Jefferson da Fonseca Coutinho

Para alguns pode parecer excesso; para outros, é sinal de cuidado e transparência. O fato é que, na onda do monitoramento por meio câmeras, que avança cada vez mais sobre a privacidade de todos, os olhos eletrônicos com acesso on-line agora entraram nas escolas de educação infantil. Essa espécie de “big brother” para audiência restrita de papais e mamães vem ganhando número cada vez maior de espectadores em Belo Horizonte e região metropolitana. Famílias vigilantes, como a dos empresários Idalmir Correa da Silva Júnior, de 32 anos, e Andrea Farhat Maia Benedito, de 24, que acreditam que o sistema de vigilância eletrônica ajuda na compreensão do comportamento de Camille, de 2. “Também ajuda a matar a saudade, já que nossa filha fica o dia todo na escola”, diz Idalmir.
Para Andrea, cabe aos pais consciência e equilibrio em relação ao acompanhamento a distância. A mãe de Camille destaca a ausência de som e o plano aberto, sem closes, em respeito às “individualidades”. A técnica em informática percebe o sistema de vídeo como um forte aliado, também, contra o bullying. Idalmir e Andrea, longe de Camille das 7h às 19h, mas conectados em tempo integral, costumam trabalhar em ambientes virtuais múltiplos no computador, com as telas do programa de segurança abertas. “Também é uma forma de auxiliarmos o trabalho da direção da escola, que não consegue saber tudo que está acontecendo”, defende o casal, em coro.
Idalmir não considera excesso o monitoramento da filha, aluna do Instituto Monteiro Lobato, no Bairro Floresta, Região Leste, desde 1 ano. “A existência do sistema de câmeras não foi determinante para a escolha da escola, mas, sem dúvida, foi um diferencial. A questão da segurança é muito importante. Tem ainda o fato de que a criança está sujeita a acidentes. A câmera é um conforto”, ressalta o pai. Andrea elogia o colégio e fala em “confiança plena”. “Temos horários flexíveis e vamos sempre à escolinha a qualquer hora. Lá, as crianças estão sempre muito bem cuidadas.” A jovem mãe, ao lado da filha “todo o tempo possível”, revela que gosta de assistir às aulas de dança de Camille, duas vezes por semana, por meio das câmeras – como a um programa favorito de TV.
Porém, pessoas como a socióloga Tatiana Goulart, de 29, nâo veem com bons olhos as câmeras de monitoramento. “Não é muito saudável. É um pouco a lógica do reality show, quando você deixa de viver a sua vida para viver a dos outros”, considera. Para ela, mãe de Teodoro, de 6, e de Heitor, ainda de colo, a escola é um recorte social com questões particulares que precisam ser resolvidas entre seus pequenos indivíduos. “Meus filhos não são uma extensão da minha pessoa. São indivíduos. Têm frustrações e passam por transtornos que fazem parte do amadurecimento de cada um”, diz.
Tatiana conta que perto de sua casa havia uma escola que se orgulhava em fazer propaganda do sistema de monitoramento. Ela diz não ter levado os filhos para lá justamente pelo apelo comercial em relação à vigilância. “Meus filhos, naturalmente, vão ter conflitos, brigas com os amigos, e eles precisam aprender a resolver isso”, avalia. Para a mãe e socióloga, as câmeras tiram até a liberdade dos professores, que, muitas vezes, precisam corrigir com firmeza e até aplicar algum castigo, “um cantinho do pensamento”, por exemplo.
Perto dos olhos e do coração
A advogada Fabiana Amaral Calicchio, de 37, mesmo com o sistema de vídeo à sua disposição, não abre mão de, sempre que pode, estar presente na escola do filho, Tiago, de 2. Nas tardes de agenda menos tumultuada no fórum, vai mais cedo para escola para brincar com o pequeno no pátio. Sobre as câmeras, ela considera “uma tranquilidade”. “Especialmente sobre as pessoas autorizadas a buscar as crianças na escola.” Fabiana não acompanha os passos de Tiago pela internet. Prefere, na medida do possível, estar bem perto do filho.
Para a especialista em educação infantil Dalva Righetti, do Instituto Monteiro Lobato, independentemente de qualquer sistema de vigilância, a base para a relação da família com a escola passa pela confiança. A psicopedagoga acredita que as câmeras podem dar um pouco mais de tranquilidade aos pais, desde que respeitados os princípios de individualidade, sem invasão ou danos à espontaneidade, criatividade e liberdade das crianças.
Há 28 anos lidando com crianças a partir de 4 meses, Dalva fala em abertura para os novos tempos. “A criança está cada vez mais ativa e participante. Você precisa estar o tempo todo aberto às mudanças. E a tecnologia faz parte desse conjunto de transformações”, avalia. Para a educadora e empresária, as mães estão trabalhando cada vez mais e a figura do homem, pai, continua bastante ausente.
“Hoje, o que mais me chama a atenção é a falta de limites”, lamenta. Dalva considera que as famílias estão passando por mudanças significativas e que, no século 21, a escola tem um papel ainda mais importante de referência na formação do indivíduo. “Escola e família precisam estar em sintonia. De modo algum as câmeras substituem a presença dos familiares”, comenta. De acordo com a especialista, além dos fatores segurança e conforto, o monitoramento é ferramenta para que os pais possam se aproximar ainda mais da escola e, consequentemente, da rotina dos filhos.
A diretora Carina Manhago, de 32, entende que as câmeras não são um fator positivo apenas para os pais. “Também são importantes para a escola, para o acompanhamento da dinâmica do projeto pedagógico. A partir das imagens resgistradas, avaliamos e buscamos melhorar o nosso trabalho.” Com satisfação, Carina conta o caso de um pai hospitalizado que pôde acompanhar a apresentação de teatro da filha de 5 anos pelo sistema de monitoramento. “Temos pais separados, na Alemanha e nos EUA, que acompanham os filhos pela internet”, diz.
EQUILíBRIO Carina reforça a importância de equilíbrio pelo respeito à privacidade das crianças. A diretora do Instituto Monteiro Lobato rebate a associação do sistema de monitoramento com um reality show. “Criticamos essa ideia. Às vezes, alguns pais nos perguntam por que também não temos câmeras nas salas de aula. Falamos do respeito ao espaço de aprendizado e criação de nossos alunos”, explica.
SORRIA, VOCÊ É CADA VEZ MAIS FILMADO!
Os primeiros sistemas de vigilância por vídeo foram instalados na Europa, no início da década de 1970, contra possíveis depredações do patrimônio, para o controle do tráfego e para a segurança dos bancos. A partir dos anos 1980, a tecnologia de captação de imagens avançou na velocidade da luz em todo o mundo. Com o custo operacional cada vez mais reduzido, as câmeras se alastram em ambientes múltiplos.
