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Estado de Minas

Ataques de menores levam pânico a comerciantes e moradores na Praça ABC

Mesmo apreendidos, acabam voltando rapidamente para as ruas da região Centro-Sul de BH


postado em 24/10/2011 06:19 / atualizado em 24/10/2011 07:43

Marquise de padaria fechada na praça virou abrigo e ponto de uso de drogas de grupos de menores(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
Marquise de padaria fechada na praça virou abrigo e ponto de uso de drogas de grupos de menores (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)

Eles chegam ao entorno da Praça ABC, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, ao entardecer, para desespero de comerciantes, funcionários e receosos clientes. Roupas sujas, olhos semimortos pelo efeito do tíner e da cola de sapateiro, vozes arrastadas, incapazes de completar uma frase. São entre 10 e 15 meninos e meninas de 10 a 17 anos. Por trás deles dois homens de 22. Desespero, por causa da insuportável ousadia do grupo. Menores de rua sem limites, sem noção de respeito e sem medo de reprimendas ou de cara feia.

Na pequena lanchonete, a balconista e caixa E. já não arregala os olhos como da primeira vez. Eles entram e se há alguém comendo pedem o salgado ou o sanduíche e o suco. Se não ganham, simplesmente tomam. “É assim mesmo, principalmente se for mulher, criança ou adolescente”, conta a funcionária, com certa resignação. Às vezes, entram e ocupam mesas e cadeiras, com as roupas imundas e o odor desagradável de muitos dias sem água e sabão no corpo. “E há um grandão com eles. Um rapaz forte, com mais de 1,80m.”

Geraldo Magela, o único que concorda em se identificar, mas resguardando o estabelecimento, fala em nome de um bar e restaurante. “Se há a cracolândia, eles fundaram aqui a lololândia (o termo vem de loló, uma bola feita de cola de sapateiro e tíner levada constantemente ao nariz). Chegam, entram e nada podemos fazer. Tomam até copo de cerveja das mãos dos clientes. Alguns parecem não ter ainda 10 anos. Não podemos sequer encostar a mão neles.”
Magela abre as caixas de força da Cemig no chão da praça nas quais eles escondem roupas, papelão para servir de cama e latas para guardar o bolo entorpecente. “Onde está poder público? A Polícia Militar vem, leva os menores para o Conselho Tutelar e um hora depois estão de volta.” Ele conta que o grupo cercou um casal que descia a Avenida Afonso Pena com uma pizza embalada. “Só depois de muito trabalho o rapaz e a moça conseguiram se desvencilhar deles e escapar pela Rua Piauí.”

Na drogaria, nem os seguranças impedem a entrada dos menores e o furto de mercadorias, principalmente das prateleiras de perfumaria. “Eles levam provavelmente para vender ou para trocar por tíner, e não podemos fazer nada”, conta a gerente G. “Chamamos a PM quando os meninos aparecem, mas pouco tempo depois eles estão de volta.” Geraldo Magela conta que uma assistente social chegou a bater boca com os policiais e lojistas repreendendo a ação contra os menores. “Sugerimos a ela levá-los para casa. E levou? Levou nada. Não adianta fazer discurso e deixar o problema em nossas mãos.”

Brigas

Em uma loja de departamentos, uma das seções mais visadas é a de brinquedos. E as visitas são quase diárias. “Como são pequenos, entram sem a gente ver”, diz a gerente V. “Alguém precisa cuidar dessas crianças.” Em uma loja de roupas, na Avenida Getúlio Vargas, eles entraram brigando. “Um grupo de cinco corria atrás de um garoto, que tentou se refugiar aqui dentro. Um dos perseguidores atirou uma pedra, tirada do calçamento e quase quebrou uma vitrine que custa mais de R$ 2 mil”, conta um dos balconistas.

Nenhum deles fala com ódio, mas com indignação. Não entendem o porquê de esses meninos estarem na ruas. “Às vezes, tenho a impressão de que até a PM cansou de tanto levar a mesma criança várias vezes ao Conselho Tutelar”, diz Magela. Enquanto ele fala, do outro lado da Avenida Afonso o grupo assedia pedestres e motoristas. Surfam perigosamente nos ônibus ou se agarram à lataria do veículo para descer e subir a via. No meio da semana, só por diversão, levaram quase todo o estoque de guarda-chuvas e sombrinhas de uma pequena loja.

São os capitães do asfalto, numa analogia ao romance Capitães da areia, de Jorge Amado, sobre um bando de menores de rua em Itapagipe (BA) na primeira metade do século 20, com uma diferença de estilos no modo de agir dos personagens. Na obra do escritor baiano, filmada e em cartaz na cidade, o grupo liderado por Pedro Bala é mais violento e age como máfia, com certa organização, e a polícia podia agir com rigor. Já os do entorno da Praça ABC, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, agem desordenadamente, mesmo na companhia de um adulto. Um não, dois rapazes de 22 anos.

Análise da notícia
Crianças invisíveis
Paulo Nogueira

Pobre do país que não cuida de suas crianças, ou seja, do seu próprio futuro. O problema crônico de menores abandonados na ruas parece sem fim. É uma guerra diária nas ruas, às vezes silenciosa, às vezes escancarada, refinada por um coquetel fatal: incompetência do poder público, desagregação familiar, indiferença da sociedade, drogas, violência e morte. A população não os vê no dia a dia das ruas. Eles só se tornam visíveis quando viram ameaça, e aí se tornam monstros. O problema vem do berço das casas desses meninos e deste país de 500 anos de exclusão social. A solução, ao que parece, também é de longo prazo e depende essencialmente de uma palavra: educação.


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