
A conversa é por demais delicada. Não é fácil para três mulheres de coração ferido desfiar a linha do tempo, abrir o baú de infelicidades e falar sobre o dia mais triste de uma existência. Em poucas horas de conversa, percebe-se, e é de encher os olhos até do mais frio ouvinte, a respiração da saudade, o suspiro da dor e o riso das boas lembranças. Jocélia, mãe da pequena Míriam Brandão, vítima, aos 5 anos, de crime que estarreceu o Brasil em 1992, não dá conta de segurar as lágrimas para dizer que gostaria de ter a filha nos braços por mais um minuto que fosse. Dona Nilce, de 74, forte, se sobrepõe à tristeza e, orgulhosa, sorri as lembranças da formatura do filho Ricardo Noce Lopes Cançado, morto por dois tiros na madrugada de 25 de agosto de 1988, em frente a boate Tom Marrom. Já Heloisa Duarte, atriz que ficou conhecida por perdoar em rede nacional, em 2003, o assassino do filho Madson Vargas Loçasso, transfere a maior infelicidade ao criminoso. “Infeliz é aquele que comete essa ação”, afirma.

Dona Nilce, de fala suave, acolhedora, diz lamentar profundamente não saber o que motivou a morte do filho Ricardo, com 20 anos e “um futuro brilhante”. Despista a tristeza e é só elogios ao moço, estudante dos mais populares nos tempos de colégio e universidade: “Um excelente aluno, muito querido sempre. Foi presidente do grêmio do Pitágoras por muitos anos. Um belíssimo filho. Só tenho boas lembranças dele”. Conta que Ricardo, mesmo já cursando administração na Fumec, foi homenageado com carinho pelo tradicional colégio da Região da Pampulha, que reuniu colegas, professores e funcionários, todos muito comovidos com o crime. Pausa para retomar a força: “É uma passagem muito triste na vida da gente”. Nilce estava em São Paulo, acompanhando o marido na recuperação de uma intervenção cirúrgica no coração, quando soube da morte do filho, em 1988. “Voltamos às pressas. Uma médica nos acompanhou na viagem. Quando chegamos ele já estava sendo velado no Cemitério Parque da Colina.” Naquele momento, mãe, pai e duas irmãs se viram sem chão. “A sensação é que a gente estava fora da realidade”, diz.

Fé renovada também no coração de mãe da atriz Heloísa Duarte, voluntária em fundação espírita no atendimento de quem precisa. Na primeira madrugada de junho de 2003, na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, aos 27 anos, o técnico em espetáculos Madson Vargas, filho único e parceiro de Heloísa, em ação para impedir assalto sucumbiu ao disparo de arma de fogo. Como dar conta de ver a vida ao avesso? “Com amor. A fórmula é o amor. Sempre. É preciso colocar Deus acima de tudo.” Para a atriz é importante trabalhar o tempo e o perdão no peito pela paz de espírito. “Trabalhar o sentimento pelo próximo, compreender o tempo do outro e caminhar em frente”, orienta. No depoimento, nem o ritmo mais sóbrio das palavras e os sentidos mais trabalhados dão conta de ofuscar a saudade. “Não guardo ódio. Tenho muita tristeza. É muito difícil. Sinto muita falta, muita saudade, mas ódio não tenho”, emociona-se.

Enquanto isso, dois suspeitos são indiciados
O delegado da Homicídios Nordeste, Rodrigo Bossi, indiciou por latrocínio (roubo seguido de morte) os dois suspeitos de matar a estudante universitária Bárbara Quaresma Andrade Neves, de 22 anos, que levou um tiro na nuca na noite de quarta-feira no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste de Belo Horizonte. O delegado também pediu a prisão temporária deles à Justiça e aguarda a Vara de Inquéritos se manifestar. Thiago Henrique Fernandes dos Santos, conhecido como Terror, de 21, e Wagner Henrique Soares da Conceição, de 20, suposto autor do disparo, estão foragidos. “O inquérito está parcialmente concluído e o indiciamento serve para garantir aos dois os direitos constitucionais, como o de terem direito à defesa”, disse o delegado, que tenta identificar um terceiro envolvido e localizar o Stilo prata usado por eles. (Pedro Ferreira)
