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Estado de Minas

Usuária de crack relata primeira semana de luta contra o vício


postado em 31/03/2011 07:45 / atualizado em 31/03/2011 07:57

Decidida a deixar o vício, M., em processo de desintoxicação, relatou ao EM o drama de 15 anos de dependência(foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press - 23/03/2011 )
Decidida a deixar o vício, M., em processo de desintoxicação, relatou ao EM o drama de 15 anos de dependência (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press - 23/03/2011 )
Sete dias depois de internada por causa de uma recaída pelo uso de crack, a pedagoga M.B.P., de 47 anos, está prestes a receber alta e iniciar nova fase de sua batalha contra a dependência. Sob o efeito de medicamentos como antidepressivos e calmantes, a mulher, que há uma semana relatou ao Estado de Minas, em um pedido desesperado de socorro, a luta de 15 anos de dependência, deve deixar na quarta-feira o hospital do Ipsemg. Em tratamento para desintoxicação desde o dia 23, ela recebe cuidados médicos na unidade, onde diz estar enfrentando os piores dias de sua vida, devido à crise de abstinência.

Não é uma batalha solitária. Somente no ano passado, segundo o Centro Mineiro de Toxicomania, da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), 2,2 mil pessoas buscaram tratamento para o combate à dependência química no estado. Para quem se decidiu a enfrentar o desafio, especialistas alertam: o mal-estar causado pela falta do tóxico é comum, assim como a chamada fissura pela droga, que pode voltar a qualquer momento na vida do dependente.

Aos 47 anos, pedagoga e professora da rede municipal e estadual de ensino, M.B.P. vive numa cidade do Centro-Oeste de Minas, é mãe de dois filhos de 9 e 14 anos e tem boa condição financeira, apesar de já ter gastado fortunas com a pedra. Influenciada por um amigo, experimentou o crack, droga que a jogou em uma escravidão de 15 anos. Depois de conseguir se afastar da pedra por três anos, sofreu uma recaída, o que a fez procurar tratamento. Por falta de vaga na internação psiquiátrica do hospital do Ipsemg, amargou quatro dias de espera.

Uma semana depois de iniciar o tratamento, decidida a enfrentar a droga, a pedagoga contou que as três noites anteriores representaram um “verdadeiro pesadelo”. “Foram as piores da minha vida. Tive angústia, depressão. Hoje comecei a melhorar, mas estou me sentindo ociosa. Não estou conseguindo me concentrar em nada”, relatou. Amante de literatura, M.B.P. levou livros para o hospital, mas os sintomas têm impedido a leitura. “Não estou com fissura pela droga, mas, como nunca tinha tido uma crise dessas, estou estranhando”, relatou.

Tratamento

Sem comentar o caso específico de M.B.P, o psiquiatra do Ipsemg Paulo José Teixeira, que atende a paciente, explica que a dependência é uma doença crônica e, como tal, ultrapassa questões médicas. “Depois da internação, a própria pessoa tem de buscar apoio na comunidade em que vive. Há muitas casas de recuperação que fazem esse papel, mas tudo depende do usuário. Não existe uma regra que dite quanto tempo um paciente deva ficar internado”, explica, contando que, nos melhores serviços de tratamento, a taxa de abstinência é de 30%. “Quanto mais se tenta, maior é a chance de largar a droga. Mas a fissura pode voltar a qualquer momento. Por isso, o dependente não pode desistir. Precisa buscar recursos na área de saúde mental, com profissionais preparados que tenham condição de trabalhar a possibilidade de novas recaídas”, avisa.

Na opinião de Raquel Martins Pinheiro, diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, um tratamento de nove meses é um período bom para o usuário. “É um prazo para que ele nasça de novo”, compara, ressaltando que ainda não existe medicação que combata o desejo de usar drogas. “Por isso, a força de vontade tem que ser grande”, alerta. Na unidade dirigida por ela, é crescente o número de usuários de crack em busca de ajuda. Em 2009, das 1.040 pessoas que procuraram tratamento, 39% eram dependentes da pedra. Em 2010, esse percentual passou para 42%. “Muitos acabam voltando. Em 27 anos de história do centro, 35 mil dependentes já foram atendidos e 40% tiveram recaídas.”


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