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Estado de Minas entrevista/Maurício Abrão - Médico

Vida dedicada à saúde das mulheres

Ginecologista paulista ganha reconhecimento internacional com trabalho sobre endometriose


16/05/2021 04:00

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)


Mauricio Abrão é médico, professor de ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Setor de Endometriose da instituição. É coordenador do Setor de Ginecologia Avançada da Beneficência Portuguesa de São Paulo; vice-presidente da Associação Americana de Ginecologia – primeiro médico de fora dos Estados Unidos a assumir a posição global. É referência internacional em cirurgia ginecológica, endometriose e infertilidade. Com mais de 150 artigos internacionais e cinco livros publicados, recentemente foi eleito um dos cientistas mais influentes do mundo por uma pesquisa publicada na revista científica PLOS Biology/Stanford University. Também ministrou cursos e palestras na Harvard Medical School e no Vaticano. Hoje, nos esclarece um pouco sobre endometriose, doença que afeta 6,5 milhões de brasileiras, anualmente.
 
O que o levou a ser médico e por que escolheu a ginecologia?
Decidi ser médico na minha adolescência. Tive grande influência do meu pai, que era um médico de renome. Nessa época, gostava muito de cuidar das pessoas, e essas foram as minhas inspirações iniciais. Já naquela época, antes de eu entrar na faculdade, gostava de sair com ele, acompanhá-lo no hospital, quando ia visitar algum paciente. A partir daí, desenvolvi um carinho muito grande pela área. Obviamente que isso também influenciou a minha especialidade. Ser ginecologista me permite ter uma série de oportunidades, fazer com que eu olhe o todo e cuide da mulher em várias fases da vida.
 

"Sempre que a mulher tem endometriose, seja pela dor e/ou pela dificuldade de engravidar, isso pode gerar um grande impacto emocional"

 

Como foi o início da sua carreira?
Foi muito interessante porque eu mesclava algumas atuações na Faculdade de Medicina da USP, onde após acabar a minha residência fui preceptor, cuidei dos alunos da graduação e dos residentes. Isso foi um celeiro muito grande de aprendizado. Eram cerca de 180 alunos e 16 residentes por ano. Para esses 180 alunos, acabávamos dando 12 cursos de ginecologia por ano, com subgrupos de 15 alunos aproximadamente. Com isso comecei a investir em uma clínica privada e em pesquisas. Foi aí que percebemos que existia um tema mal explorado, uma doença chamada endometriose, e que pouca gente olhava com rigor. Era uma grande incógnita até então. Essa foi uma das razões por que escolhi a endometriose para começar.

Sua carreira é focada na endometriose, infertilidade e em cirurgia ginecológica. Por que essas áreas?
Na época da faculdade, conversei com o professor titular da USP e falei que seria interessante criar um setor dedicado à doença. Ele até estranhou essa demanda, mas como eu era muito atuante na disciplina, acabou topando. Obviamente, foi uma decisão certeira. Com o tempo, fui me aprimorando e fiz um curso de cirurgia laparoscópica na Bélgica, isso na década de 1990. Então, comecei a ver a necessidade também de juntar a infertilidade, porque muitas vezes quem olha para a infertilidade não olha para a endometriose e vice-versa, e essas são coisas absolutamente casadas.
 
Endometriose é o medo de toda mulher. É de conhecimento geral – popular – que quem tem endometriose não pode ter filhos. Isso é mito ou é verdade?
Hoje, beira o que se chama de mito. É raro que com os avanços tecnológicos, terapêuticos e diagnósticos, uma mulher portadora de endometriose não consiga atingir esse objetivo. Se ela for bem tratada, terá grandes chances de poder engravidar. Obviamente, terá caminhos específicos, mas isso é um fato, atualmente.

Geralmente, o diagnóstico de endometriose é tardio, e sempre vem acompanhado de relatos de cólicas fortíssimas. Por que da dificuldade no diagnóstico?
Acho que a dificuldade do diagnóstico passa por questões diferentes. Primeiro, é o desconhecimento da classe médica por muitos anos sobre o assunto, e a valorização dos sintomas desse tipo de problema. Por muitos anos, os médicos demoraram a pensar nessa questão. Mas lideramos várias ações frente as sociedades médicas, fundamos a Sociedade Brasileira de Endometriose. Atuamos também nas associações internacionais. Tudo é voltado no sentido de fazer campanhas de conscientização dos médicos. O segundo ponto é das pacientes. Como é uma doença benigna, existia aquele conceito antigo de que a cólica passava depois de se casar. O que é um engano se tem a endometriose por trás. Isso também lentificava a chegada da paciente até o médico. Hoje, sabe-se que o tempo de diagnóstico é de sete a 12 anos e quanto mais jovem é a paciente, mais demora o diagnóstico. E o último ponto é que, por muito tempo, o diagnóstico de certeza era feito por laparoscopia, e isso tem mudado de figura. Nosso grupo publicou um trabalho superimportante nesses últimos dias mostrando que é possível fazer diagnóstico com o ultrassom e com um bom exame clínico; eles podem ser mais eficientes do que a laparoscopia.

Por que causa tanta dor?
A doença pode invadir estruturas, ligamentos, comprometer o peritônio, criar um processo inflamatório principalmente na menstruação. E essa dor muitas vezes pode ser causada até por comprometimento de nervos. Um fato que é importante: toda dor deve ser valorizada, dor é para chamar a atenção de que existe algum problema.

Qual a causa da endometriose?
Hoje, a endometriose tem muitas teorias. Entre elas, a da menstruação retrógrada, que é uma teoria de 1927, por meio da qual é possível saber se quando a mulher menstruava, poderia refluir sangue menstrual pelas tubas uterinas e levar esse sangue menstrual, com fragmentos de endométrio, na cavidade abdominal. Existem teorias genéticas, teorias de disseminação pelo sangue, pelos vasos linfáticos, mas com a menstruação retrógrada, uma teoria que é muito consistente e que vem a partir de 1980, é a participação do sistema imunológico dentro desse processo. É o sangue menstrual que volta pelas tubas uterinas para a cavidade abdominal e o sistema imunológico que facilita isso. A endometriose é uma doença que é difícil falar em cura, mas ela pode ser muito bem tratada e controlada dentro desse contexto.

Quando percebeu a importância do diagnóstico da endometriose para a vida da mulher? O que fez de diferente?
A percepção da importância do diagnóstico da endometriose veio já no começo da minha profissão. Na década de 1990, quando instituímos o ambulatório de endometriose, lá no Hospital das Clínicas (SP), eu percebia uma fila enorme de pacientes que precisariam de laparoscopia. E eu precisaria desenvolver alguma coisa a mais para ajudar essas mulheres. Começamos em 1996, com a minha defesa de doutorado, mostrando que poderiam ter marcadores no sangue que poderiam ajudar. Era o que tínhamos para aquele momento. Depois percebemos que poderíamos ir por outro caminho. Ainda naquele ano, começamos a estudar imagem, e principalmente diagnóstico por ultrassom e por ressonância magnética. Em 2007, publicamos os primeiros trabalhos e isso foi uma grande revolução. Hoje, sabemos que é possível diagnosticar a endometriose com um bom exame clínico, ouvir a paciente, examiná-la e fazer um bom exame de imagem – principalmente o ultrassom para mapeamento de endometriose, que nós desenvolvemos – para que seja feito o diagnóstico do problema, para que possamos definir estrategicamente o tratamento da doença. Isso acabou se disseminando pelo mundo. Nós já treinamos médicos de vários países, como Estados Unidos, Austrália, Itália, Espanha e isso tem feito muita diferença.

Tanto a endometriose quanto a infertilidade causam problemas físicos e emocionais. O que o governo brasileiro poderia fazer para melhorar esse cenário da endometriose no Brasil?
Sempre que a mulher tem endometriose, seja pela dor e/ou pela dificuldade de engravidar, isso pode gerar um grande impacto emocional e um enorme impacto físico. Obviamente, já propusemos junto ao governo várias ações, inclusive recebi um convite do próprio Ministério da Saúde em governos diferentes. Tive a oportunidade de propor ações junto aos programas de saúde da família, capacitando médicos para diagnóstico por imagem, criando centros de excelência, mas infelizmente o olhar dos vários governos não foi suficiente para mudar significativamente a realidade desse cenário no Brasil. Espero, e sou otimista em relação a isso, que no futuro teremos um olhar mais específico para esse problema de saúde pública tão importante que é a endometriose.

O senhor já ministrou palestras em vários países. Como ocorreu o convite para palestrar no Vaticano e ainda explicar sobre a endometriose?
Tudo isso começou em meados de 2000, quando fui convidado para dar uma aula em um congresso importante na África do Sul. Depois acabamos expandindo e principalmente com as publicações que acabaram surgindo, chamamos bastante a atenção da comunidade médica da minha área sobre essa questão. E aí houve uma sequência grande de convites para conferências pelo mundo. Inclusive para a realização de cirurgias ao vivo. Sempre que possível eu mesclava o diagnóstico por imagem com a cirurgia ao vivo, para mostrar não só a importância da técnica cirúrgica, mas da tática cirúrgica, uma construção e indicação das cirurgias. Então eu acabei sendo convidado para operar na Austrália, Israel, Itália, México, Peru, Filipinas, o que acabou ajudando algumas pessoas também. Nessa dinâmica, em 2013, um grupo de médicos, liderados pelo italiano Felice Petragia, foi convidado pelo Vaticano, por uma entidade chamada Academy for Life, que é uma espécie de Ministério da Saúde do Vaticano, a organizar um evento sobre um tema controverso para a igreja católica. E esse tema controverso foi a infertilidade. Convidaram oito médicos do mundo inteiro para falar e eu fui um deles, abordei a endometriose. Depois dessa palestra no Vaticano, publicamos um artigo para a revista International Journal of Gynecology & Obstetrics e no dia seguinte tivemos uma audiência com o papa, que foi muito marcante. Na época era o papa Bento XVI, e foi uma experiência incrível.

O senhor é o primeiro médico fora dos Estados Unidos a assumir uma posição global na Associação Americana de Ginecologia (AAGL). Como foi isso? 
A questão da AAGL começou a partir de 2000. Fui eleito membro do chamado Board of Trustees, que é o conselho médico. Médicos do mundo inteiro que fazem parte do board da sociedade. Ela também tem um board executivo. Eu fui membro em 2009/2010, por dois anos consecutivos, representando a região da América Latina. São médicos do mundo inteiro que são divididos por região. Essa é uma sociedade muito importante porque ela é a maior sociedade de cirurgia ginecológica mundial e originalmente americana, mas que se tornou uma sociedade internacional nesse assunto. Em 2019, recebi uma ligação do responsável pelo comitê de nomeação dessa sociedade perguntando se eu aceitaria ser candidato à eleição, não mais para o Board of Trustees, mas sim para o board executivo, que é uma função que dura quatro anos: começa um ano como secretário-tesoureiro, depois como vice-presidente, depois como presidente e depois como pós-presidente. Eu estava mais envolvido com outras sociedades na Europa, mas pelo peso da sociedade achei importante que isso ocorresse. Eles tinham sete candidatos, entre eles americanos, e, pela primeira vez, eles consideraram um não americano para ser membro do board executivo. Escolheram dois nomes. Fui eleito em outubro de 2019. Dentro da minha plataforma de ações, uma das questões que tenho sugerido é investir em pesquisa, em globalização dessa sociedade e em ações sociais que acho importantes para expandir o diagnóstico da endometriose.

Concilia sua vida pessoal e profissional?
Essa é uma grande alquimia da vida, conseguir alinhar as questões pessoais, familiares e profissionais. Mas com organização e muito preparo emocional, conseguimos gerir esses pontos diferentes da vida. Hoje, tenho relação muito próxima da minha família, da minha mulher e dos meus filhos. Isso acaba sendo importante até como esteio do meu desenvolvimento.

Nos seus planos está a clínica Medicina da Mulher e Reprodução Humana. Quais são os maiores problemas que causam a infertilidade?
Há três anos, recebi convite muito bacana para liderar um projeto de saúde da mulher no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP), com a ideia de formar um dos maiores polos de atendimento à saúde da mulher do país, em termos de hospital privado, e com as minhas ações em hospital público, que é o Hospital das Clínicas. Então, na BP já temos uma atividade muito forte, nos últimos três anos conseguimos atender muitas pacientes, fizemos algo em torno de 1.700 cirurgias, muito focado em cirurgia minimamente invasiva e saúde da mulher, endometriose e doenças afins. Em paralelo, temos trabalhado bastante com reprodução assistida, e a clínica de reprodução tende a se expandir, que é uma meta importante também.

O que tem de novo na fertilização assistida ou em métodos de auxílio para gestação em casais estéreis?
A ideia das melhorias dos resultados é que sejam desenvolvidas técnicas de reprodução assistida, que criam menos risco e maior eficiência para um bom diagnóstico pré-implantação. Tem bastante coisa pela frente, acho que é uma área muito promissora.
 
Por que os tratamentos são tão caros e até mesmo muito sofridos?
Os tratamentos são caros e acabam sendo sofridos também porque a medicação ainda é muito cara e isso depende de uma tecnologia grande no que tange ao laboratório que faz o processo da fertilização, que faz o congelamento dos óvulos, dos espermatozoides e dos embriões. É um processo ainda caro, mas existe a perspectiva, o nosso sonho é que isso possa se baratear com o tempo e até o seguro de saúde possa dar uma cobertura.

Quais as doenças mais comuns na mulher que precisam de maior atenção e prevenção?
Isso é um território enorme, que vai desde as doenças benignas. A endometriose é um dos carros-chefe, a adenomiose, miomas no útero, doenças hormonais, inflamatórias e neoplásicas (cânceres).

Quais os principais cuidados preventivos a mulher tem que tomar?
Além de fazer as consultas de rotina com o ginecologista, cada uma de acordo com a orientação do seu médico, a mulher precisa ficar de olho no seu ciclo menstrual. Por exemplo: uma mulher em idade reprodutiva, se tem menstruação com intervalos longos, curtos, volume aumentado ou diminuído, pode contar várias coisas sobre funcionamento de órgãos diferentes, como útero e ovário, questões hormonais e é um detalhe de prevenção relevante. Tem a questão da prevenção do câncer de mama, a mamografia depois dos 40 anos, a prevenção do câncer de endométrio, de colo do útero, por meio do Papanicolau. Mas uma coisa que é importante é que o médico, por ser ginecologista, por ser médico da mulher, previna também outros tipos de problemas, como o câncer colorretal, pedindo colonoscopia e, mais do que isso, encaminhando para especialistas de áreas diferentes que possam dar seguimento nos demais problemas.

O que traz de novo para a saúde da mulher?
Tem muita coisa nova em diferentes áreas, como os tratamentos hormonais. Nos próximos 10 anos, no tratamento de endometriose, deve aparecer alguma coisa bacana. O diagnóstico melhorou muito e existem outras novidades, principalmente na área cirúrgica, no tratamento minimamente invasivo, que tem melhorado bastante a qualidade de vida da mulher.

Recentemente, você foi eleito um dos cientistas mais influentes do mundo por uma pesquisa publicada na revista científica PLOS Biology. Como se sente com essa posição de tamanho destaque e de que forma vem contribuindo para a ciência no Brasil?
Isso foi uma grata surpresa para mim, é um estudo absolutamente independente, eu não esperava ter sido citado em um estudo como esse. Mas é fruto de um trabalho de muitos anos e fundamentalmente trabalho de equipe. Acho que a equipe que nós formamos é incrível e eu devo muito a todos eles, em áreas diferentes. Isso acaba sendo reconhecido, por isso procuramos fazer publicações que tenham impacto real na vida das pessoas, na vida das mulheres e um pouco do que essa publicação mostrou não foi só o número de publicações que fizemos, mas o impacto delas, que é traduzido de formas diferentes, como o número de citações em outros artigos. Não só eu, mas o time inteiro, ficamos muito felizes com essa referência.

Saiu um artigo na Medical Cannabis Network dizendo que os órgãos pélvicos femininos têm uma densidade muito alta de receptores canabinoides, fazendo com que o tratamento da endometriose com medicamentos à base de Cannabis seja promissor, principalmente na diminuição da dor. Isso procede?
Os estudos ainda são preliminares. 


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