
A pouco mais de uma semana de seu evento cultural mais importante – a 15ª Mostra de Cinema, que irá de 20 a 29 – a turística cidade da Região do Campo das Vertentes, a 190 quilômetros de Belo Horizonte, está mergulhada há três dias em águas turbulentas. Até ontem, para entrar no Centro Histórico, só mesmo pegando carona numa carreta puxada por trator, colocada à disposição de moradores e turistas pela prefeitura. O Rio das Mortes subiu mais de quatro metros e inundou a Rua dos Inconfidentes, principal entrada de Tiradentes, impedindo o trânsito de veículos. Quem se arriscou à travessia, à pé, passou com a correnteza pela cintura. para os moradores mais antigos, esta foi a maior enchente na história da cidade.Às 16h, uma cena chamou a atenção e comoveu muita gente. O enterro de uma mulher, de 51 anos, que era moradora do Bairro das Várzeas, também afetado pelas águas do Rio das Mortes, teve de ser feito também de forma improvisada. O caixão seguiu na carreta, coberto por uma lona azul, enquanto familiares e amigos se dividiam em várias viagens até o cemitério, do outro lado da ponte. As águas cobriram cerca de um quilômetro da Rua dos Inconfidentes, atingindo até 50cm de altura. Na via pública há muitas pousadas e estabelecimentos comerciais, e era possível ver as águas escuras passando pela portaria e portões, além de proprietários com cara de desolação ou bem animados, de vassoura e rodo em punho.
Os dois lados da ponte ficaram cheios de gente, como se fossem pontos de ônibus. A cada vez, a carretinha transportava cerca de 50 “passageiros”. O engenheiro civil Francisco de Paulo Nascimento, de 58 anos, se lembrou de problema semelhante em 1992. “A cidade vive do turismo, então essa situação nos preocupa muito. Não imaginei que tivesse que passar para o outro lado assim, preferiria, claro, caminhar ou seguir de carro”, afirmou, destacando que os charreteiros, que fazem o passeio tradicional pelas ruas do Centro Histórico, “ficaram no zero”.
Também esperando o transporte improvisado, o dono de pousada Júlio César do Nascimento, nascido e criado em Tiradentes, lembrou que a cidade vive “101% do turismo”. Esperançoso, ele garantiu que, hoje (quinta-feira) todo o transtorno já terá passado. E, para provar, mostrou o piso de um posto de gasolina, apontando, uns 20cm acima, a marca do dia anterior pela manhã.
Sem paciência para esperar o tratar, um grupo de jovens preferiu atravessar a Rua Inconfidentes num bote até o início da ponte, que não ficou coberta pelas águas. “Assim vou mais rápido. Vim resolver uns problemas em Tiradentes e tenho que voltar logo”, explicou o lojista Gustavo Nascimento, de 25, morador do município vizinho de São João del-Rei.
O secretário de Turismo de Tiradentes, Felipe W. Gomes Barbosa, está certo de que a enchente não terá influências na Mostra de Cinema ou afetará os passeios. “Choveu nas cabeceiras do Rio das Mortes e a nossa cidade sofreu os efeitos. Mas sexta-feira) a água já terá baixado e o fim de semana será de faxina”, disse. Felipe contou que o Centro Histórico da cidade não foi afetado e que não houve problemas com a população. “Apenas oito famílias ficaram desabrigadas, foram levadas para uma escola, mas já vão voltar para as suas casas.”
SÃO JOÃO DEL-REI
As chuvas mais fortes foram no domingo e segunda-feira. Ontem houve apenas ligeiras pancadas durante o dia, com o aparecimento de um sol meio tímido. Em São João del-Rei, a ponte sobre o Rio das Mortes ficou interditada das 16h de terça-feira até 13h30 de ontem. O curso d’água subiu cinco metros e cobriu a estrutura. Longas filas se formaram dos dois lados e apenas metade da pista foi aberta para os motoristas.
