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Estado de Minas

Viaduto das Almas está entregue ao esquecimento e ao silêncio de sua trágica história

Desativada, estrutura em curva conhecida como uma das mais traiçoeiras armadilhas da BR-040 foi integrada ao patrimônio da União, mas hoje se degrada em lento abandono


postado em 03/09/2012 06:37 / atualizado em 03/09/2012 09:38

Em meio a escombros, mato e estruturas corroídas, esta obra de arte da engenharia pode desaparecer se não for transformada em patrimônio arquitetônico(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Em meio a escombros, mato e estruturas corroídas, esta obra de arte da engenharia pode desaparecer se não for transformada em patrimônio arquitetônico (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Inaugurado em 1º de fevereiro de 1957, ele não tem vida própria e, mesmo não sendo capaz de tomar decisões, começou a ganhar fama de matador em 20 de julho de 1958. Naquele dia, o pequeno fazendeiro José Alves foi o primeiro a perder a vida ao tentar atravessá-lo, ao volante de uma caminhonete. O Viaduto Vila Rica, mais conhecido como Viaduto das Almas, que se tornou tristemente célebre ao produzir viúvas e órfãos em série, hoje está entregue ao esquecimento e ao abandono. Nem espírito dos mortos atribuídos à sua existência ousa frequentá-lo, nem sequer nas noites claras de lua cheia.

Tem-se a impressão de que o Vila Rica, fechado ao tráfego desde 26 de setembro de 2010, apodrece mais rapidamente do que quando os pneus das carretas limavam seu asfalto e lambiam as baixas e frágeis muretas de proteção. Percorrer seus 262 metros, hoje, só a pé ou pedalando. Somando sua extensão aos pedaços da BR-040, nas duas cabeças de pista, lacrados depois da inauguração do Viaduto Engenheiro Márcio Rocha Martins, a caminhada, a passos lentos, dura cerca de uma hora.

Eucaliptos emolduram o passeio de quem ousa desafiar seu silêncio nos dias úteis. Nos fins de semana, bando de jovens leva a algazarra ao viaduto. Os 30 metros de altura são propícios à prática de rapel. O vento que desce das montanhas raramente dá uma trégua às folhagens. A natureza começa a tomar conta do espaço que estava emprestado ao homem. A chuva deposita terra, folhas e pedregulhos sobre o asfalto e o piso do viaduto.

A única lembrança de que ali passavam milhares de veículos por dia, além da estrutura de concreto, é um pedaço de mola deixado por caminhão numa das temidas descidas rumo à estreita pista do Vila Rica. Tão estreita que é difícil imaginar que por ali cruzavam-se carretas de 30 toneladas e ônibus com até 50 passageiros. Impossível não pensar em tragédias, como a que levou a atriz Zélia Marinho e mais 13 pessoas, em 1967, e o que tirou a vida, dois anos depois, do cantor Mário Albertini e mais 29. Zélia e Mário eram estrelas da TV Itacolomi.

O vento, único a interromper o silêncio, derruba um eucalipto magro sobre a pista. Um recado para lembrar que ali, velocidade e força agora é só com ele. As quaresmeiras, floridas entre as árvores, amenizam o clima lúgubre. E dá medo percorrer, mesmo a pé, os maltratados e corroídos 262 metros de concreto. No que sobrou das muretas, as provas do improviso: fios de arame e pedaços de madeira ajudavam a segurá-las naquele tráfego infernal.

O que não era visível sob as rodas de pelo menos 20 mil veículos diários torna-se claro na encurvada solidão de concreto. No meio da pista, uma fissura de lado a lado. O Viaduto das Almas estava realmente condenado. Se não estivesse interditado, a conta dos mortos certamente subiria. Nos 53 anos do elevado, o Estado de Minas contou as histórias de 75 mortos. Foram quase 200, na estimativa da Associação Brasileira dos Caminhoneiros. A Polícia Rodoviária Federal e o Dnit não tinham, na época, estatísticas sobre o número de vítimas de acidentes no viaduto.

Sob a estrutura macabra, o Córrego das Almas, do qual tiraram o nome para apelidar o Vila Rica, corre límpido e sem culpa. Suas parcas águas já não precisam mais lavar o sangue das tragédias. A não ser que o novo viaduto seja também sufocado e se transforme em matador. O Viaduto Vila Rica, que não suscita nenhuma boa lembrança, saiu das mãos do Dnit. Está, agora, integrado ao conjunto do patrimônio arquitetônico da União. Ninguém sabe o que será feito dele.

Obra de arte inaugurada com orgulho

O Viaduto Vila Rica, ou Viaduto das Almas, nasceu na BR-3, batizada de 040 em 1964. Está no km 592 da rodovia, entre os municípios de Itabirito e Congonhas, na Região Central. Ganhou fama de traiçoeiro em uma estrada que teve seu traçado perigoso cantado até em festival da canção, na voz de Tony Tornado. E foi batizado em 1º de fevereiro de 1957 com muita pompa pelo presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976) e o governador José Francisco Bias Fortes (1891-1971). Os dois percorreram os 262 metros do elevado em um carro luxuoso. JK não escondia o orgulho. Estava entregando à nação uma grande passagem para o progresso do Brasil.

A inauguração ganhou as páginas dos jornais e os microfones das emissoras de rádio do país, como contou o repórter Paulo Henrique Lobato no caderno especial publicado pelo Estado de Minas na data comemorativa dos 53 Vila Rica. A imprensa internacional também abriu espaço, não para o evento, mas para a obra. A estrutura de concreto em curva, destacando-se na paisagem, chamou a atenção de arquitetos estrangeiros. A admiração não significava aprovação para o uso do viaduto, ainda considerado um atrativo, como disse o arquiteto Márcio Damázio Trindade ao caderno especial.

Em1982, a BR-040 ganhou pista dupla em trechos movimentados, mas os viadutos continuaram estreitos e a carnificina não parou. Parentes de pessoas que perderam a vida em tragédias queriam apelidá-lo de Viaduto da Morte. Mas o que ficou e marcou foi Viaduto das Almas. Não pelos mortos, mas para lembrar o curso de águas claras que corre sob a estrutura: o Córrego das Almas. Não houve como não surgir uma história macabra sobre a passagem de nove metros de largura, construída em curva, que começou com o peso de menos de 1 mil veículos por dia, quando as carretas não eram tão grandes, e chegou a suportar os quase 20 mil automóveis que o atravessavam diariamente poucos antes da aposentadoria.

Matador ou não, o Viaduto das Almas, um dos orgulhos do currículo JK, é, sem dúvida, uma obra de arte abandonada, corroída, que a história da arquitetura pode perder se a União não assumi- lo como patrimônio. Até mesmo o Córrego da Almas, incrivelmente limpo, corre risco com a ocupação de áreas no entorno. Uma das cabeças de pista (trecho de cerca de 800 metros da antiga estrada) já tem outro uso: é estacionamento de caçambas transportadoras de minério.

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