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Estado de Minas

Intervenções do poder público trouxeram cardumes de volta aos rios

Entretanto, afluentes antes limpos, como o Cipó, preocupam


postado em 09/07/2012 06:46 / atualizado em 09/07/2012 07:01

Santo Hipólito, Gouveia e Presidente Juscelino – São mais de 30 anos debaixo da ponte sobre o Rio das Velhas. Nesse tempo, o médico Otávio Franco Xavier, de 63 anos – que em 2004 largou a urologia em Belo Horizonte para se dedicar ao posto de saúde e à pescaria em Santo Hipólito, na Região Central de Minas –, já viu de tudo. Recentemente, há não mais que quatro anos, testemunhou o milagre dos peixes. O pirá e a corvina voltaram a aparecer e o dourado se multiplicou nas águas do Velhas. “Houve época em que a gente só pescava alga”, lembra, sem saudades. A volta dos peixes se deve a investimentos massivos na bacia hidrográfica, mas nem assim a garantia de águas calmas chegou por lá. O Rio Cipó, que desemboca na região e é aclamado por entregar vida ao Velhas, está em sinal de alerta.

O último mapa da qualidade das águas, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), apontou a qualidade da água como “média”. “Houve o aumento da turbidez da água, que está relacionada à retirada de mata ciliar e à extração de pedras na região”, afirma a coordenadora do projeto de monitoramento das águas, Katiane Brito. Ela ressalta que há apenas um ponto de medição na região, o que pode influenciar o resultado. Embora não tenha percebido alterações na aparência das águas da bacia do Paraúna (que inclui o Cipó), o presidente da organização não governamental Caminhos da Serra, que atua na região, Alex Mendes Santos, de 52 anos, teme a pressão da mineração sobre os cursos d’água. “Ela está chegando com força. Soubemos que empresas já estão fazendo sondagens em áreas de nascentes, em Conceição do Mato Dentro, e isso é péssimo”, alerta o ambientalista.

É preciso acelerar o passo para alcançar a dona de casa Nair Rodrigues, de 72 anos, no percurso diário que ela cumpre de casa até o leito do Paraúna, na comunidade do Cafundó, em Gouveia, na Região Central. “Faz gosto tomar a água deste rio. Ele é a nossa riqueza, todo mundo que chega fica impressionado. Aqui a gente busca água, pesca”, conta a senhora humilde e hospitaleira, que até evita pensar na possibilidade de perder o Paraúna, experiência vivenciada “uma vez para nunca mais”. “Era uma tristeza quando o pessoal da hidrelétrica de Paraúna, aqui em cima, abria as comportas e o rio ficava todo sujo”, conta. Como o problema já foi resolvido, dona Nair prefere nem pensar em outras possíveis ameaças ao curso d’água, motivo de alegria para os ribeirinhos.

Preservação
“Ê Paraúnaaa!” É com respeito e admiração que o ambientalista e psicultor Erick Wagner Sangiorgi, de 40 anos, cumprimenta o afluente do Velhas em seu encontro com o calha principal, em Santo Hipólito. Há 30 anos dentro do rio, Erick sabe da importância dos rios Cipó e Paraúna para a qualidade das águas, assim como investimentos no Velhas contribuíram para sua melhora. “Nunca vou esquecer o ano de 1996, quando estava tudo bom para peixe – a lua, o clima – e ninguém pescou nada. Em 2007 também foi triste, apareceram cianobactérias, a água ficou verde e o rio, interditado”, conta Erick, que atua também na captura ecológica de peixes e na preservação das espécies.

O melhor indicativo para a chegada de novos tempos foi o aumento da quantidade de peixes como o dourado, a matrinxã e o curimatã. “E, consequentemente, a gente está vendo mais aves, até a garça cor-de-rosa, que estava sumida”, conta. Mas a qualquer sinal de esgoto... “O rio fica preto e o cheiro, ruim”, alerta. Em meados de junho, os pescadores ficaram assustados com uma mortandade de peixes. “É porque deságuam porcaria lá para cima”, resume Ildemar Francisco César, de 62 anos, vara de pesca a postos na ponte sobre o Velhas. Palavra de quem conhece: pescador experiente, Ildemar entende dos assuntos do curso d’água. “Já pesquei surubim de 50 quilos nesse rio. E olha que não é história.”


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