escola de educação especial. Baldo diz não entender por que o imóvel ainda não foi tombado. Com duas dezenas de cartas de apoio à sua empreitada nas mãos, ele critica as autoridades por falta de vontade em relação ao endereço.

“No Iepha, ouvi que, além da igreja da Pampulha, o Instituto São Rafael seria o único bem com respaldo para ser tombado nas três esferas. O processo está parado porque município, estado e União não se entendem”, lamenta. Para o administrador, é preciso agir rápido “porque, como está, sem estrutura e melhor qualificação profissional de professores e funcionários, é um descaso muito grande.” Em meio ao calhamaço de papéis nas mãos, um volume, em especial, é detalhado pelo historiador. São cópias de documento de 2 mil páginas encontrado na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Nele, relatório do governo Fernando Mello Vianna, publicado em 1926, que fala da importância da fundação do Instituto São Raphael – naquele tempo, escrito com ph.

Entre a luz e a escuridão

“O instituto é tudo o que tenho e sou”. A afirmação, em tom firme e emocionado, é de Juarez Gomes Martins, de 58 anos. Ele, que é deficiente visual, começou como aluno, em 1966, e foi contratado como funcionário da Escola Estadual São Rafael. De lá para cá, tempos de luz, com as amizades, o casamento e os estudos permanentes. Sombras também com as “passagens negativas” da instituição de educação especial. “Quando o internato acabou, em 2005, por causa da proposta de inclusão nas escolas regulares, não foi bom. Antes, a gente podia amparar mais e melhor”, diz.

Para o professor Juarez, a ideia de inclusão não é bem-aceita. Ele explica: “Numa sala com 40 alunos, por exemplo, um professor mal consegue dar aula. Imagine se nesse grupo há um cego. Você acha que ele vai conseguir aprender?” De acordo com o educador, o estado “até tenta” preparar o professor para ter um deficiente em sala de aula de educação regular, mas, infelizmente, não consegue. Há ainda, segundo Juarez, a questão da socialização. “Na maioria das vezes, um cego na educação regular fica isolado”, ressalta.

A opinião ganha voz entre as voluntárias Tatiana Ribeiro do Nascimento, de 36 anos, fotógrafa, e Patrícia Longo, de 59 anos, professora de português. Elas defendem a importância histórica do instituto e criticam a proposta de inclusão, que vem assombrando a escola de educação especial. Tatiana destaca ainda o alcance do instituto, muito além das crianças deficientes em sala de aula. “É importante falar do trabalho feito no São Rafael com os pais, pelo bem das famílias.”


SAIBA MAIS: DECRETO IMPERIAL
No Brasil, o atendimento escolar especial às pessoas com deficiência teve início em 12 de setembro de 1854, com decreto imperial de dom Pedro II. Na ocasião, ele fundou no Rio de Janeiro o Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Foi o primeiro passo no país para garantir à pessoa com deficiência visual o direito à cidadania. Em 17 de maio de 1890, já na república, sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca, novo decreto e nome: Instituto Nacional dos Cegos. Logo depois, em 1891, a escola foi batizada Instituto Benjamin Constant (IBC).


LINHA DO TEMPO
1894: A Hospedaria de Imigrantes abre as portas para abrigar os primeiros agentes da construção de BH.
1897: Em 12 de dezembro é inaugurada a cidade de Belo Horizonte, nova capital de Minas Gerais.
1917: O espaço público passa a funcionar como dormitório de brigadas do Exército Brasileiro.
1926: Fundação do Instituto São Rafael, na Região Central de Belo Horizonte.
1927: Abertura do Abrigo de Menores Afonso de Moraes, no mais antigo endereço do Barro Preto.
1937: O Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet/MG) passa a ocupar o imóvel.
1958: Depois de acordo entre os governos federal e estadual, o Instituto São Rafael ganha o novo endereço.


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