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Estado de Minas

Fiéis oram para santo trocado em hospital de BH

Por quatro décadas, pais aflitos em um hospital no Funcionários rezaram para São Tarcísio diante de uma imagem que, na verdade, era de São José. Padres dizem que preces foram ouvidas


postado em 16/03/2012 06:00 / atualizado em 16/03/2012 06:39

SÃO JOSÉ - Esposo da Virgem Maria e pai de Jesus. Nas esculturas dedicadas ao santo, ele está quase sempre com o menino nos braços. Carpinteiro de profissão, São José tem o seu dia comemorado em 19 de março e é o protetor das famílias e dos artesãos. Em Minas, há muitas representações do santo, como o famoso São José de Botas, que usava, simbolicamente, o calçado durante a fuga para o Egito durante a perseguição do Rei Herodes. Na Arquidiocese de BH, há muitas igrejas e capelas dedicadas ao santo.(foto: Euler Júnior/EM/D.A PRESS)
SÃO JOSÉ - Esposo da Virgem Maria e pai de Jesus. Nas esculturas dedicadas ao santo, ele está quase sempre com o menino nos braços. Carpinteiro de profissão, São José tem o seu dia comemorado em 19 de março e é o protetor das famílias e dos artesãos. Em Minas, há muitas representações do santo, como o famoso São José de Botas, que usava, simbolicamente, o calçado durante a fuga para o Egito durante a perseguição do Rei Herodes. Na Arquidiocese de BH, há muitas igrejas e capelas dedicadas ao santo. (foto: Euler Júnior/EM/D.A PRESS)
A fé do povo não tem limites e vale até acender vela para um santo, pensando em outro, que o efeito é o mesmo. Portanto, quem rezou para São Tarcísio de olho em São José pode ficar tranquilo que está livre de qualquer represália teológica – é o que dizem os padres. Durante mais de quatro décadas, uma imagem branca, com 61cm de altura, esteve em destaque no antigo hospital infantil São Tarcísio, na Rua Gonçalves Dias, 1608, cujo prédio foi restaurado para se tornar o Centro de Arte Popular Cemig (CAP), novo equipamento do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A curiosidade é que somente com as obras no edifício, os especialistas do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) descobriram que, na verdade, a escultura era de São José, padroeiro das famílias e dos artesãos, e não do protetor dos coroinhas das e crianças.


Diante do achado e posterior pesquisa iconográfica, a data de inauguração do CAP não poderia ser outra: 19 de março, segunda-feira, às 10h, “dia de São José”, afirma o diretor de Conservação e Restauração do Iepha, Renato César de Souza. Segundo ele, é procedimento de rotina que o restauro seja acompanhado de estudos para aprofundar os conhecimentos sobre o bem, não apenas contemplando as técnicas e materiais construtivos, mas também trajetória, autorias etc. “Muitas vezes, nesses momentos, pode vir à tona uma série de novas histórias e revelações à nossa memória”, diz Renato, lembrando que há outros casos em Minas com descobertas surpreendentes..

Projetado em 1928 pelo arquiteto Luiz Signorelli, responsável por outras construções na capital, o prédio em estilo eclético da Rua Gonçalves Dias teve uma série de usos, como residência, convento e hospital particular, de 1970 a 1985 e a partir de 1980, unidade do Instituto de Previdência do Estado de Minas Gerais (Ipsemg) – ao longo do tempo, conforme a serventia, o imóvel sofria acréscimos e ganhava anexos. Tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal (CDPCM-BH), ele recuperou a arquitetura original, a partir do projeto aprovado pelo Iepha, responsável ainda pelo acompanhamento e fiscalização. As intervenções, que custaram R$ 7 milhões (R$ 1, 5 milhão da Cemig e o restante do governo estadual), envolveram do restauro à implementação de estrutura moderna e adequada para instalação de obras de arte. O projeto foi o último desenvolvido pela dupla de arquitetos Janete Ferreira da Costa, falecida em 2009, e Acácio Gil Borsoy. Na manhã de ontem, no ateliê do Iepha, na Praça da Liberdade, o restaurador Thiago Botelho dava os últimos retoques na imagem, que chegou ao local com resquícios de uma pintura azul.

SÃO TARCÍSIO - Nascido em Roma, viveu entre os séculos 2 e 3 e é padroeiro dos coroinhas e das crianças. Tem seu dia comemorado em 15 de agosto. Pertencia à comunidade cristã de Roma. Durante a perseguição aos cristãos, muitos deles foram presos e condenados à morte. Na véspera de numerosas execuções de mártires, o Papa Sisto II não sabia como levar a eucaristia à cadeia. Foi então que o coroinha Tarcísio, de 12 anos, se ofereceu para realizar a tarefa. No caminho, morreu apedrejado, pois levar a
SÃO TARCÍSIO - Nascido em Roma, viveu entre os séculos 2 e 3 e é padroeiro dos coroinhas e das crianças. Tem seu dia comemorado em 15 de agosto. Pertencia à comunidade cristã de Roma. Durante a perseguição aos cristãos, muitos deles foram presos e condenados à morte. Na véspera de numerosas execuções de mártires, o Papa Sisto II não sabia como levar a eucaristia à cadeia. Foi então que o coroinha Tarcísio, de 12 anos, se ofereceu para realizar a tarefa. No caminho, morreu apedrejado, pois levar a "hóstia", mesmo na forma de pão, era considerado ato de bruxaria. (foto: Beto magalhães/EM/D.A PRESS)
Não há uma explicação, de acordo com os especialistas, para a troca dos santos. Uma das versões é que, como se tratava de um hospital infantil, a imagem de São José estaria de bom tamanho, pois, com o Menino Jesus nos braços, é o protetor das famílias. Mas o mais indicado seria homenagear Tarcísio, o menino romano que viveu entre os séculos 2 e 3, morou nas ruas e é muito pouco divulgado no Brasil, diz o padre Rogério Eustáquio Fernandes, titular da paróquia dedicada ao santo no Bairro Nova Cintra, na Região Oeste de BH. “Não há o menor problema de rezar para um santo pensando que é outro. É tudo bem socializado”, brinca o pároco, esclarecendo que há uma comunhão dos santos, uma unidade, então não há problemas”. O pediatra Guy Freire Jannotti, de 79 anos, um dos sócios do antigo hospital, acredita que a imagem tenha pertencido à freiras do Cenáculo, que ocuparam anteriormente o prédio. Bem humorado, ele também está convencido de que não há problema em confundir os santos.

Surpresas

Durante obras de restauração, os especialistas podem se deparar com pinturas artísticas ou estruturas arquitetônicas escondidas sob camadas de tintas e reboco. Em 2006, na última reforma no Palácio da Liberdade, em 2006, foram achadas atrás das instalações sanitárias, ao redor do elevador principal, uma base de ferro com motivos florais. Isso indicava que toda a estrutura do equipamento havia sido construída para estar exposta. Nas abóbodas da varanda central foram descobertas pinturas decorativas originais, encobertas por três camadas de tinta branca.

Saiba mais centro de arte popular

No Centro de Arte Popular, serão expostas obras de artistas populares de regiões de Minas e do Brasil. O edifício tem quatro pavimentos, com ateliês para oficinas, auditório multiuso, café, loja, biblioteca, videoteca e quatro salas de exposições de longa duração. O acervo reúne cerca de 800 peças, grande parte delas pertencente ao estado, e outras resultado de empréstimo. A exposição inaugural terá 360 peças que retratam as diferentes expressões de arte criadas pelo homem e inclui desde as manifestações dos primeiros habitantes da região, com as pinturas rupestres, até os grafismos urbanos contemporâneos. Haverá também a mostra temporária Atos de fé, da colecionadora Maria Zahle Penna, de Tiradentes, no Campo das Vertentes, que apresentará, pela primeira vez, oratórios, santos e ex-votos do séculos 17 ao 19.


Pinturas profanas

(foto: Maria Tereza Correia/EM)
(foto: Maria Tereza Correia/EM)


Em 2008, durante a restauração do casarão colonial onde nasceu e viveu o presidente da República Afonso Pena (1847-1909), no Centro Histórico de Santa Bárbara, na Região Central, foi descoberta uma pintura profana na sala principal da casa. A pintura em estilo rococó do século 18 permaneceu escondida por mais de 100 anos, sob cinco camadas de pintura. Ocupando uma área de 35 metros quadrados, os dez painéis pintados sobre madeira trazem África, América, Europa e Ásia (os quatro continentes conhecidos até então), representadas em figuras femininas, sempre acompanhadas de elementos da fauna e flora características.

Moedas

Em 2009, na restauração do Cine Brasil, no Centro de BH, foram encontradas uma rampa lateral e escada original encobertas. Nas paredes, sob quatro camadas de tinta, estavam 320 metros quadrados de uma pintura decorativa em padrão geométrico, estilo art-déco, atribuído ao artista italiano Ângelo Biggi. Mas, a mais incrível descoberta, estava enterrada a 1,5m de profundidade desde 1927: a pedra fundamental do prédio, uma caixa metálica com moedas e papéis da época da construção.

Painéis sob cartazes

Em Uberlândia, na Região do Triângulo, durante a restauração do Mercado Velho, foram encontrados cinco painéis do artista plástico Geraldo Queiroz, que datam da década de 1950. As obras foram descobertas por especialistas embaixo de cartazes, massa corrida e várias camadas de tinta. As pinturas foram restauradas e expostas na fachada do prédio.

Querubins debaixo de flores

 

(foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)
(foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)
Em 2009, a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, foi reaberta depois de restauro. Por baixo de camadas de tinta, foi encontrada uma pintura decorativa de cenas bíblicas em perspectiva no forro da capela-mor, possivelmente original da construção. Já na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no distrito de Alto Maranhão, em Congonhas, na Região Central, por trás de pinturas com motivos florais foram achadas pinturas de cabeças de querubins circundando uma nuvem. Em 2010, também foram encontrados pedaços de talha de madeira que, a princípio, poderiam pertencer ao retábulo original.

 

FONTE: IEPHA/MG

 

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