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Estado de Minas

Cartografia mostra Minas desenhada à mão

Pesquisadores recuperam e digitalizam ilustrações raras e detalhadas das 178 cidades mineiras existentes no início do século passado. Acervo está disponível na internet


postado em 06/06/2012 06:00 / atualizado em 06/06/2012 06:50

Maria de Lujan foi uma das idealizadoras da obra, que conta com prefácio de Amílcar Martins Filho(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Maria de Lujan foi uma das idealizadoras da obra, que conta com prefácio de Amílcar Martins Filho (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
As ilustrações traçadas em bico de pena encantam quem se depara com um exemplar do Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes, segundo a grafia vigente em 1927, quando o livro foi publicado. As páginas da raridade, que apresenta mapas dos 178 municípios mineiros existentes à época — bem menos que os 853 atuais —, foram digitalizadas e publicadas na internet. Os pesquisadores querem tornar a obra mais acessível e mostrar que, além de bela, é um valioso trabalho científico.

Os mapas do Album incluem elementos como limites territoriais, relevo, principais localidades —que incluem povoados, fazendas e estações ferroviárias —, vias de transporte e rede hidrográfica. Ao redor dos desenhos, há quadros com estatísticas de população e gravuras do que seriam os bens ambientais e culturais mais importantes. Podiam ser cachoeiras, serras, praças, monumentos. Igrejas também não faltam. Em Uberaba, por exemplo, destacavam-se, na grafia original, a Egreja de São Domingos, o suntuoso Gymnasio Diocesano, o Forum, o Quartel do 4° Batalhão e até uma rua de nome A. Machado.

“Quem selecionou esses pontos como os mais importantes do município? Esses prédios sobrevivem ou foram destruídos? O que conseguiu se preservar e o que se perdeu? No Album, há matéria para pesquisas futuras, que podem investigar a recuperação cartográfica dos territórios inundados por hidrelétricas e pesquisar a identificação do que era considerado patrimônio antes da instituição da política nacional de preservação, na década de 1930”, constata a historiadora Maria Lúcia Prado Costa. Ela e a geógrafa Maria de Lujan Seabra foram as idealizadoras e organizadoras do projeto. Ambas trabalham na Fundação 18 de Março, entidade que financiou o trabalho.

Além dos mapas, o site www.albumchorographico1927.com.br apresenta um prefácio assinado pelo bibliófilo Amilcar Vianna Martins Filho e cinco estudos críticos escritos por especialistas. Maria Lúcia ficou responsável por um ensaio sobre o contexto histórico em que foi realizado álbum, produzido para comemoração do Centenário da Independência do Brasil (1822-1922) por uma Comissão Mineira do Centenário existente na época e presidida pelo então prefeito de Belo Horizonte, Affonso Vaz de Mello. “Hoje, está na moda reproduzir mapas antigos e jogar na internet. No nosso trabalho, o diferencial é que, além de reproduzir as ilustrações, apresentamos análises profundas, que permitem enxergar muita coisa que uma leitura desavisada não percebe”, considera Maria Lúcia.

Divisões

A digitalização da obra e a restauração do original ficaram a cargo do Arquivo Público Mineiro (APM). O Album é a primeira representação cartográfica dos municípios mineiros no período republicano, iniciado em 1889. Os mapas obedecem às divisões administrativas fixadas em 1911. No site, um índice atualizado faz a vinculação dos 853 municípios mineiros atuais aos territórios de um século atrás. “O Album apresenta muitas imprecisões, mas é uma referência obrigatória para quem quiser conhecer a história de Minas”, observa Maria de Lujan.



PERSONAGEM DA NOTÍCIA: MARIA LÚCIA PRADO COSTA, coorganizadora do projeto

Livro da família

O exemplar do Album Chorographico Municipal do Estado de Minas Geraes utilizado na digitalização publicada na internet pertence à família de Maria Lúcia Prado Costa, de 54 anos, coorganizadora do projeto. Foi adquirido por seu falecido avô, Homero Costa, quando ele morava em Machado, município do Sul mineiro. “Ninguém sabe como ele teve acesso ao livro. Não era historiador, nem ligado ao poder público”, conta a neta, formada em história pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao longo dos anos, o volume circulou de mão em mão e ficou bastante danificado. Está sob os cuidados do Arquivo Público Mineiro, que deverá restaurá-lo. “No começo, não sabia que ele era raro, mas sempre fiquei maravilhada com sua beleza”, conta Maria Lúcia. Em setembro, a historiadora viaja para Lisboa, em Portugal, onde divulga a obra na quarta edição do Simpósio Luso-Brasileiro de Cartografia Histórica.

 

 

 

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