
Em menos de 48 horas, quatro ônibus foram incendiados em Belo Horizonte e na Região Metropolitana da capital, no que seria uma represália às ações de varredura realizadas na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na segunda-feira. Um bilhete com ameaças teria sido deixado em um dos coletivos. A polícia também já sabe que a mulher apontada como a mandante de um dos ataques é casada com um detento do presídio. A Secretaria estadual de Defesa Social (Seds) nega relação entre as investidas e a operação pente-fino.
Nessa quinta-feira, porém, a Divisão Especializada de Repressão a Organizações Criminosas (Deroc) assumiu o caso. Uma força-tarefa envolvendo todo o departamento da Polícia Civil de Belo Horizonte e da Região Metropolitana e a Subsecretaria de Administração Prisional foi montada para dar apoio às investigações. Segundo o Sindicato das Empresas Transportadoras de Passageiros Metropolitano (Sintram), o prejuízo chegaria a R$ 800 mil. A Polícia Militar, que atribui a ação a vandalismo, e não a facções criminosas, prometeu reforço no policiamento nos locais dos ataques e nos corredores de acesso a BH e Região Metropolitana.
De acordo com as investigações, Eliza Camões Batista, de 50 anos, detida no Bairro Nova Contagem, em Contagem, é mulher de um preso, cujo nome foi mantido em sigilo, condenado por um crime considerado leve. Eliza foi localizada a partir de denúncia anônima sobre tráfico de drogas, na tarde de quarta-feira. Os policiais militares se surpreenderam quando ela contou que ordenou, “em tom de brincadeira”, a investida contra o ônibus a um grupo de menores. Com pedras e pedaços de pau, cerca de 10 adolescentes atacaram um coletivo da viação Ipê Amarelo, a três quilômetros da penitenciária. O coletivo estava cheio, mas todos os passageiros puderam descer.
O quarto ônibus foi incendiado no Bairro São Luiz, na Região da Pampulha, na noite de quarta-feira. Dois homens de moto se aproximaram do ponto final da linha 5401, que faz o trajeto São Luiz-Dom Cabral, um dos bandidos sacou a arma, mandou que motorista e trocador saíssem e, com uma garrafa pet cheia de gasolina, ateou fogo ao coletivo. Testemunhas dizem que eles fugiram em direção à Avenida Otacílio Negrão de Lima e que ainda ameaçaram os funcionários para que não combatessem as chamas.
Pente-fino
O bilhete citado pela polícia faria referência à megaoperação da Seds na Penitenciária Nelson Hungria, que recolheu celulares, trouxinhas de drogas, facas e outros materiais irregulares. Cerca de 400 agentes penitenciários participaram das revistas e dois presos que tentaram impedir que suas celas fossem vasculhadas acabaram feridos por armamento não-letal. Em tom de ameaça, o texto exigiria o fim da repressão, sob pena de outros ataques a ônibus e até mortes: “Se continuar nos reprimindo vamos bota (sic) fogo nos ônibus e vamos matar”. O assessor de imprensa da Polícia Militar, capitão Gedir Rocha, não confirmou o conteúdo do bilhete, que teria sido entregue pelos policiais militares à 16ª delegacia, na Região da Pampulha. Segundo ele, iria atrapalhar as investigações. O texto foi redigido no boletim de ocorrência, mas o original não foi anexado.
“O sistema de inteligência está trabalhando em conjunto e o fato ainda está sendo apurado, mas, de início, trabalhamos com vandalismo. Foram casos isolados. Reforçamos o policiamento nos principais corredores de acesso à capital e Região Metropolitana e também nos locais onde aconteceram os incêndios”, afirmou o oficial. “A sociedade também pode ajudar, repassando informações para o 181”, sugeriu o capitão.
Os outros ataques foram em Vespasiano, no Bairro Gávea II, também na Grande BH, e no Bairro Coqueiros, Região Norte – este último na noite de terça-feira, assim como o caso de Contagem. Em Vespasiano, o ônibus, alvo de dois encapuzados, estava no ponto final, na Avenida 3. O Sindicato das Empresas Transportadoras de Passageiros Metropolitano não quis comentar os ataques.
