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Estado de Minas

Drogas e violência marcam rotina das meninas de rua

Trajetória de meninas que perambulam pela cidade tem em comum a troca da violência ou atritos domésticos pelo perigo de uma vida marcada pelo tráfico e pelas ameaças sexuais


postado em 14/11/2011 07:05 / atualizado em 14/11/2011 07:09



G., de 17 anos, precisou esfaquear um homem para escapar de um estupro. E., de 14, já perambulou pela cidade vendendo cocaína e maconha, induzida por uma amiga um ano mais velha e ligada a traficantes. As duas têm experiência suficiente para dizer que o que há nas ruas é droga e violência. Elas e outras meninas acolhidas em centros de passagem de Belo Horizonte passam pelo processo de reaproximação e readaptação às famílias. Umas saíram de casa para fugir da violência doméstica ou para “descobrir o mundo”. Outras caíram nas ruas porque não têm onde ou com quem morar.

É caso de G.. Ela diz que não conheceu a mãe e que morava com o pai em um bairro da Região Norte de BH. “Ele era traficante e me dava de tudo. Eu tinha uma vida de patricinha. Só que ele foi preso tem um ano. Fiquei só. Ninguém apareceu para me amparar. Então, fui para a rua.” No começo, G. perambulou por outros bairros da mesma região, até ser atacada por dois homens. “Eu tinha uma faca e acertei um deles. Consegui me soltar a corri.”

Por precaução, ela resolveu se mudar. “Passei a andar pelo Centro. Foi pior. Comecei a usar tíner e maconha. Não me prostituí, mas precisei furtar para comprar droga e comida.” G. resolveu procurar ajuda. Na rua, ficou sabendo da existência dos conselhos tutelares e procurou o da Região Centro-Sul, que a encaminhou à Pastoral do Menor. “Meu pai continua preso e não conheço outros parentes. Nem sei se existem. O pior é que daqui a pouco faço 18 anos e não sei o que vou fazer.”

O desejo de G. é mudar do centro de passagem, de permanência provisória, para um abrigo, que impõe mais restrições, mas oferece melhor preparação para a jovem sobreviver, porque logo que completar 18 anos perderá o amparo do poder público. “Já completei o ensino fundamental e preciso fazer o médio. Quero, depois, um emprego digno e me formar em qualquer coisa”, planeja. O problema é que faltam vagas nos abrigos municipais para todas.

FACÃO E. mostra na cabeça a cicatriz com cinco ou seis pontos. “Foi o meu pai, com um facão”, conta. Ela diz que largou a escola e saiu de casa, na Região Leste de BH, há dois anos, quando tinha 12, para fugir da violência doméstica. “Ele é pedreiro e bebe muito. Minha mãe não trabalha. De tanto apanhar, fui para a rua. Logo passei a vender drogas com uma amiga, de 15 anos. Era na casa dela que eu dormia. Com o dinheiro do tráfico, comprava droga para consumir.” Nessa rotina, a adolescente se tornou uma escrava dos traficantes até ser abordada e resgatada pelo serviço da prefeitura.

 “Eu estava ameaçada”, relata. No fim da semana retrasada, E. saiu da centro de passagem e foi à casa dos pais, um barracão em um aglomerado. “Ele tentou matar minha irmã de 13 anos e depois me atacou com o facão. Fugi e trouxe minha irmã. Não sei nem por que ele fez isso.” A mãe, nesse caso, fica impassível para não desagradar o companheiro. “A pior coisa da rua é a droga. Quero voltar a estudar. Meu sonho é ser atiradora de elite na polícia”, revela E., um caso de difícil reaproximação com a família.

L., de 14, não chegou a conhecer “os encantos” que procurava depois de fugir de casa, em Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, para “dar uma volta no mundo”. Foi abordada ainda no primeiro dia na capital, quando perambulava pela Avenida Nossa Senhora do Carmo. A Pastoral está em contato com a família para reintegrá-la.

Já F., de 17, nem com isso pode contar. É filha de moradores de rua. Foi criada nos abrigos. Não tem notícia da mãe e o pai, viu poucas vezes, assim mesmo embriagado. Deixou a escola na 5ª série do ensino fundamental porque não se entendia com a professora. “Não sei o que vai ser de mim quando completar 18 anos. Tenho tias, mas elas não me querem e eu também não quero. Vou fazer o quê?”

 A psicóloga Aparecida Gonçalves, do Centro de Passagem Vila Eunice, na Região Norte de BH, tem sob sua responsabilidade nove meninas que não são enquadradas como infratoras e lamenta a falta de políticas públicas para o aproveitamento dessas jovens depois dos 18 anos. “Mas continuaremos fazendo nosso trabalho educativo, de tentar torná-las cidadãs, com direitos e deveres. Pena que as maiores de 15 anos e 8 meses não possam mais ser incluídas no bolsa-emprego, que é o trabalho protegido, com inserção na escola”, afirma.

Dia a dia do abandono

Ontem


Belo Horizonte assiste a mais de uma infração cometida por crianças e adolescente a cada hora. A média diária de 27 ocorrências, mostrada pelo Estado de Minas na primeira matéria da série Crianças sem rumo, está relacionada na maior parte dos casos ao envolvimento com drogas, que entre 2005 e 2010 cresceu 441% na capital. Uma característica que dificulta o resgate dos meninos e meninas que têm contato com o mundo da rua.

Amanhã

O EM mostra que o drama dos adolescentes sem referências familiares e entregues à droga não é exclusividade da capital, mas se espalhou por todo o estado e virou desafio para prefeituras do interior.

Palavra de especialista

Quem não quer Justiça?
Bernardo Monteiro de Castro
Psicólogo clínico, pós-doutorado pela University of Cincinnati (EUA)

Talvez a maior repercussão dos casos de violência infantojuvenil ocorra quando se trata de um crime assustador ou quando o autor vive em um ambiente de pobreza financeira e baixa qualidade de educação e saúde. A união dessas duas características é um enorme estrondo, conforme vivemos recentemente em Belo Horizonte, por causa dos crimes no Bairro Glória.

Deve-se reconhecer a dor das pessoas envolvidas, de quem perdeu alguém de valor, de quem presenciou a violência diretamente, de quem soube por notícias e ainda assim se abala ao ver uma narrativa social sem fim e sem começo, por isso aparentemente infinita. Muitos expressam imediatas exigências de justiça. Quem não quer justiça? Muitos.

A tradicional frase “aos amigos tudo; aos inimigos a lei” foi e tem sido associada a um Brasil injusto e pernicioso, controlado por uma oligarquia sempiterna e promíscua que, paradoxalmente, vive nas sombras e frestas, como vermes, e, ao mesmo tempo, reluz sob os holofotes dos meios de comunicação quando precisa exibir seu poder para demarcá-lo. Com o crescimento da autoestima do povo brasileiro, passou-se a perceber que esse manejo da justiça ocorre nos EUA, Itália, França e aonde quer que se vá. A lógica é sempre cínica: escandaliza-se a injustiça dos outros para que se possa praticar a sua própria perversidade. Quem não quer justiça? Muitos.

Para as pessoas razoavelmente normais, é impossível não se indignar, até revoltar-se, frente a atos de violência que ainda são morbidamente explorados e delongados. Mas poucos procuram combater a violência preventivamente. Qual é o cuidado que se tem com a qualidade do ensino e do exercício da cidadania desde os primeiros anos de vida de uma população que serve apenas para viabilizar que a oligarquia se beneficie do manejo da lei? Já vimos tantos casos de jovens das classes A e B que traficam drogas sintéticas, queimam pessoas vivas, estupram... e ficam impunes. Médico estuprador, banqueiro fraudulento fogem do Brasil após habeas corpus do Supremo e tão agilmente fogem também do noticiário. Para isso não se organiza um “Cansei”. Quem não quer justiça? Muitos.

Por lei, a criança e o adolescente requerem atenção prioritária do Estado, e a Justiça tem o dever de fazer com que isso se cumpra. Para todos. Desde antes do nascimento. Quem não quer justiça? Muitos.

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